Corpos cívicos, Richard Sennett

Considerações após a leitura do texto de um autor que particularmente gosto muito.

Nova York multicultural – Greenwich Village in Carne e Pedra, Richad Sennett.

Diferença e indiferença

Richard Sennett narra sua experiência em Greenwich Village, vinte anos após a leitura de The Death and life of Great American Citties, de Jane Jacobs. Nessa leitura, Greenwich se apresenta como “a quintessência do centro urbano”, misturando grupos e estimulando os indivíduos através da diversidade. Entretanto em sua visita, em 1970, Richard Sennett observa um cenário completamente diferente.

A primeira vista, o cenário de fato é semelhante ao apresentado por Jane, comunidades de imigrantes transitam em meio aos turistas que encantados com a urbanização da região passam despercebidos entre os moradores. Entretanto, um olhar mais atento possibilita identificar a existência da indiferença em meio a variação. Os grupos que teoricamente interagem de maneira harmoniosa, na verdade ocupam lugares diferentes e em geral, interagem com a sua própria comunidade.

A venda de drogas ocupa lugares a céu aberto, e o seu consumo está associado ao alto índice de HIV que tornou-se um problema crescente em meio aos jovens e a prostituição. Os sem-teto também fazem parte do cenário, causando pouca estranheza. A cada duzentas pessoas, estima-se uma sem-teto, índice superior a Calcutá e a baixo de Cairo. Entretanto os moradores de rua optam pela região, pois há uma certa paz para se viver nestas ruas.

Richard Sennett atribuí essa paz ao modo de vida moderno, onde a individualidade nas cidades não deixa espaço para o relacionar-se com o outro. “Centelha de vida não merecem mais que um lampejo de atenção”.

As diferenças são toleradas, não há um sentimento de pertencimento a um todo.

Greenwich Village está localizada na cidade de Nova York, e sua geometria está associada ao padrão capitalista de urbanização ressurgente do séc. XII, que tratou terrenos, quarteirões, ruas e avenidas por simples unidades abstratas destinadas à compra e venda, desconsiderando dessa forma, qualquer relevância em termos de história. Segundo Richard Sennett esse modelo de urbanização carece de um centro, embora os turistas acreditem que o centro de Nova York seja o Central Park.

As construções são feitas para durarem em média cinquenta anos, e nesse ritmo  prédios são demolidos e reerguidos com a mesma velocidade, financiados por seus compradores levando em consideração inclusive o prazo de “validade” das construção. Esse fenômeno é característico de uma forma específica de interagir com o espaço, que aparentemente não está mais associado ao senso de pertencimento dos indivíduos com o meio.

Após a Segunda Guerra, Nova York teve um crescimento considerável, entretanto os responsáveis por esse crescimento encaravam a malha urbana desconsiderando seu aspecto histórico. Dessa forma, foram construídas pontes, parques, auto-estradas, praias e portos. Robert Moses foi um dos principais planejadores da cidade, e há relatos de que ele gostava do publico, porém não do povo. Tratou de excluí-los, deixando-os à margem da urbanização. Essas informações constam no Quadrador de Poder, biografia de Moses escrita por Robert Caro.

Diante das diversidades e do desconhecido, os indivíduos tendem a compreender o outro através de imagens estereotipadas. Roland Barths foi o primeiro a chamar atenção para esse “repertório de imagens” atribuída no contato com o outro. “Um branco que depara com um negro ou um árabe na rua registra a ameaça e desvia os olhos”. Kevin Lynch se apropriou desse olhar sobre os símbolos para estudar as cidades.

Hoje, metade da população de Nova York se resume a imigrantes de diversos lugares do mundo, entre eles Caribe, América Central, Oriente Médio e Coréia. Novas etnias tem possibilitado o repovoamento de velhas regiões empobrecidas da cidade.

O argumento central de Richard Sennett (conforme afirmado por ele mesmo), é de que em geral a forma dos espaços urbanos deriva de vivências corporais específicas a cada povo. Dessa forma o entendimento sobre o corpo deve-se ser reelaborados para que as pessoas se importem umas com as outras. O indivíduo cívico tornou-se indiferente para com os sofrimentos alheios, isso consequência da maneira individualista de se sobreviver na cidade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: