A manifestação dos estudantes na USP e a Sociedade do Espetáculo

A manifestação dos estudantes da USP foi matéria de capa de diversos jornais, em especial aos disponíveis na internet. O posicionamento dos estudantes tem sido questionado e criticado pela sociedade de um modo geral, enquanto a polícia tem sido motivada pela população a reagir com a força.

Vivemos em uma sociedade do espetáculo, como diria Guy Debord onde a alienação é “consequência do modo capitalista de organização social”.

A idéias são disseminadas através de discursos moralistas recheados de emoções sobre temas e conceitos ligados à religião, nacionalidade e a instituição família. Esses discursos muitas vezes não são transparentes, muitas coisas são ditas nas “entrelinhas” como por exemplo o bombardeio de informações imparciais que estão sendo veículadas pelos jornais sobre o que está acontecendo na USP. Não caberá a este artigo definir o que de fato está ocorrendo na USP, acredito que deve haver por parte do leitor uma curiosidade maior (sempre) que o leve a absorver informações extra jornais sensacionalistas, pois estes sobrevivem da espetacularização dos acontecimentos e são responsáveis por disseminar idéias superficiais na população.

Nesse cenário de manifestações da Sociedade Civil x Polícia Militar, o que tem chamado a minha atenção realmente é o posicionamento daqueles que assistem do lado de fora os acontecimentos e que se deixam levar euforicamente pelas narrativas imparciais dos jornais.

Ao ler matérias na internet costumo observar os comentários postados pelos leitores, onde a maior parte defende que a polícia deve “sentar borracha” nos estudantes e manifestantes de uma maneira geral, como se esse fosse o papel da polícia militar.

Em contrapartida tenho me interessado por estudos sobre o que restou da ditadura militar no Brasil, e ao contrário do que muitos pensam, muitas coisas ainda ( e para a nossa vergonha) são resquícios de um passado cada vez mais presente em nossos dias. A ditadura militar não foi morta e enterrada, e caso esteja morta existe ainda um espiríto cruel sondando as nossas forças armadas, a mídia e consequentemente a população. Infelizmente a população se distanciou da nossa história, e poucos jovens sabem o que foi “os anos de chumbo” e poucos sabem o que é sonhar por liberdade.  Para explanar brevemente sobre estes resquícios dos anos de chumbo, vale lembrar que a lei da anistia ainda é uma das formas das vítimas (lembrando que a lei nunca menciona a palavra “vítima”)  utilizar para recorrer pelos seus direitos, porém aqui quero focar a polícia militar. Essa polícia que demonstra sua capacidade de dialogar com eventuais manifestações populares “sentando bala” possui ainda a mesma estrutura da polícia de 69.

Não gosto de frases de efeito, mas a população está afogada em sua alienação e não a culpo, pois estamos em uma fase do capitalismo onde o individualismo é uma constante e está tão naturalizada no cotidiano das pessoas que podemos ver esse individualismo por exemplo no novo conceito de moradia (condomínios fechados que isolam os moradores da realidade social de onde vivem) e a idéia de “dividir o pão” ficou restrito aos textos bíblicos ou nas doações ao Criança Esperança.  Socializar virou uma idéia pejorativa atribuída aos antigos regimes totalitários, conceito este formado por quem conhece história tanto quanto entende de política:nada.  

A mesma população que se mostra inconformada com o despreparo da polícia militar que ao realizar alguma operação e atingir erroneamente alguma criança que volta da escola, defende que o papel da polícia é “sentar bala” em estudantes da USP. Essa população que defende em casos sensacionalizados como o que vemos acontecer na USP o papel da polícia fazer “justiça” através da força”, reinvindica no Twitter contra a corrupção. A mesma polução que discursa contra a desigualdade no país, critica as ocupações de movimentos sociais que incorporam a luta contra a falta de moradia. Lembrando que o direito a moradia é assegurado pela constituição e aderir a manifestações populares é uma característica de regimes democráticos. Se ainda assim, não podemos ir às ruas reinvindicar por nossos direitos, ou questionar sobre leis que regem o corpo coletivo, sejam elas quais forem, será que realmente estamos em um país plenamente democrático e de fato não existe nenhum resquício da ditadura militar em nosso sistema político?

Ser um país democrático nunca foi e nunca será limitar-se a absorver as leis impostas para coagir a população e fazer aceitá-la que a desigualdade e a repressão é algo natural e que deve ser aceito.

No começo deste artigo prometi que não ia me posicionar sobre as reinvindicações dos alunos da USP, mas devo dizer que eles falharam quando não estenderam para o coletivo sobre a forma de se fazer “justiça” da polícia militar.

Essa mesma polícia que invadiu o campus da universidade e apareceram como “heróis” nas redes nacionais, aborda moradores da periferia da cidade com suas armas potentes e fazem todo o “esculacho” sem ao menos saber o nome destes moradores. Muitos trabalhadores estão acostumados a sofrerem estas abordagens e são humilhados verbalmente sem ter quaisquer meios de recorrer aos seus direitos por medo da repressão policial. Essas duas últimas palavras “repressão policial” são muito conhecidas na periferia, só quem mora lá sabe o que é isso na pele.

O que me assusta é o incentivo da população a esse tipo de ação, seja de modo direto ou indireto. O papel da polícia não é fazer justiça, pois fazer justiça com armas não é característica de um Estado de direito democrático.

Pelo que podemos ver, infelizmente ainda estamos longe de uma democracia plena. A força ainda é sinônimo de poder, e a sociedade assiste em telas plasma e LCD toda a espetacularização dos acontecimentos sociais e políticos do nosso país.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: