Preconceito racial no Brasil

Há quem afirme que o preconceito racial no Brasil não é excludente e que portanto o sistema de cotas não se apresenta como uma solução viável contra o processo de desigualdade econômica existente no Brasil.

Esse argumento faz sentido no campo teórico, onde as condições reais dos jovens negros das periferías não são levadas em consideração, tal como as suas experiências cotidianas nas relações sociais.

O pobre branco também enfrenta problemas relacionados a desigualdade, problemas estes que não devem ser deixados de observar e combater, entretanto o negro das periferias brasileiras sofrem por sua dupla condição: pobre e preto.

Observo que o preconceito no Brasil é sempre velado, não explícito. O que o torna talvez, mais difícil de ser combatido. Ele se dá no âmago das relações sociais, e geralmente só é percebido pelo violado.

De fato no Brasil não houve um apertheid como em outros países que segregaram raças e até legitimaram a segregação instrumentalizando as diferenças. Porém, insisto em dizer que o que é velado é mais difícil de ser combatido. Me parece que tudo no Brasil tende a ser velado, e os discursos sobre a harmonia presentes nas diferenças nacionais tendem a velar ainda mais certos problemas.

Quando menciono que tudo no Brasil tende a ser velado, admito que a generalização pode invalidar o argumento, porém tratando-se do tema “segregação racial”, chamo a atenção para a própria Abolição da escravatura que teve um processo lento e imbuído de características próprias, pautado nas relações econômicas. Entretanto só percebemos isso ao analisarmos a fundo as circunstancias de tal evento.

Já que o preconceito velado existente nas experiencias cotidianas dos negros e negras no Brasil não são levados em consideração por alguns que se propoe a analisar essa questão, apresento então dados recentes.

Beatriz Bulla, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – São Paulo é a região metropolitana com maiores desigualdades entre os rendimentos médios por hora de homens e mulheres negros comparado com o de homens não negros. Aqui, a mulher negra chega a ganhar 47,8% do rendimento do homem não negro por hora. Salvador, Recife, Porto Alegre, Fortaleza e Belo Horizonte, apesar de apresentarem diferenças significativas nesta relação, pagam às mulheres negras ao menos mais de 50% dos rendimentos do homem não negro. No Distrito Federal, a proporção também é abaixo da metade (49,5%). Os dados são resultado de levantamento da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) sobre as regiões metropolitanas, com base na pesquisa de emprego e desemprego (PED) de 2011.

Infelizmente, alguns problemas só são aceitos como reais, quando se apresentam num estágio avançado. Os números acima não me surpreendem, apenas representam o resultado de algo que é conhecido pelos negros: a questão da pele no Brasil ainda é uma questão de segregação.

Joaquim Nabuco, defensor da abolição, já previa que o cenário vivido em sua época resultaria em um processo difícil de ser revertido na história do país. As consequências do processo de escravidão no Brasil, infelizmente ainda existem e se nos limitarmos a observar isso de forma acadêmica nos distanciando da realidade, contribuímos para que o preconceito, seja em qual for a forma que se apresente, continue colocando em risco os direitos das minorias.

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