Poder, saber, tirania e submissão. Onde chegamos com isso?

Quando falamos em teoria do poder, logo associamos o nome do filósofo francês Michel Foucault que foi um dos autores que mais estudou os dispositivos de poder para compreender de que forma se dá a dominação na sociedade moderna. O autor afirma que se o poder fosse somente repressivo, seria muito mais fácil de ser combatido. Entretanto, as formas de poder se dão de maneiras sutis, e não exatamente através da figura do Estado. Para Foucault o Estado continua sendo um ator importante nesse processo, porém o poder está em toda a parte, emana de todos os lugares e o que fortalece esse processo é o fato de que os indivíduos se tornam vigias nas diferentes formas em que o poder se apresenta. Foucaul também é o autor responsável pela célebre frase “onde há poder há resistência”:

 

“Lá onde há poder, há resistência. ( … ) Não existe, com respeito ao poder, um lugar da grande Recusa – alma de revolta, foco de todas as rebeliões, lei pura do revolucionário. Mas sim resistência, no plural, que são casos únicos: possíveis, necessárias, improváveis, espontâneas, selvagens, solitárias, planejadas, arrastadas, violentas, irreconciliáveis, prontas ao compromisso, interessadas ou fadadas ao sacrifício ( … ) E é certamente a codificação estratégica desses pontos de resistência que torna possível uma revolução, um pouco à maneira do Estado que repousa sobre a integração institucional das relações de poder. (História do sexualidade, vol. 1, A vontade de saber, pp. 91-92)

Em um debate atual na instituição de ensino com professores, discutíamos O Discurso da Servidão Voluntária, de Etienne de Laboétie e enquanto pensávamos sobre a servidão voluntária (servidão de uma multidão a um ou poucos soberanos), uma professora afirmou que as pessoas em sua grande maioria não refletem sobre as suas vidas. Obviamente tal afirmação me chamou a atenção. Se somos por natureza seres pensantes, é difícil acreditar que os indivíduos não refletem sobre as suas vidas, uma vez que cada ação é uma escolha, cada ação é por sí mesmo uma decisão. Esperar que todos reflitam sobre a totalidade da sua existência e tenha um compromisso com a verdade, diria que é um sonho cartesiano Kantiano.

Indo para uma reflexão mais filosófica da coisa, diria que as pessoas vivem e produzem conhecimento através da sua relação com a exterioridade, porém cada indivíduo tem uma relação diferente com coisas semelhantes, pois atribuem sentidos conforme as suas experiências e expectativas. Esse papo é complicado, porque se desejarmos que todos tenham as mesmas expectativas sobre o todo, implicaríamos em uma nova forma de imposição, que constituiria em uma verdade absoluta. E absolutismo, de certo não é o que desejamos. Voltando a afirmação da professora, creio que ela foi infeliz em sua colocação (poderia ter lido ou relido o texto antes do debate, doutora), pois um dos pontos de Foucault que considero indiscutível é que de fato a resistência se dá de diversas formas e as pessoas reagem diariamente, mesmo que sem produzir conhecimento sobre essa ação, elas estão reagindo. Sobreviver é uma forma de reação, e até o suicídio é uma forma, e talvez uma das mais calculadas, de reação. Porém, em momentos de extrema imposição a vida parece ser mais importante que a liberdade. Os indivíduos abdicam da sua própria liberdade para sobreviver. Quando o debate sobre La Boétie inicia, é comum que alguém levante a mão e fale “esse conceito de liberdade do autor é puramente liberal”, porém me surpreendo quando afirmo que o indivíduo abdica da sua liberdade para sobreviver, o que contrapõe La Boétie, porém há algo de mais liberal do que essa minha afirmação? Parece que estou citando o Locke…mas não é essa a intenção. Essa idéia me aparece, pois penso que os negros escravizados por exemplo, tinham completa noção sobre a sua situação, e produziam reflexão sobre isso de forma consciente, no sentido mais kantiano da palavra. Porém, como chamar de “covardes” um povo que mesmo sendo maioria em relação ao tirano e os seus aliados, se estes não possuíam condições concretas de romper com a opressão? Estavam fragmentados enquanto grupo, lembrando que haviam diversas etnias e muitos não falavam o mesmo dialeto, não tinham armas e portante condições para o combate. Aqui entra minha cítica, minha medíocre crítica a La Boétie. Me parece que a atemporalidade que faz da obra um clássico, seja também o seu maior “escorregão”. O autor coloca o sujeito assujeitado na história, e embora apresente alguns momentos históricos para exemplificar a dominação e a sujeição dos indivíduos, me parece que o autor peca por não fazer uma abordagem dialética entre os fenômenos. O homem não é um sujeito da história, ele faz parte da construção da história.

Que história é essa que estamos construindo, é uma grande questão para mim.

Como disse, parece filosófico demais refletir sobre certas coisas, pois alguns pontos que amarram a questão são abstratos, como a consciência e a própria liberdade.

A liberdade enquanto direito é uma construção talvez mais concreta do que a liberdade enquanto algo a ser alcançado. A primeira, considero concreta por ter sido instrumentalizada e incorporada pelos indivíduos, porém não a considero próxima da segunda, que é a liberdade almejada.

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