Dica de leitura: A morte de Ivan Ilitch, Leon Tolstói

Sempre defendo a importância da literatura, por proporcionar uma aproximação com as relações sociais em determinado período histórico, aproximação esta, muitas vezes impossível de ocorrer somente pelo viés tradicional, ou seja, pelos livros de história.

Considerações após a leitura.

Em a Morte de Ivan Ilitch é possível uma rápida viagem à Russia czarista, 1880. Mais precisamente, à vida instável daqueles que ocupavam algum posto em cargos públicos no regime do czár.

Na compainha de Tolstói, o leitor poderá mergulhar numa obra que coloca as angústias da vida imprecisa daquele que um dia foi o jovem  le phenix de la famille (o orgulho, o tesouro da família).

Diferente do filho mais velho que era frio e meticuloso, e do mais jovem que era o temerário e esquecido pela família, Ivan Ilitch já na faculdade de direito apresentava características que comporiam sua personalidade para o resto de seus dias “um homem capaz, alegre, bonachão, comunicativo, mas um severo cumpridor daquilo que considerava seu dever, e considerava seu dever tudo aquilo que consideravam como tal as pessoas mais altamente colocadas” (p.18).

É possível observar as características também do autor, que ao aproximar-se de tal condição social, apresenta um cenário de aparências, onde os indivíduos se relacionam com o objetivo de extrair algum benefício próprio, seja no trabalho ou na própria relação doméstica. As expectativas que o trabalho oferece no que se refere ao status do sujeito, faz com que este torne-se o alicerce para a projeção do eu, e o matrimônio um símbolo social que de alguma forma reflete a estabilidade do indivíduo. Dessa forma um bom trabalho e um casamento acertado seria sinônimo de uma vida leve, agradável e decente. E este era o objetivo de vida de Ivan Ilitch, ter uma vida leve, agradável e decente.

Após concluir o curso de direito e conquistar um cargo publico em uma nova cidade, Ivan Ilitch sempre rodeado de boas companhias (pessoas que ocupavam cargos semelhantes ou melhores que o seu), conhece aquela que se tornaria sua esposa, Prascóvia Fiódorovna Michel. Uma jovem bela e agradável a qual carregava um nome tradicional e por conveniência de todos os fatores, mesmo sem a amar, casou-se com ela.

Os primeiros anos do casamento foram iguais aos de muitos jovens casais, com carinhos, mobília nova e gravidez. Com o tempo, algumas mudanças ocorrem no trabalho de Ivan Ilitch, sendo transferido diversas vezes. A mulher fragilizada com a morte de alguns de seus filhos e o ordenado apertado faz com que o casal enfrente cada vez mais problemas conjugais, guardando no íntimo mágoas e rancores, agindo e se distanciando como inimigos velados. A mulher se torna rude, fria e grosseira. Para que a vida mesmo assim continue sendo pelo menos minimamente leve, agradável e decente, Ivan Ilitch se entrega cada vez mais ao trabalho e ao uíste (carteado), se distanciando cada vez mais da relação doméstica.

Entretanto uma doença faz com que Ivan Ilitch repense com amargura toda a sua trajetória. Uma doença que o consome e o corrói por dentro, faz com que os últimos momentos da vida Ivan Ilitch apresente a face cruel da vida. As relações sociais quando despidas , observadas pelos olhos de um enfermo são superficiais, mentirosas e repugnantes.

A enfermidade e a dor faz com que Ivan Ilitch repense diversas vezes sobre a condição frágil do ser humano, a qual nunca havia pensado quando jovem e repleto de saúde. O silogismo da lógica de Kiesewetter aprendido na faculdade, nunca fizera tanto sentido para ele “Caio é um homem, mas os homens são mortais. Logo, Caio é mortal”. Caio seria um homem em geral, mas não Ivan Ilitch, esse tinha lembranças de quando criança, havia sido um jovem admirável na faculdade, e no presente havia constituído uma relação social sólida, sendo respeitado enquanto juiz. Seria ele também um mortal?

A vida e a morte, seria apenas uma passagem?

Todos gozavam de boa saúde, mas a morte para eles que não compreendiam as angústias do enfermo, também seria uma realidade. O fim estava previsto, mas como enfrentá-lo? Como aguentar arrastar-se pela vida lutando contra a morte e contra as mentiras vividas nas relações sociais? Por pior que tudo se apresente neste estágio da vida, ela ainda é a melhor opção diante da morte.

Ivan Ilitch é o que homem buscou viver leve, agradável e decentemente. Para tal, mentiu muitas vezes para sí e para os outros. Buscou conquistar aquilo que muitos homens buscam, que é o respeito através da imagem que uma vida composta por relações sólidas no trabalho e em casa pode oferecer. Ivan Ilitch diante da doença torna-se frágil, chorou algumas vezes sozinho no escuro como uma criança que precisa de um abraço para dormir. Lamentou como um homem que diante da enfermidade torna-se um problema para aqueles que gozam de boa saúde. Morreu, como todos que estão vivos ainda hão de morrer.

Embora o fim trágico de Ivan Ilitch esteva dado desde o título da obra, a narrativa precisa e objetiva de Tolstói faz com que a novela seja consagrada como uma preciosidade da literatura russa. Nas palavras do tradutor, ninguém consegue narra com tanta dignidade os pensamentos humanos como Tolstói.

Fica aí, mais uma dica de leitura.

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2 pensamentos sobre “Dica de leitura: A morte de Ivan Ilitch, Leon Tolstói

  1. ANTONIO DARI 12 de dezembro de 2012 às 13:48 Reply

    Pena que eu não contratei vc para fazer as rezenhas do passado

    • saindodasprateleiras 20 de dezembro de 2012 às 10:25 Reply

      Temos aqui a visita de um (quase) russo?!?!rs.
      Valeu Darizóvisk. O blog fica feliz com sua visita e comentário.

      Karina

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