Anarcolítico

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texto por Diogo Mizael

No final dos anos 60, a utopia havia sido declarada morta. Pouco menos de duas décadas depois, ainda agonizando, ela finalmente se suicidou. Na época em que ele começou subir aos palcos, para desempenhar nevrálgicas performances poéticas, havia como expectadores, uma plateia ensandecida. Estas performances aconteciam na abertura das apresentações de bandas punk e pós-punk, como os Sex Pistols, Joy Division, Buzzcocks, Siouxsie and the Banshees.

A juventude inglesa, da metade dos anos 70, não estava mais a fim de longos solos de guitarra, e da melodia psicodélica, que norteou os anos 60. Estava a fim, somente, de quatro acordes, que pudessem destruir os tímpanos da rainha Elizabeth II.

Fãs do Joy Division podem confirmar. Quem se lembra do início do clipe “Transmission”, do cara de terno alinhado, semelhante ao arquétipo físico de Bob Dylan, que desce as escadas rolantes do shopping, atropelando versos, empunhado de um livro? No filme “Control”, do diretor Anton Corbijn, ele surge atuando, como fazia nos anos 70, recitando o seu mais notório poema/porrada, “Galinhópolis”.

Em 1981, participou do festival “Urgh! A Music War”, posteriormente, vertido num documentário, dirigido por Derek Burbidge. Participou ainda, de um filme publicitário, para a marca de cereais “Sugar Puffs Ad”. Até os caras do Artic Monkeys pagam um pau pro cara. Ora, este é o “bardo de Salford”, John Cooper Clarke.

John Cooper Clarke nasceu na cidade de Manchester, Inglaterra, todavia, descende dos beatniks americanos. Insere-se, principalmente, na tradição clássica da poesia oral, doravante aliada à música. Orfeu descabelou-se, passou laquê no cabelo, abandonou a lira; e se rendeu aos dissabores distorcidos da guitarra elétrica. Desde a Grécia antiga, no canto dos aedos, portanto, que este fator simbiótico antecede a literatura, como forma de protesto e disseminação de cultura.

Este é o caso de John, que não veio para complacências. “Eu amo a poesia em geral, mas ela precisa de uma musicalidade. Se a poesia não pode ser lida em voz alta, é uma merda”, disse pro site londrino Seven Streets.

No começo da década de 80, formou a banda The Invisible Girls. Além dos shows de punkrock, no entanto, John Cooper Clark escolhia os locais mais reflexivos da cidade de Manchester, como cenário para suas performances. As ruas e os banheiros públicos ganharam novas vestiduras, novas armações.

O poema mais proferido, “Galinhópolis”, deve ter tradução até pro esperanto. Contém a sugestiva intercalação, sucessivamente ao final de cada verso, da célebre expressão “porra!”. O “bardo de Stalford” tenta decompor o mundo numa granja. No que se refere às técnicas de composição, John desobedece a um fluxo de consciência, porém, obedece aos influxos de inconsciência, que se configuram irritados por natureza.

São esguichos de uma torrente de indignação. John confronta a sociedade pós-moderna, quais humanos cacarejantes. Manda às favas tal sociedade inseminada, adulterada, descartável, encarcerada no pardieiro.

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