Gina, a mulher brasileira e mais algumas coisas…

Vocês conhecem a Gina?

Eu támbém não a conhecia, até que essa semana saiu uma matéria do Gabriel Bonis na Carta Capital sobre essa figua. Gina é uma personagem do desenho animado português Café Central .

A proposta do desenho é articular sobre atualidades com personagens sarcáticos e humor inteligente, porém algumas manifestações ocorreram após a criação de uma personagem feminina brasileira, a qual é tratada no programa como prostituta e maníaca sexual.

O desenho, longe de ser engraçado é apenas mais um humor que prega o machismo e categoriza a mulher brasileira de maneira cruel, sustentando os estereótipos que ao longo dos anos tentamos reverter.

Esses estereótipos tem causado graves problemas as nossas companheiras que tentam como qualquer outra mulher no mundo sobreviver, e por em pauta os seus anseios individuais. O que me deixa realmente triste, é ver o posicionamento através de comentários dos leitores sobre essa situação. Muitos acreditam que isso é normal, e é “só uma piada”. Não conseguem medir as consequências que esse tipo de “piada” pode causar.

Algumas mulheres contribuem para a marginalização da imagem da mulher brasileira, e sou daquelas que defendem que o feminismo deve ser tratado antes de tudo com as próprias mulheres. Deveria haver uma “consciência de classe”, lembrando que essa questão de classe não seria para limitar ou impor o que deve ser de direito do homem ou a mulher, e sim para lembrar às mulheres que nossa liberdade e nossos direitos foram conquistados e hoje é necessário sabermos usar nossos direitos e nossa liberdade para que o excesso do que nos foi dado não se vire contra nós. As propagandas em geral tem apelado para a imagem da mulher brasileira, fortalecendo a idéia de que somos peitos e bundas, que somos entretenimento do sexo masculino. Longe da realidade, essas propagandas embora pareçam “engraçadinhas” e “inocentes” põe no ralo toda a discussão que as feministas tem tentado levantar.

No país de Cabral, tem havido mobilizações das mulheres, pois elas sentem diariamente o que é ser mulher brasileira na europa.

Infelizmente Gina é apenas mais um exemplo do que afirmam e reafirmam sobre as brasileiras.

” A idéia já cristalizada de que toda brasileira está sempre disponível, hipersexualizada e presa fácil. Isso vem acarretado muitos problemas e conflitos e mesmo gerando  agressoes simbólicas, psicológicas e físicas. E essas agressoes se dao na esfera privada, pública e nos meios de comunicacao. Muitas denúncias e acoes sao realizadas pelos movimentos de mulheres,  além de solicitacoes de apoio às entidades locais e representacoes brasileiras. Hoje de manha recebemos o Manifesto das mulheres de Portugal, que retrata fielmente a situacao que estao sofrendo por lá e que pode ser extendido para praticamente para toda a Europa. Os problemas já podem comecar nos aeroportos em que desembarcam. Estamos nessa luta contra esse estígma machista, sexista e xenófoba e muitas das vezes racista e neocolonial que se abate contra as mulheres brasileiras por aqui” – Ras Adauto Berlin

No blog da Maria da Penha ela pede para assinarmos o manifesto de repúdio contra o machismo em Portugal “mexeu com uma mexeu com todas”!

Manifesto em repúdio ao preconceito contra as mulheres brasileiras em Portugal, em função do mais recente caso de estigmatização das brasileiras na comunicação social portuguesa, o programa Café Central da RTP. Solicitamos o seu apoio!

Manifesto em repúdio ao preconceito contra as mulheres brasileiras em Portugal

Vimos por meio deste, manifestar nosso repúdio ao preconceito contra as mulheres brasileiras em Portugal e exigir que providências sejam tomadas por parte das autoridades competentes.

Concretamente, apontamos a comunicação social portuguesa e a forma como, insistentemente, tem construído e reproduzido o estigma de hipersexualidade das mulheres brasileiras. Este estigma é uma violência simbólica e transforma-se em violência física, psicológica, moral e sexual. Diversos trabalhos de investigação, bem como o trabalho de diversas organizações da sociedade civil, têm demonstrado como as mulheres brasileiras são constantemente vítimas de diversos tipos de violência em Portugal.

O estigma da hipersexualidade remonta aos imaginários coloniais que construíam as mulheres das colônias como objetos sexuais, escravas sexuais, e marcadas por uma sexualidade exótica e bizarra. Cita-se, por exemplo, a triste experiência da sul-africana Saartjie Baartman, exposta na Europa, no século XIX, como símbolo de uma sexualidade anormal. Em Portugal, esses imaginários coloniais, infelizmente, ainda são reproduzidos pela comunicação social.

Teríamos muitos exemplos a citar, mas focaremos no mais recente, o qual motivou um grupo de em torno de 140 mulheres e homens, de diferentes nacionalidades, a mobilizarem-se, a partir das redes sociais, para escrever este manifesto e conseguir apoio de diferentes organizações da sociedade civil. Trata-se da personagem “Gina”, do Programa de Animação “Café Central” da RTP (Rádio Televisão Portuguesa). A personagem é a única mulher do programa, a qual, devido ao forte sotaque brasileiro, quer representar a mulher brasileira imigrante em Portugal. A personagem é retratada como prostituta e maníaca sexual, alvo dos personagens masculinos do programa. Trata-se de um desrespeito às mulheres brasileiras, que pode ser considerado racismo, pois inferioriza, essencializa e estigmatiza essas mulheres por supostas características fenotípicas, comportamentais e culturais comuns. Trata-se de um desrespeito a todas as mulheres, pois ironiza/escarnece sua sexualidade, sua possibilidade de exercer uma sexualidade livre, o que pode ser considerado machismo e sexismo. Trata-se, ainda, de um desrespeito às profissionais do sexo, pois ironiza o seu trabalho, transformando-o em símbolo de deboche/piada/anedota, sendo que não é um trabalho criminalizado em Portugal, portanto, é um direito exercê-lo livre de estigmas. No anexo 1 desta carta estão: o vídeo de um dos episódios (na versão on-line), e a transcrição de um dos episódios, bem como, a imagem dos personagens (na versão impressa). Destacamos que o fato é agravado por se tratar de uma emissora pública, a qual em hipótese alguma deveria difundir valores que ferem o direito das mulheres e da dignidade humana.

Além deste caso que envolve a televisão, existem muitos outros em revistas, jornais e publicidades, que exemplificam a disseminação do estigma em vários meios de comunicação de massa e cujos exemplos seguem em anexo. Seja qual for o meio de comunicação utilizado, é constante a representação estereotipada da mulher brasileira como objeto sexual, o que acaba por interferir na forma como as imigrantes brasileiras são percebidas e tratadas dentro da sociedade portuguesa.

-Anexo 2: a capa da Revista Focos, edição 565/2010, a qual apresenta as mulheres brasileiras como sedutoras e as representa com uma imagem cujo destaque é a bunda;
-Anexo 3: a reportagem do Diário de Notícias, edição do dia 26/06/2011, sobre o movimento SlutWalk Lisboa, a qual descontextualizou uma imagem, acabando por reforçar os estigmas contra a mulher brasileira, fazendo exatamente o contrário do objetivo do movimento;
-Anexo 4: publicidade do Ginásio Holmes Place- Health Club, atual, sobre uma modalidade de aulas intitulada “Made in Brazil”, a qual é representada por uma imagem cujo destaque é a bunda;
-Anexo 5: publicidade da Agência de Viagens Abreu, na Revista B de Brasil, edição inverno de 2001, cuja a imagem do Brasil é uma mulher e a mensagem da publicidade é uma referência direta aos descobrimentos e a disponibilidade, aos portugueses, do que havia e há no Brasil.
-Anexo 6: episódio do programa de humor “Mini-Malucos do Riso”, da SIC, no qual afirmam que no Brasil só há prostitutas e futebolistas.

Exigimos, das autoridades competentes, que se faça cumprir a “CEDAW – Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres”, da qual tanto Portugal, como o Brasil, são signatários. Destacamos, também, o “Memorando de Entendimento entre Brasil e Portugal para a Promoção da Igualdade de Gênero”, no qual consta que estes países estão “Resolvidos a conjugar esforços para avançar na implementação das medidas necessárias para a eliminação da discriminação contra a mulher em ambos os países”.

Grupo de Articulação do Manifesto:https://www.facebook.com/groups/manifestobrasileiras/

Contatos: manifestobrasileiras@gmail.com

Organizações e Movimentos Sociais que apoiam e subscrevem o Manifesto:

Associação ComuniDária – comunidade solidária à pessoa imigrante, sensível às questões de género e com iniciativas diversificadas de integração.

Observatório das Representações de Género nos Média, UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta.

Movimento SlutWalk Lisboa.

Coordenação Portuguesa da Marcha Mundial de Mulheres.

Isso vem acarretado muitos problemas e conflitos e mesmo gerando  agressoes simbólicas, psicológicas e físicas. E essas agressoes se dao na esfera privada, pública e nos meios de comunicacao. Muitas denúncias e acoes sao realizadas pelos movimentos de mulheres,  além de solicitacoes de apoio às entidades locais e representacoes brasileiras. Hoje de manha recebemos o Manifesto das mulheres de Portugal, que retrata fielmente a situacao que estao sofrendo por lá e que pode ser extendido para praticamente para toda a Europa. Os problemas já podem comecar nos aeroportos em que desembarcam. Estamos nessa luta contra esse estígma machista, sexista e xenófoba e muitas das vezes racista e neocolonial que se abate contra as mulheres brasileiras por aqui – Ras Adauto Berlin

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4 pensamentos sobre “Gina, a mulher brasileira e mais algumas coisas…

  1. Mari Pi (@marianarcp) 16 de novembro de 2011 às 21:11 Reply

    Lamentável…

  2. yume 18 de novembro de 2011 às 15:03 Reply

    “Trata-se, ainda, de um desrespeito às profissionais do sexo, pois ironiza o seu trabalho, transformando-o em símbolo de deboche/piada/anedota, sendo que não é um trabalho criminalizado em Portugal, portanto, é um direito exercê-lo livre de estigmas.”

    Só por isso não teria meu apóio.Prostituição também é violêncioa contra mulher,os danos são irreparáveis e o máximo de redução de uma mulher á uma mercadoria sexual.Procure pelo excelente video NOT FOR SALE.Isso sme falar que muitas brasileiras são traficadas para a Europa para escravidão sexual.Como então vcs alegam que é uma “profissão”? Ainda acreditam no cruel discurso machista de “escolha” que de nada serve além de manter os privilégios masculinos e ocultar a violência extrema da prostituição?
    O manifesto perde completamente sua validade e fica contraditório.Se nós brasileiras não queremos ser vistas e nem tratadas como mercadorias,a prostituição,máxima exploração sexual nossa,tem que ser combatida também.

    • saindodasprateleiras 18 de novembro de 2011 às 17:01 Reply

      Olá Yume
      Você está certa quando postou que existe uma contradição em falar sobre “a profissão” do sexo, porém preferi postar dessa forma por levar em consideração as diferentes vertentes feministas sobre esse debate. Existem grupos de mulheres que se assumem como prostitutas e lutam pela sua regularização como profissão, inclusive algumas são feministas e usam o discurso da autonomia sobre os seus próprios corpos. Entretanto esse debate não invalida o outro lado dessa questão e aposição de outras mulheres que lutam pelo inverso: a extinção dessa atividade que segundo elas violam os seus corpos.

      Como feminista decidi respeitar esse debate e focar outro prisma: a mulher como mulher, livre de estigmas.
      Independente em qual contexto social estejam inseridas, elas devem ser tratadas com a dignidade de uma mulher, e não sob a perspectiva de alguma profissão ou os estereótipos que tais profissões (ou não profissões, se você prefirir assim) carregam.

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