O “Crocodilo” da Cracolância – Uma analogia ao conto de Dostoiévsk

Os moradores da Cidade de São Paulo estão acompanhando os últimos acontecimentos na região do centro (nas imediações avenidas Duque de Caxias, Ipiranga, Rio Branco, Cásper Líbero e a rua Mauá).

Tenho observado esses acontecimentos com bastante desconforto. Tentei não postar nada sobre isso aqui, mas porque não? O que estamos vendo é mais uma vez as entranhas da sociedade do espetáculo de fora. É isso mesmo que eu quis dizer. Onde se lê “entranhas” pode-se entender por “orifício no final do intestino grosso, por onde são eliminadas as fezes”.

O Governo e Estado de São Paulo tem pensado em “revitalizar” a região com balas de borracha e repressão policial, e mais uma vez a sociedade do espetáculo assiste a tudo em telas de plasma vibrando e exclamando “senta bala”, ou “mata os nóias” e quando são contrariados respondem “se não gostou leva os zumbis para casa!”.

Esse é o cenário: uma população incapaz de discutir problemas sociais de um lado, e  do outro lado a polícia militar incentivada a utilizar o poder e a força para reprimir os usuários. No seio do problema: a dependência química.

Não estamos vendo a preocupação em recuperarmos pessoas, e sim a preocupação em “limpar” o centro da cidade e essa é a típica política “para inglês ver”.

Alguém aí já fez faxina em casa? O que dá mais trabalho: organizar a casa de maneira eficiente, investindo para que nada fuja do seu controle e evitando assim o caos na sua sala de estar, ou pegar o que considera sujeira que estava embaixo do tapete e espalhar pela casa inteira? Realmente, espalhar pela casa faz com que as suas visitas possivelmente não observem a proporção da desorganização, porém a desorganização continuará ali. E é esse resultado que a população da cidade já está sentido. Outras regiões estão sendo dominadas por usuários de crack, que sem atenção do Estado, sem tratamento específico continuam no vício recorrendo ao uso de armas e furtos para sustentar a dependência.

E agora paulista, o problema é ou não é de todos nós?

Essa política “para inglês ver” que está sendo aplicada com pessoas que estão como qualquer ser humano suscetíveis ao fracasso e a decadência social. Pessoas que em algum momento de suas vidas esqueceram de si e desacreditaram na vida se entregando ao uso do crack e hoje são chamadas de zumbis.

A cidade de São Paulo já conhecia esse problema, e não será com campanhas eleitorais apelativas que se apropriam da situação de pessoas fragilizadas pelo consumo das drogas que iremos resolver essa situação. Infelizmente, São Paulo é a cidade dos egos inflamados.

Alguns paulistas costumam atribuir as conseqüências de todos os seus problemas a um fenômeno demográfico chamado migração. Quero saber e agora, que a merda foi descoberta e está fedendo, em quem eles vão jogar a culpa dessa vez? “A culpa nunca é nossa, a culpa é sempre do outro! ” é esse o discurso de sempre e que leva o extremismo a perpetuar na mente das pessoas. Talvez por isso elas julguem correto tratar problemas sociais com “balas de borracha”, afinal o problema é sempre do outro mesmo.

Intitulei esse post de “O Crocodilo da Cracolância” pois a tratativa dessa situação em São Paulo no âmbito político e social me fez lembrar um conto do  Dostoievsk chamado O Crocodilo. Esse conto do autor é uma obra inacabada que  demonstra a sua genialidade ao narrar com tamanho sarcasmo a história de um funcionário público que em sua viagem de férias acompanhado por esposa e amigo visita um crocodilo em exposição.  Resumindo a história: um  funcionário público Russo é engolido vivo pelo crocodilo pertencente a um casal de alemães. Seu amigo narra o drama deixando transparecer os seus mais íntimos pensamentos. A discussão sobre a situação do funcionário público vai além das indagações sobre o seu estado físico e emocional, e é aí que chegamos a nossa cracolândia.

O conto foi escrito no contexto da Russa Czarista (Império Russo), cujo governo antiliberal defendia os privilégios da aristocracia e Dostoiévsk conduz o leitor a observar a hipocrisia social a cerca de discussões que envolvem a propriedade privada, os interesses políticos e sobre tudo a burocracia vigente.

“Todos parecem discutir demais sobre a possível salvação de Ivan, quando na verdade deviam agir rapidamente para devolvê-lo à vida normal e enfim salvá-lo, na medida em que sua segurança não está garantida”.

Referencias bibliográficas
Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881
O crocodilo e Notas de Inverno sobre impressões de verão / Fiódor Dostoiévski; tradução de Boris Schnaiderman – São Paulo: Ed. 34, 2000.

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