Direcionado aos conservadores de São Paulo

Os jornais virtuais abrem espaço aos leitores para publicar comentários, e me chama a atenção o conservadorismo radical dos paulistas que atribuem a responsabilidade das mazelas sociais a “falta de vontade de trabalhar” dos pobres, aos nordestinos e seus descendentes e ao bolsa família.

Todos os discursos são impregnados de ódio gratuito direcionado ao que eles consideram diferente, e isso vai desde os pobres aos homossexuais. Eles se escondem por tras de pseudônimos virtuais para clamar todas as suas mais íntimas revoltas. Muitos inclusive falam em nome de Deus, pois o Deus deles certamente não é preto, nordestino e pobre. Esse Deus europeu nascido em Jerusalém a cem mil anos atrás dizem quem “está em todos os lugares”, porém ele não deve ter acesso à internet onde seus “filhos” andam pregando o ódio e por mais irônico que pareça, em nome da paz. Paz para outros iguais a eles, brancos paulistas descendentes de qualquer coisa, menos de nordestino.

“Ode ao Burguês”, disse Mário de Andrade na Semana da Arte Moderna em 1922. Mal sabia ele que o burguês paulista de 1922 casou e teve filhos idênticos a ele, e hoje acessam a internet e comentam em páginas de notícias. Os comentários são quase todos idênticos. Seja qual for o tema da notícia, eis que surgem eles pregando o apartheid de São Paulo com o resto do país. Aliás, mais precisamente a região localizada no norte e nordeste do país. Eles realmente acreditam que o paulista trabalha mais que todo o resto da população brasileira, mesmo tendo em casa uma empregada doméstica que por míseros réis faze todo o trabalho sujo que eles são incapazes de fazer, como lavar e passar suas cuecas por exemplo. A empregada doméstica que veio do nordeste quando menina, sofreu o diabo nessa cidade desumana, e que enquanto o padrão dorme ela já está de pé na fila do ônibus depois de ter levado o leite pras crianças. A empregada doméstica que recebe um salário de fome e que com o bolsa família consegue melhorar um pouco a renda da família, e quem sabe garantir que sua menina quando crescer tenha um futuro um pouco melhor, já que a profissão de empregada doméstica até hoje não possui direitos trabalhistas no Brasil.

O burguês paulista bestializado com o seu “ouro de tolo” que se sente feliz por ser um cidadão respeitável porque tem um emprego, paga seus impostos e ganha quatro mil cruzeiros por mês. O burgues medíocre que lê a Folha e assiste o Jabor, não come caviar, mas já consegue fazer compras em Miami uma vez por ano e ainda pensa como o século passado, que ser “viajado” é sinônimo de ser culto (mesmo o percurso da viagem iniciando no aeroporto internacional de Guarulhos e terminando em Orlando, paraíso das crianças grandes que vão à Disneylândia ver outras crianças grandes imigrantes fantasiadas de princesas).

Eles almejam uma vida dentro dos bons costumes, e se lamentam pelo Brasil não ter a mesma cultura norte americana, e até afirmam que no Brasil não há cultura. Quando leio essas pérolas compreendo bem o que é sentir “vergonha alheia”.

Pobres criaturas, se divertem lendo Cinquenta Tons de Cinza (depois do livro A Cabana, esse é o que mais me incomoda), e desconhecem Raquel de Queiroz, romancista brasileira e nordestina.

Me pergunto se os comentários são induzidos pelo contexto das matérias, e admito que costumo acompanhar certo pasquim por oferecer notícia em tempo real, e na maioria das vezes o jornal induz os leitores a terem uma percepção conservadora sobre os fenômenos, porém percebe-se que os leitores leem, não para refletir sobre o que leem, e sim para buscar qualquer evidência de que suas opiniões sobre pobre, preto, nordestino e beneficiário do bolsa família estavam corretas.

Vou deixar as palavras para quem tem melhor domínio sobre elas do que eu.

Mario de Andrade

Ode ao Burgues

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
“–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
–Um colar… –Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”

Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burgês!…

De Paulicéia desvairada (1922)
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