Refletindo após ler Darcy Ribeiro – Os brasileiros – Teoria do Brasil

Darcy Ribeiro inicia sua obra baseado nos estudos antropológicos da civilização. O autor no decorrer da obra deixa clara a  sua influência nas teorias de Marx, tanto no que se refere ao materialismo histórico, quanto na dialética herdada de Hegel.

Darcy Ribeiro deixa claro também que utilizará da antropologia dialética para estudar as diversas formações civilizatórias, não se atendo somente a antropologia cultural, que ao seu ver não se propõe à análise crítica social, somente ao estudo de suas formações.
  O estudo comprova que todas as sociedades sofrem influências de um sistema (hoje capitalista) e a partir dessas influências, as mesmas vão mudando, ou simplesmente moldando seu modo de viver, são os chamados processos de deculturação e aculturação.
 Hoje por exemplo, vivemos em uma sociedade de troca,  de bens de consumo onde os meios de produção sofrem constante mudanças, e a vida dos homens automaticamente sofrem consequências, por uns julgadas negativas, por outros positivas. Não entraremos nesse mérito. Mas e as civilizações que se encontram distantes desse processo, como será que sobrevivem?  Será que realmente não sofrem influências desse sistema uniformizador e desigual?

Responderei conforme Darcy Ribeiro “Somente os povos que viviam ou se refugiaram  em áreas inascessíveis conseguiram escapar a essa uniformização, marginalizando-se da nova civilização. Sem embargo, até para eles a preservação da sua  cultura original passou a depender menos da sua vontade que da dinâmica dos novos processos civilizatórios que, expandindo-se continuamente acabariam por alcançá-los onde quer que se refugiassem” pg.38 (Estudos da Teoria do Brasil).Nem preciso dizer, que esta é apenas uma das primeiras consequências desse  sistema a qual Marx já apontava em plena revolução industrial na Europa. Tudo o que vem depois, é consequência. Toda a desigualdade a quem Rousseau atribuía a propriedade privada, ainda vemos hoje.Toda a luta de classes a quem Marx atribuía aos mecanismos de produção, ainda vemos hoje. E não somente nossa sociedade capitalista passa por esses problemas. Se observarmos a situação a qual se encontram nossos poucos índios, as poucas tribos…todas passam pelo mesmo sistema desigual. Vivem às margens de uma sociedade que reprime seus costumes. O índio de hoje, sofre influências em seu modo de viver, de pensar e até de consumir. Suas necessidades são apontadas por órgãos que julgam o que é e o que não é do índio. Eles até definem o que é ser índio.
Podemos claro utilizar a  antropologia cultural e realizar estudos sobre quaisquer civilizações,  geralmente as tribais são as mais requisitadas pelas suas singularidades e complexidades, e esses estudos são válidos para a preservação dos seus costumes. Entretranto é importante lembrarmos que ao longo dos anos essas civilizações também sofreram alterações devido o impacto do mundo ocidental, que tenta uniformizar seus costumos, seus conceitos e suas necessidades para sua manutenção. Sistema esse,que tende a ser mantido através da economia, que dita todas as regras. Primeiro vem a ordem social movida pela economia, depois o homem cria as leis para assegurar e ditar as regras desse sistema, e conseqüentemente surge a ideologia que impera sobre o homem, que agira com um poder ainda maior que a  primeira ordem. Podemos perceber que os fatores econômicos, as leis e a ideologia são ferramentas básicas para estruturar uma sociedade, mas não podemos deixar de mencionar os aspectos religiosos e místicos, que possuem o papel fundamental de conformar todo o povo, não só os massacrados e excluídos, como também aqueles que se sobrepõe a esse sistema e aceitam sua posição economicamente superior como conseqüência natural de um mundo em que Deus sabe o que faz, ou acreditando que sua posição seja conseqüência do fruto íntegro do seu trabalho, e os demais devem buscar a mesma sorte. Este pensamento cristão, por mais que na teoria seja mencionado o amor ao próximo, na prática isso se torna o individualismo cruel, em que uns lutam incessantemente pela sua posição superior, acima de outros seres humanos, mas que a esta altura esquecem o que é ser um ser humano. Sinônimo de humanidade hoje é ter desejos e meios de conquistá-los, é o poder material. Todos os homens que não possuem essa capacidade, infelizmente são jogados ao acaso, esquecido, e seus mais singelos desejos animais e necessidades vitais são esquecidas a cada dia que a história vira sua página nos livros de escolas. O homem passou a valorizar a imagem, idealizando o perfil e padrão de vida do seu superior como o o ideal para sí, e todo o resto passa a ser considerado insignificante.

 Construir uma idéia própria para sí, tornou-se conflitante para o homem, pois este quando não se enxerga dentro do padrão considerado por ele como “ideal” sente-se frustrado socialmente e utiliza sua imagem para provar socialmente seu valor. O valor social, em primeiro lugar é econômico, mas em segundo lugar a aparência que age como fator primordial, principalmente para a classe que não se encontra na linha da miséria, mas que também não fazem parte da classe dominante, são eles: os operários, os autônomos, etc.

A idéia da classe dominante, como disse Marx, sempre foi a idéia dominante.

O homem, após criar uma economia onde privilégios são destinados a pequena parte da população, e criar mecanismos para a manutenção e preservação desse sistema através das leis do homem e dos conceitos de leis divinas, insere a idéia de naturalidade e idealização de perfil ideal do que é ou não é do homem. Essa é a estrutura que move o atual mundo em que vivemos, e isso na prática, saindo das estatísticas e atentando-se a realidade cotidiana, resulta em toda a desgraça a que presenciamos diariamente  fruto da desigualdade e exclusão social. Um mundo em que não oferece condições básicas de sobrevivência para suas crianças, não disponibiliza para cada novo cidadão um pedaço de chão para ter a dignidade animal de preservar sua existência e a liberdade moral de viver e cronstruir seu vínculo com a dignidade de um cidadão,  um mundo em que milhares acordam e dormem sem ter o que comer, e sem perspectivas para o amanhecer, enquanto outra pequena parcela da população exibe o excesso e vende a idéia do “natural”, podemos observar sem nenhuma demagogia, que esse mundo carece de grandes mudanças, quem sabe se o homem passar a observar os demais animais, que julgados irracionais conseguem vivem e sobreviver com a dignidade de sua raça, sem massacrar, explorar e subjulgar seus semelhantes numa corrida louca rumo ao exibicionismo. Numa batalha tão irracional quanto a briga de galos, em que estes animais saem de uma forma ou de outra feridos. O homem, seja o milionário que perde a vida ao desfilar com seu rolex, ou o miserável que tentou furtar-lhe e perdeu a vida pelo fracasso do seu destino.

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