O que Foucault não falou sobre a resistência

“Lá onde há poder, há resistência”, frase clássica do filósofo francês Michel Foucault.

Confesso que até certo ponto, gosto do Foucault, mas não sou focaultiana. Gosto da forma a qual ele chama atenção e proporciona novos caminhos para análise sobre os meios de dominação. Muitos trabalhos bons foram produzidos partindo dessa análise foucaultiana,  “entretanto, porém e toda via”, inquieta que sou, não vejo nesse pensador um viés político de resistência, porque a tal “dominação” parece colocar Foucault as vezes contra qualquer ato que esteja associada a uma forma de dominação. Sou radical com meu pragmatismo ideológico e não temo afirmar que em uma possível situação de resistência contra uma dominação exacerbada, a imposição é necessária. Falo isso pensando em grupos que ascendem em meio a um processo de opressão e se dispõem a combater e falar em nome das minorias.

Me parece que Foucault temeria esse tipo de processo, e isso me soa conformismo e é aí que coloco Foucalt contra a parede (com a ajuda do Sartre, claro).

Observando as ondas de ataques na grande São Paulo, onde o Primeiro Comando da Capital aparentemente está em conflito direto com a segurança publica do Estado, inevitável não pensar em resistência. Mas, resistência ao que?

Existe o poder na figura caricata do Estado, que é sempre alvo de críticas pela população e mídia em geral. Atribuímos todas as mazelas sociais à responsabilidade do Estado, e até aí posso concordar com alguns pontos dessa questão. Porém a primeira pergunta que me vem a cabeça, é o que eles entendem por Estado, algumas vezes chamado de “sistema”. Me parece que simplificamos demais algumas questões quando colocamos a culpa em algo puramente abstrado, porque o Estado e o sistema não é um sujeito, ou um objeto e sim algo composto por sujeitos e técnicas que estão presentes a todo momento em nossas vidas, mesmo quando não percebemos e por isso muitas vezes contribuímos para fortalecer esse Estado e esse sistema com nossas ações condicionadas pela normalidade da repetição. O poder se fortalece pela banalização do cotidiano, e quando Foucault diz que onde há poder há resistência, se apresenta na leitura como um defensor contra as mais diversas formas de dominação.

Mas peraí Foucalt, camarada! E as formas de resistência que se surgem em situações como essa vivenciada pelos moradores da grande São Paulo ? Denomino resistência, mas não associo resistência a algo puramente benéfico para o todo.

Ocorre que enquanto algumas formas de poder se instrumentalizam e prevalecem em nome da “ordem” e se consolida historicamente pelo “benfazer” social, zelando pela “proteção” dos indivíduos, eles agem muitas vezes como estado de exceção em algumas regiões e outros grupos que nada mais querem que o poder se instrumentalizam assim como o Estado e impoem suas regras em determinadas regiões, inclusive agindo muitas vezes como polícia, garantindo a “ordem” e automaticamente sendo reconhecidos enquanto organização que de alguma forma será associada ao “benfazer” social. Fácil afirmar isso, pois moro na tal área de vulnerabilidade e todos que moram na zona traçada de vermelho pelos estagiários de mapeamento social sabem que na verdade, quem garante a ordem é o crime organizado, que exerce o papel de polícia contra o sistema.

Se esses grupos almejam apenas o poder, a resistência nem sempre pode ser associada a um bem comum. A resistência pode surgir unicamente pela briga pelo poder que trás consigo uma série de benefícios, como lucratividade financeira e outras coisas como o status.

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