O pão e a revolução, por Ferréz

Texto extraído do blog do autor, o qual aproveito para divulgar http://ferrez.blogspot.com.br/

O pão e a revolução (conto do livro Ninguém é inocente em São Paulo)  

        Coloram dois universitários no balcão, me afastei.         Estava no bar do Donato, um tiozinho pela ordem.         Com o bar havia sustentado os cinco filhos, nenhum virou malandro. Notei os dois estudantes bebendo Coca-Cola e curtindo a vida agora.         Mais tarde, eles iam no “eu amo tudo isso”, tomar um lanche, fodam-se.         Um homem mancando se aproximou. – Me paga um pingado e um pão, moço. – Pão com quê? Perguntou um dos universitários. – Pode ser com manteiga. – Esse é o problema, meu amigo, pouca pretensão, por que não pede um pão com queijo? – Preten… o quê? Perguntou o homem que mancava. – Deixa quieto. Respondeu o outro estudante, meio impaciente.         Donato olhava a cena enquanto lavava os copos. – Não pode ser assim. Informação é para ser distribuída, pretensão é você querer ter algo, explicou o outro universitário. – Eu quero um pingado e um pão com manteiga, falou o homem que mancava e tinha uma mancha no olho. – Faz assim: por que você não pensa em vender uns doces, sei lá, fazer algo melhor com sua vida do que pedir?Disse um dos caras. – Deixa o homem, porra! Falou o Donato, meio alterado. – Mas a gente só tá tentando dizer que ele devia revolucionar a vida dele. – É, por exemplo, estudar, se empenhar, ter preparação para quando chegar a oportunidade. – Mas ele só quer um pão com manteiga, gente! Falou quase gritando o Donato que havia criado cinco filhos.         Eu fiquei de boa, tomando meu café com leite, pensava num conto, mas me faltava algo. – Então que ele se empenhe mais, isso é uma sociedade capitalista, não tem espaço para todo mundo. – É isso mesmo, a vida é assim, a não ser que façamos a revolução. Brandiu o outro estudante. – Eu só queria um pingado e um pão com manteiga, moço. Falou o homem mancado, com uma mancha no olho e um curativo no braço. – Mas é isso, meu amigo, que estamos falando. – É, ele não entende, tem que acontecer uma revolução.         O Donato interrompe a conversa, meu conto tá quase terminando, deu um pingado para o moço que abriu um sorriso e, mesmo antes de agradecer, foi lhe dado também um pão com manteiga. – Tá vendo, é isso que  não pode, tem que dar estrutura, dar a vara e não o peixe. Falou indignado o universitário. – É isso mesmo, você está agindo com assistencialismo, não devia. Completou o outro estudante. E, mesmo antes de completar a frase, Donato o interrompeu e terminou a discussão. – É o seguinte, seus doutorzinhos, eu trabalho aqui há vinte anos, todos vocês tem esses papos, esse homem tá nessa vida a todo esse tempo e quantas turmas já passaram por aqui, e essa tal de revolução não veio até hoje.         Terminei o café.         A faculdade da vida é mil grau.
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