Refletindo após ler A idade da razão, de Jean- Paul Sartre

Certa vez ouvi dizer que existe uma grande diferença entre os grandes autores e os autores medíocres. Os grandes autores fazem grandes obras, e a outra categoria de autores fazem obras para explicar os grandes autores. Bom, ler Sartre me fez concordar com essa teoria. A cada virada de página tive certeza de estar em boa companhia. Cada movimento dos personagens me causava espanto, provocava raiva ou alegria, inquietações e sensações que me faziam acender ou apagar o cigarro compulsivamente.

Em minha leitura, percebi um autor inquieto e que deseja colocar em pauta questões filosóficas do cotidiano, como a relação do indivíduo com o outro e consigo mesmo. Creio que essa leitura está correta, pois Sartre foi um pensador contemporâneo filiado a corrente filosófica do existencialismo onde a ideia fundamental é “A existência precede a essência”, ou seja, o indivíduo nasce despido de valores e consciência moral, e adquire defeitos e qualidades ao longo de sua existência, tornando-se aquilo que é.

A Idade da Razão coloca em pauta assuntos polêmicos, e provoca questões tão importantes para aquele período, quanto para hoje. O aborto, a prostituição, as ideologias, o comportamento social, a busca pela liberdade e pela aprovação constante do julgamento social, a inflexão, o individualismo e a própria morte.

Paris no início do século XX.

O protagonista Mathieu Delarue é um professor de filosofia que encarna o conflito central da obra: a liberdade, o “eu” e o outro.

A liberdade para Mathieu é o que fundamenta a sua vida, porém ele sente que corre risco de perdê-la ao saber da gravidez de sua amiga e companheira Marcelle. Eles que nunca tiveram um relacionamento formal, apenas encontros semanais e que a princípio tratava-se apenas de uma aventura, com o passar do tempo passam a incorporar aos olhos alheios um relacionamento tão íntimo quanto um casamento. Com a gravidez de Marcelle, Mathieu  teme as consequência que e a instituição família possa trazer. A sensação da perda da liberdade faz com que Mathieu recorra à única saída: o aborto.

As questões existencialistas estão presentes em todo momento, onde cada personagem encara a realidade e reage perante os conflitos existenciais de forma peculiar, e a escolha é o centro da existência humana (até a recusa de uma escolha, é uma escolha).

Existe em toda a trama uma oscilação comportamental nos personagens, o que aproxima a obra da realidade, em que o indivíduo não é estático e reage de diferentes maneiras em situações diferentes.

A projeção do “eu” está em constante confronto com as expectativas do outro. O que o outro espera a partir de uma imagem projetada sobre mim? Porque o outro espera que sejam correspondidas estas expectativas construídas sobre a minha imagem? Que imagem será essa que está construída sobre mim, e até que ponto ela corresponde com a realidade? Serei eu uma farsa?

A narrativa sobre os pensamentos de cada personagem faz com que o leitor coloque em pauta os seus próprios anseios, as suas próprias inquietações e o seu caráter de julgamento.

No fundo, acabamos por nos inserir na trama projetando (assim como o fazemos na vida real) ideias e ideais sobre os personagens e muitas vezes nos frustramos por estes não corresponder as nossas expectativas, sendo esta uma característica humanamente egoísta.

“Não somos aquilo que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós”. Sartre.

Fiz o possível para falar sobre A Idade da Razão, mas como disse existem duas categorias de autores, e definitivamente me enquadro na categoria dos medíocres que se aventuram a falar sobre grandes obras como esta vos apresentada.

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