BASES ANTROPOLÓGICAS DA CIDADANIA BRASILEIRA: SOBRE ESCOLA PÚBLICA E CIDADANIA NA PRIMEIRA REPÚBLICA

Análise crítica sobre o texto de Lilian do Vale

No texto analisado a autora apresenta a construção da educação na Primeira Republica e suas ambiguidades. A autora faz uma análise sobre essa construção, e aponta para o momento político e as diferentes correntes ideológicas que estão em torno desta questão conflitante e importante. De um lado, os liberais defendem a centralização da escola como responsabilidade do Estado, eximindo assim a participação da família e da religião. Neste caso Estado deveria ser laico e exercer mais influência na educação das crianças que seus próprios pais. Por trás deste ideal, existia o desejo de controle do Estado sobre o povo para que o sentimento de patriotismo fosse despertado contribuindo assim para o desenvolvimento do país. Contrário a este pensamento, surgem os federalistas, que desejam a divisão de responsabilidade na educação entre as unidades da federação. Estes, ligados às antigas tradições, defendiam também a participação ativa da família e utilizavam o discurso de perda de autoridade dos pais sobre seus filhos. A religião defendia esta linha de pensamento, pois tinham o interesse em não perder sua influência na educação. Alguns acreditavam que a educação poderia ser de responsabilidade do Estado, entretanto os valores religiosos deveriam ser disseminados na população. Em meio a esses conflitos de interesses, os federalistas possuíam maior aceitação popular, pois despertavam o medo com o discurso de rompimento com os velhos costumes e conceitos existentes. Dessa forma, a educação passa a ser responsabilidade das unidades federativas, e o Estado não possui autonomia para padronizar a educação e distribuí-la de forma igualitária. Cada federação limita suas unidades de ensino a uma camada específica da população, desencadeando o processo de segregação social, em que somente as classes dominantes possuíam acesso ao conhecimento através do poder aquisitivo, o que levou a educação tornar-se uma barreira de acesso à cidadania para a camada mais pobre, que normalmente já se acostumou a ficar à margem de toda sorte de necessidades, inclusive educação. Hoje sofremos alguns problemas na educação que são conseqüências desse processo de construção e bases ideológicas. O que podemos notar é que o Brasil passou por um processo de identificação cultural na educação, de certa forma mal resolvido, pois essas diferentes correntes ideológicas continuam e a educação não consegue definir exatamente o seu papel. Apresenta interesses voltados ao crescimento econômico (escolas técnicas de ensino) e escolas particulares, e de uma forma desestruturada existe o ensino publico que tenta suprir as lacunas resultantes desse processo, onde uma camada da população continua com acesso limitado a educação. O Estado continua sofrendo influências ( mesmo que de forma indireta) dos costumes e conceitos religiosos, e a família por sua vez, não consegue identificar seu papel na educação. Hoje, ainda lutamos pela cidadania através da educação, entretanto é uma luta repleta de ambiguidades (não diferente da Primeira República), as classes dominantes continuam tendo acesso às melhores instituições de ensino, e a educação por sua vez continua sendo um fator de segregação social. Ao analisarmos os dados apresentados pela autora, podemos refletir sobre as possibilidades existentes, e as escolhas do país em um momento que definiu não só o caminho da educação, mas também de toda a história política e social do país. De fato, a única afirmação que podemos fazer é que estamos vivendo na educação as conseqüências de escolhas baseadas nos velhos costumes e interesses conservadores implantados pela monarquia. Não sabemos ao certo como estaríamos hoje, caso a ideologia liberal tivesse prevalecido naquele momento. Talvez, teríamos dado um passo importante para o país, cortando os laços com a monarquia, deixando para trás os velhos costumes religiosos, implantando no país o sentimento de nacionalidade. O pensamento liberal, hoje não cabe como melhor opção, mas naquele momento o país certamente necessitava de uma identidade, uma construção de nacionalidade que deveria ter iniciado nas escolas, implantando no povo a consciência política e social.

Não podemos afirmar que todos esses aspectos teriam sido positivos para nossa história, pois sempre existem ideologias nascendo em torno destas questões, entretanto podemos afirmar que existiam duas opções, e a opção escolhida foi derivada de interesses múltiplos, sempre atendendo aos interesses imponentes e decisivos, das classes dominantes.

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