A crença e aquela velha opinião formada sobre tudo

É bem difícil para um crente (seja qual for sua religião) compreender o que de fato leva uma pessoa para o ateísmo.

Muitos acham que é um posicionamento superficial, e que “na hora que o cerco se fechar” iremos recorrer a bondade divina. Escutei isso hoje (mais uma vez) e por isso vim aqui desabafar. Acho que terei alguns acessos de pessoas pregando, acusando, julgando…coisas que todo ateu já está acostumado a enfrentar. As pessoas pregam o respeito para com o diferente, para a liberdade sexual e religiosa, porém pouco escuta-se falar sobre o preconceito que os ateus enfrentam de maneira escancarada.

Nos canais televisivos por exemplo, muitas mazelas sociais como assassinatos em massa e etc. são atribuídas a falta de crença de um indivíduo, sem antes apurar se de fato isso procede. A exemplo, o apresentador Datena está respondendo alguns processos nos quais ateus se sentiram ofendidos. O problema não acaba por aí. Podemos sofrer diversas consequências em nossa vida social, resultado de um estereótipo construído a cerca da imagem do ateu e que dificilmente conseguiremos desconstruir com tantos fatores externos trabalhando para que isso se propague e perpetue na história.

Não vou partir para os chavões e não vou aqui ofender nenhum crente (até porque meus grandes amigos e pessoas queridas em sua grande maioria partilham alguma crença). Prefiro chamar a atenção daqueles que estiverem abertos ao debate, que simplesmente respeitem o nosso direito de questionar, de negar e de formar opinião a cerca da existência humana e fenômenos sociais. O respeito que peço, não é aquele que parte do princípio que “ele é ateu, mas é uma boa pessoa”. Isso é tolerância. Particularmente não preciso que me tolerem se não respeitam a minha essência, dessa forma podemos cortar vínculos sociais sem problemas. O respeito que menciono é aqule que compreende a diversidade de opiniões e respeita o diferente, desde o momento em que o cumprimenta na rua, até o momento em que pensa duas vezes antes de passar aquelas malditas “correntes” via e-mail com o intuíto de converter um ateu “tocando o seu coração”. Isso além de ser muito desagradável, é muito desrespeitoso. Não envio mensagens aos meus amigos crentes com o intuíto de colocar em dúvida a existência do seu Deus.

Poxa, porque para muitos é tão difícil respeitar o próximo?

Eles pregam isso enfaticamente, mas na prática eu não sei o que ocorre. São os primeiros a tacarem pedras em ateus e todos aqueles que não partilham da mesma opinião e/ou comportamento social. A exemplo os homossexuais que sofrem diariamente com a “moralidade cristã”. As vezes penso em mudar para sociedades tribais, que constroem um vínculo social muito mais avançado que a sociedade ocidental e seus costumes.

Os estudos sobre as sociedades tribais contribuíram para nos provar que a construção de padrões tidos como “adequados” é um fator talvez universal, porém o que cada sociedade define como “adequado” varia conforme a sua região, organização e necessidades. Estas necessidades também se alteram, pois a sociedade é dinâmica e não estática, e sofre influência de fatores internos e externos o que resulta na transformação de diversos aspectos sociais no decorrer dos anos.

Estou de fato sendo um pouco superficial ao abordar este tema que é tão importante para a antropologia, peço desculpas aos antropólogos por abordar tal assunto com tamanha superficialidade, é que de fato desejo chamar a atenção para a questão da percepção de um ateu (como no meu caso) sobre isso tudo. Observo a crença religiosa em sí como uma construção social, resultado da necessidade humana em buscar respostas aos seus questionamentos, e a necessidade de acalmar certas inquitações. Muitas coisas ainda não temos respostas, e atribuímos as divindades respostas para aquilo que precisamos nos “aquietar”. Os Tupi-Guaranis fazem isso quando recorrem a Monã para explicar a sua existência e eles vivem a sua verdade, o que passa a ser a verdade universal dentro da realidade Tupi-Guarani e isso é lindo! Se é real para eles e eles vivem essa realidade então devemos entender como verdadeiro.

O povo ocidental em maior proporção compartilha também as suas verdades constituídas por fatores religiosos, e este por sua vez divide-se em duas partes: o sagrado e o profano.  O preconceito surge quando observamos outras possibilidades de organização social como se fosse o “sujo”, o “falso” e o “imoral” por usarmos como referência a nossa cultura.  Aquele discurso de “povos não evoluídos” serve para fortalecer esse preconceito. Um leigo observa com superficialidade uma sociedade tribal, não conhecendo a sua organização política, a sua organização social e as técnicas utilizadas para garantir a  sua sobrevivência.

Estes povos, quando analisados com profundidades nos surpreendem pela sua riqueza cultural, pela origem de suas tradições, pela lógica de sua organização social e política e pelos significados que dão aos seus símbolos.

Cada dia que passa tenho mais certeza que o tamanho do preconceito reflete exatamente o tamanho da ignorânica de um indivíduo. Em nossa sociedade ocidental as informações estão disponíveis em todos os lugares, porém compreendo também que a moralidade está inserida de tal forma no imaginário das pessoas que elas tem certo receio em questionar. Posso compreender isso, porém jamais compreenderei a intolerância e o preconceito seja ele qual for.

Estou bem de saco cheio desse discurso “espero que Deus te perdoe”. Sei que muitos amigos, com a sua fé no cristianismo deseja-me o bem quando fala isso, entretanto poderiam me poupar desses chavões e respeitarem o meu direito de escolha.

Hoje respondi um e-mail a uma amiga e achei que fui um pouco deselegante, pois falei de fato o que penso sobre muitos crentes que fazem o bem pensando na tal “lei do retorno”. Muitos se isentam da culpa de vivermos em uma sociedade desumana e desigual atribuindo estes problemas ao Estado e em alguns casos como punição divina. Fazem doações a instituições de caridades, pagam seus impostos e o dízimo e aí, claro fica fácil ficarmos com a consciência tranquila quando vemos crianças cheirando cola e famílias em situação de rua. Fica fácil condenar manisfestações sociais que se propoem a sair do seu mundinho individual e lutar por algo em favor da sociedade coletiva.

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