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Antes de nascer já faziam planos sobre mim, e eu sem poder me defender já estava fadada a um complexo organizacional com possibilidades limitadas de autonomia sobre mim mesmo. Certamente diziam que eu seria isso ou aquilo outro (prefiro nem saber o que). Quando nasci disseram que eu tinha cara de algum nome e providenciaram registrar a ideia de como eu deveria ser chamada para o resto dos meus dias. Logo veio o dia do batismo. Me tornei um ser denominado “fulana” com religião e tudo. Com o passar do tempo tive que gravar minhas digitais e a partir de então deixei de ser apenas um nome que representava algo na convivência familiar e passei a ser também um sujeito composto por nove números, e desde então só números vieram. Número do cpf, número da carteira estudantil, número do titulo eleitoral e o mais aterrorizante: número da carteira de trabalho. Todos estes números serviram para me denominar cidadã, mas só descobri o que era isso na escola, e aprendi que eu tinha direitos e deveres a serem cumpridos. A princípio achei irônico ter que conquistar meus direitos e viver lutando contra tantos deveres mas me disseram que os deveres são uma forma de organização social e que eu devo dormir determinada hora para acordar na hora certa e cumprir o horário no trabalho. A hora da refeição dizem que é uma hora sagrada, então que assim seja: almoço todos os dias ao meio dia, ou no máximo com uma probabilidade de uma hora de atraso, caso contrário até meu organismo pede socorro.

Tornei-me um ser igual aos demais, porque com o tempo as individualidades se perdem no meio da multidão. Na estação Sé do metrô por exemplo, no horário do rush todo mundo é igual, o que muda é só a roupa jeans de uns que são mais ou menos surradas, afinal coitadas, também possuem nomes e números.

Quando comecei a trabalhar, me tornei uma trabalhadora com carteira assinada e tudo, ou seja, era uma categoria específica de trabalhadora com sindicato próprio para teoricamente me representar. Depois passei a ser chamada por universitária. Não era mais apenas uma trabalhadora, era agora uma trabalhadora estudante e descobri que essa coisa de sindicato era tudo balela, por que além de trabalhadora estudante, estava me tornando uma socióloga. Nem preciso dizer quantos outros números vieram depois de tantos rótulos, e mesmo se tentasse não conseguiria, porque na verdade perdi as contas, e mesmo assim ainda almejo mais alguns números porque já me adaptei com eles. Mas não são só os números que falam por mim, as categorias criadas para denominar determinados comportamentos também servem para me colocar dentro de um determinado padrão de aceitabilidade. E isso é tão natural, que até o que não é aceito, é aceito e existem mais um complexo de complexidades preparados para tratar da situação, com estruturas em formato de sanatórios, prisões e etc. Mas voltemos a questão dos rótulos que caíram sobre mim. Certa dia decidi que não ia mais comer nenhum bicho morto e me tornei vegetariana Depois de alguns anos, decidi comer só peixe, por egoísmo talvez e por não conseguir resistir ao mais terríveis desejos, e foi então que me tornei especifista. Por ser uma mulher que luta pelos direitos das mulheres, logo fui denominada por feminista. Quando falava de igualdade e inserção social para todos fui denominada por socialista, e quando me estendi um pouco mais e me referia à luta de classes, marxista. Quando neguei a existência de um ser superior onipotente e onipresente, ateia.

Assustada com tantos rótulos, repudiei todos eles, aceitando no máximo meu nome, e os números que não consigo me livrar, sobrando no máximo os obrigatórios e apenas um cartão de crédito com apenas uma conta bancária, afinal eis um lugar que me faltam números, mas com isso a denominação inadimplente me persegue.

Decidida a não ser feminista, vegetariana, ateia e marxista e outras tantas coisas que me canso só de pensar na responsabilidade dos rótulos, vivo num abismo profundo, por que no fundo sou tudo isso, porém prefiro me sentir livre. Prefiro ser o que sou, porque sou e não porque devo ser mesmo no fundo sabendo que somos o que somos, porque nos tornamos assim. Que quando nascemos, estávamos despidos de valores, como disse Sarte.

Me cansa tantos rótulos, porém descobri que sou aquilo tudo que me tornei, e ainda me cansarei muito mais, pois muitas outras coisas ainda ei de me tornar porque sou uma existencialista.

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