Os laços antropológicos da terceira idade – Observação participante no Capão Redondo.

São Paulo, 12 de Setembro de 2010. Zona Sul , Capão Redondo.

A cidade amanhece com seus moradores ora sonolentos, ora apressados em busca da realização de seus compromissos. Alguns moradores dessa região da periferia da cidade, já estão prontos para iniciar sua rotina dominical, entre eles os idosos são os que mais me chamam a atenção. Passos distraídos caminham em direção ao Parque Santo Dias, que está localizado próximo a uma das avenidas mais movimentadas do bairro. O meu destino é o mesmo, pois busco nesse primeiro relatório, observar as perspectivas que motivam aos que pertencem ao que chamamos hoje grupo da “melhor idade.”

Aos poucos eles vão chegando, aproximam-se uns dos outros, e caminham para o local do parque onde acontece a ginástica direcionada a esse publico.

No geral, as expectativas que os motivam são as mesmas, manter o equilíbrio da saúde do corpo e da mente, porém existe algo maior que os une nessa rotina. Observando a participação dos idosos e a forma como eles se relacionam, pude notar que existe um elo cultural maior do que previa.

Eles participam ativamente das atividades direcionadas ao crescimento e urbanização do bairro, e conhecem melhor que muitos especialistas as histórias e construção social do meio em que vivem.

Nesse primeiro momento, optei em escutar as conversas para colher informações e relatos de diferentes olhares, para que o material de pesquisa seja significante, e me inspirei, mesmo que de forma “tímida” nos relatos apresentados por B.Malinowski.

Essa observação me direcionou para um novo objeto de pesquisa, a construção social desse grupo pertencente ao mesmo bairro. O que me fez categorizá-los como grupo, foi a percepção desse elo cultural adquirido ao longo dos anos, e que somente pode ser percebida nessa fase da vida de ambos, pois é simplório demais afirmar que pertencem a um grupo social, limitando-os ao quadro de desenvolvimento biológico do ser humano, e deixar de observar a construção social de suas histórias seria um grave equívoco.

A manhã desse domingo estava ensolarada, e as conversas surgiam naturalmente entre eles. Assuntos sobre as atividades do parque e o crescimento do bairro eram o que predominavam. Eles demonstravam, mesmo que de maneira informal, conhecer muitos detalhes sobre o que era e o que é hoje o Capão Redondo. Estes demonstraram também, orgulho nas palavras, orgulho de sua participação mesmo que apenas como parte de um todo, orgulho de ter vindo com suas famílias para o bairro, quando este era apenas uma localidade distante, em que terras foram compradas por famílias , em sua maioria adventista que vieram para trabalhar no Instituto Adventista de Ensino, atual UNASP. Esse grupo, hoje pertencente a terceira idade possui suas raízes fincadas nesse bairro, disseminam o orgulho pelo bairro através de suas histórias narradas para os demais moradores, automaticamente esse orgulho se propaga aos demais.

Embora exista muitas coisas em comum, entre eles não existe a consciência desse elo cultural, eles apenas vivem e constroem suas expectativas baseada nessas vivências, porém não possuem esse olhar de um todo, do que representam. As individualidades de cada um passa a ser menos importante (pelo menos para o foco dessa pesquisa) quando passamos a observá-los como um grupo que se desenvolveu como resultado do meio em que vivem. Esse meio, os direcionou para diferentes objetivos pessoais, uns tornaram-se comerciantes no bairro, outros são aposentados. Alguns possuem a saúde e a aparência mais zelada que outros. Talvez podemos dizer (sem uma análise muito profunda) que o resultado desse envelhecimento saudável entre a maior parte dessa geração do Capão Redondo, seja resultado da tradição implantada pelos primeiros moradores, a tradição da saúde controlada pelos costumes adventistas.

Por outro lado, é comum encontrar nesse bairro, um outro lado desse processo de envelhecimento, aqueles que se opuseram as tradições adventistas e que fazem da boemia uma verdadeira rotina. Podemos encontrá-los nos bares e padarias, e os assuntos que os rodeiam são, mesmo que com narrativas e perspectivas diferentes, os mesmos. Como aconteceu no domingo anterior , por volta das oito horas da manhã.

Voltava de um bar do centro da cidade, e desci com dois amigos no ponto em frente a padaria, não pensamos duas vezes, continuamos nossa jornada pelos bares e padarias da cidade, como de costume. Em meio as nossas conversas e rodadas de cerveja, um senhor que chamarei de H. (65 anos) se interessou por nossas conversas e colocou uma cerveja em nossa mesa, dizendo estar paga por ele. Aconteceu o inverso, não foi necessário grandes esforços para me aproximar dele para colher seus relatos pessoais, ele mesmo veio até nós, com muita simpatia e alegria em participar da nossa mesa. As conversas variavam, e como estava com dois músicos na mesa, falar sobre clássicos foi inevitável. Ele nos mostrou seu talento com a música e cantou para a mesa trechos de Loius Armstrong, incorporando perfeitamente o original, pois possui características físicas semelhantes, é negro, calvo e possui uma voz incrivelmente rouca. O senhor H . contou-nos sua história no Capão Redondo, e demonstrou muito carinho com o seu passado e suas lembranças neste bairro. Contou-nos sobre suas vivências pelo Brasil a fora, pois trabalhou muitos anos em uma empresa que prestava serviços de arquitetura, ele era o marceneiro responsável pelo desenvolvimento dos materiais necessários. Hoje, aposentado prefere permanecer no bairro, pois sua vida é reservada e tranquila. Não costuma participar das atividades do parque, ele prefere tomar sua cerveja na padaria com seus amigos, e conquistar novas amizades. Após passar por um processo de internação devido a um infarto, hoje ele equilibra mais a dose da cerveja e evita cigarros. Esqueci de mencionar, que ele se considera um cidadão brasileiro, embora tenha nascido no Peru. As viagens que o trabalho lhe proporcionou ao longo de vida, criou-lhe um grande sentimento de nacionalidade. Narrou de forma natural e descontraída sobre suas passagens pelo Mato Grosso, Rio de Janeiro, e outros lugares do país, e os rastros que deixou com esse passado considerado por ele, bem vivido. Em cada parte em que esteve, cultivou amigos, mulheres e até um filho que não o conhece.

A história do senhor H. serve para ilustrar o antagonismo que existe nessa geração. De um lado, encontramos idosos ativos e preocupados com alimentação e saúde, do outro lado, encontramos idosos saudáveis, sedentários e que não trocam um copo de cerveja com os novos amigos por quaisquer tradições religiosas, mas a cultura que ambos reproduzem involuntariamente em suas palavras, é sem dúvida o elo que os une nessa sociedade, e o que nos faz categorizarmos como um grupo, pertencente a melhor idade.

 

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Um pensamento sobre “Os laços antropológicos da terceira idade – Observação participante no Capão Redondo.

  1. Edson ( BiLL ) 16 de setembro de 2010 às 18:40 Reply

    Boa análise… É como falo com algumas pessoas o Capão Redondo está a muito tempo sendo uma região para aposentados…Até uma boa parte dos jovens não estão passando da juventude…

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