Simone Beauvoir, “Como se explicam os transes”?

Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Zélia Gattai e Jorge Amado com Mãe Senhora, em Salvador, Bahia. Agosto, 1960. Foto: Fundação Casa de Jorge Amado.

O trecho abaixo é parte das reflexões que Simone de Beauvoir fez  sobre a cultura brasileira durante sua visita e pode ser lido na íntegra em A Força das Coisas.

Extraído do blog de Regina Miraaz http://avecbeauvoir.wordpress.com/ o qual recomendo a visita.

“Por duas vezes o carro nos levou, à noite, através daquelas montanhas-russas que são os subúrbios da Bahia, até casas longínquas onde rufavam tambores. (…) Durante uma das festas, uma jovem negra estava terminando o ciclo de iniciação. Com a cabeça raspada, vestida de branco, tremia ligeiramente, com o olhar fixo no invisível, ao mesmo tempo presente e distante, como meu pai em sua agonia. No fim, entrou em transe, partiu e voltou transfigurada por uma alegria misteriosa.

Fiz a pergunta clássica: ‘Como se explicam os transes’? Só a mãe de santo tem o direito de simulá-los, para facilitar a descida dos orixás: e me pareceu que uma das duas usou realmente dessa permissão. Todos os observadores estão de acordo em afirmar que as outras não trapaceiam, e u não tinha dúvidas disso: tanto para elas quanto para o espectador, sua metamorfose era uma surpresa; elas também não pareciam neuróticas nem drogadas: as velhas, sobretudo, irônicas e alegres, chegavam ao candomblé com todo seu bom senso cotidiano. E então? Vivaldo [da Costa Lima], muito claramente, e Pierre Verger, com menos franqueza, falaram de intervenção do sobrenatural. [Jorge] Amado e todos os outros confessavam-se ignorantes. O certo é que esses fatos nada têm de patológico, mas são de ordem cultural; encontramos experiências análogas em todos os lugares onde indivíduos estão divididos entre duas civilizações. Obrigados a se dobrarem ao mundo ocidental, os negros da Bahia, outrora escravos, hoje explorados, sofrem uma opressão que chega a lhes tirar a posse de si mesmos; para se defenderem, não lhes basta preservar seus costumes, suas tradições e suas crenças: eles cultivam as técnicas que os ajudam a se arrancar, através do êxtase, da personagem mentirosa na qual foram aprisionados; no instante em que parecem perder-se é que se reencontram: eles são possuídos, sim, mas por sua própria verdade.  O candomblé, se não transforma os seres humanos em deuses, ao menos, através da cumplicidade de espíritos imaginários, restitui a humanidade a homens rebaixados à categoria de rebanho. O catolicismo lança os pobres de joelhos diante de Deus e de seus sacerdotes. Pelo candomblé, ao contrário, eles experimentam essa soberania que todo homem deveria poder reivindicar. (…) O momento supremo de sua vida individual – quando, de vendedora de bolos ou de lavadora de pratos, ela se transforma em Ogum ou Iemanjá – é também aquele em que a filha-de-santo integra-se mais estreitamente em sua comunidade. Poucas sociedades oferecem a seus membros oportunidade semelhante: realizar sua ligação com todos, não na banalidade cotidiana, mas através daquilo que se experimenta de mais íntimo e mais precioso”.

Simone de Beauvoir, A Força das Coisas. Tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. pp. 563-564.

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