Dica de Leitura: Combate nas Trevas, Jacob Gorender

Terminei o livro do Sábato e agora inicio nova leitura a qual compartilho considerações com este blog.  Essa dica de leitura é dedicada a uma pessoa muito especial. Pessoa que buscou esse livro em diversos sebos até encontrar a melhor versão para me presentear. Essa pessoa é meu querido pai. Antes de tudo, obrigada por motivar minhas incessantes leituras e por ser minha referência intelectual. Embora o tenha decepcionado no meu encontro com o feminismo e o ateísmo, aprendi com ele a admirar a poesia portuguesa, a boa música brasileira e a literatura universal.

Sobre o autor

jacob gorender

No currículo de Jacob Gorender não constam títulos acadêmicos. Eles são substituídos por uma longa militância prática e teórica. Membro durante anos do PCB, onde chegou até o Comitê Central, e fundador do PCBR, Gorender sempre procurou fazer o que boa parte dos militantes marxistas não fazem: aliar à prática política uma sólida formação teórica. Autor de diversos ensaios, escreveu também O escravismo Colonial, obra considerada clássica pela comunidade acadêmica. Em Combate nas Trevas, Jacob Gorender alia duas qualidades aparentemente contraditórias “a guarra do combatente e a serenidade do historiador”.

Combate nas Trevas

combate nas trevas

Devido a complexidade das informações apresentadas, separarei as postagens por capítulos até findar a obra. Algumas frases permanecerão iguais ao texto original por serem difíceis de sintetizar sem alterar o conteúdo, porém esse texto que não é uma resenha, deixa isso claro desde já. Esta é a forma que utilizo para divulgar livros e trazer considerações que possibilitem novos acessos às obras originais. Cabe ao leitor recorrer a fonte e fazer suas próprias considerações.

            I

            Prelúdio Goiano

            Sexta-feira 13, 1964. Duzentas mil pessoas assistem o comício na Praça da República, entre a estação ferroviária da Central do Brasil  e o Ministério da Guerra. O autor lembra que foi esta a primeira vez que viu Astrogildo Pereira, fundador do PCB. Logo, viajou para Goiânia, se ausentando do Rio de Janeiro para ministrar o curso de filosofia e o ciclo de conferências para expor O Marxismo Como Filosofia Humanista. Presença assídua nas conferências, o coronel Clementino Gomes comparecia sempre a paisana. Chefe do Gabinete Militar do Governador Mauro Borges, convidou Jacob Gorender para uma visita ao Palácio das Esmeraldas. Aceitando o convite, no dia seguinte Jacob conversou com o coronel Mauro Borges, único governador que acompanhou Leonel Brizola na oposição aberta aos ministros militares que tentaram impedir a posse de Jango à presidência da República após a renúncia de Jânio Quadros em 1961. O governador, embora assumisse uma posição moderada (diferente da radicalização de Leonel Brizola), apoiava o presidente à assumir o governo em sua plenitude. Nesta conversa, notou-se certa hostilidade de Mauro Borges em relação a Jango, porém a princípio, Gorender atribuiu este fato à rivalidade provinciana entre PSD e PTB. Entretanto os reais motivos ficariam claros somente após o levante de Minas Gerais, onde o Governador Afonso Arinos, Milton Campos e José Maria Alkimim indicavam a intenção de erigir em Belo Horizonte o centro de um poder contrário ao de Brasília, e Mauro Borges assumiria posição contrária a de 1961, tendo recebido um convite pessoal de Carlos Lacerda para fazer parte de um restrito grupo de governadores para deliberar a sucessão presidencial.

Iniciava nesta data um período de seis anos de clandestinidade para Jacob Gorender, e com a ajuda de alguns companheiros, conseguiu chegar a São Paulo de carro após trinta horas de viagem.

Mauro Borges, apesar de aderir o golpe, provocava desconfiança no General Castelo Branco, novo ocupante de Palácio do Planalto. Ernesto Geisel tramou falsas acusações sobre o governador e em 1964 em ato ditatorial, Mauro Borges foi deposto. Em 1965 publicou o livro O golpe em  Goiás, a história de uma grande traição.

            2

            O Contencioso da Industrialização e do Populismo

            Desde os anos 1930, industrialização e populismo caminharam juntas, potencializando-se reciprocamente mudando a face do país. Entretanto as contradições acumuladas nos últimos trinta anos se acentuavam e a Constituição liberal de 1946 deixava claro que deveria haver uma ruptura nessa combinação. E foi nesse cenário que Jango assumira a Presidência da República, em meio a  uma tempestade que pronunciava outras ainda piores.

A questão dada pelo autor; “Poderia a industrialização prosseguir acasalada ao populismo? Ou já era caso de divórcio?

No cenário interno, findava o período republicano da cafeicultura e a burguesia industrial ascendia, criando mercado interno apoiada por Getúlio Vargas. Os investimentos do Estado e do capital estrangeiro são a alavanca principal do salto industrializante do quinquênio de Juscelino Kubistchek. O endividamento  externo e as altas taxas de juros caracterizam esse período, causando conflitos sociais. O conceito de populismo tratado nesta obra se dá da seguinte maneira:

(…) o conceito de populismo não se reduz a demagogia e manipulação, aspectos secundários no contexto. O populismo inaugurado por Getúlio Vargas se definiu pela associação íntima entre trabalhismo e projeto de industrialização. O trabalhismo como promessa de proteção dos trabalhadores por um Estado paternalista no terreno litigioso entre patrões e empregados. O projeto de industrialização como interesse comum entre burgueses e operários. O populismo foi a forma da hegemonia ideológica por meio da qual a burguesia tentou – e obteve um elevado grau – o consenso da classe operária para a construção da nação burguesa” (p.16).

            Jânio Quadros, eleito em 1960, renunciou o Congresso em Agosto de 1961 com o objetivo de obrigar o Congresso a castrar suas prerrogativas constitucionais e fortalecer as atribuições do Presidente da Republica. A manobra fracassou, diante de muitos conflitos Jango assume a Presidência.

  3

O PCB –  Das ilusões da Legalidade à Retórica da Luta Armada 

             No período de 1946 a 1964 o PCB representava a maior força da esquerda brasileira, que dispunha de forte atuação partidária com os estudantes, com ramificações no meio camponês,  e no cenário político com campanhas antiimperialistas. A legalidade havia sido conquistada em 1945, Gorender observa que o partido se deixou iludir pela concórdia internacional entre o Eixo nazifascista na Guerra Fria, sem perceber as alterações na disposição das forças de classe dentro do país. Luis Carlos Prestes a essa altura era o secretário-geral do partido e havia conquistado prestígio biográfico. Prestes e outros dos principais dirigentes saídos da Conferência da Mantiquiera demonstravam acreditar nos “bons propósitos” da burguesia “progressista” e aderiram discursos pacifistas, orientando os trabalhadores a se entenderem com seus patrões em nome do desenvolvimento nacional. A “burguesia progressista” ao contrário, não demonstrou confiança nas intenções do partido comunista, inspirada nos primeiros acontecimentos da Guerra Fria, abriu-se processo judicial para cassação do registro do partido. Em 07 de Maio de 1947, com três votos a dois, o PCB teve seu registro cassado, e houve um corre-corre para queimar papéis e arquivos, uma vez que o partido estava novamente na ilegalidade e no dia seguinte a ordem judicial se cumpriria.

Em Janeiro de 1948 começou a cassação dos parlamentares comunistas. Jacob Gorender atribui esta calamidade, de certa forma, à segurança que Prestes depositou na “burguesia progressista”, e afirma que a repetição dos prognósticos calamitosos se revelou uma especialidade de Prestes. No dia 1ª de Agosto, foi assinado na clandestinidade pelo Quarto Congresso o Manifesto  do Programa que trazia modificação teórica significativa. A revolução, a princípio, não teria um caráter socialista, mas antiimperialista e antifeudal, e oferecia o privilégio à burguesia nacional na participação da industrialização intensiva a ser promovida pelo futuro regime revolucionário, sofrendo expropriação somente os grandes empresários à serviço do imperialismo norte-americano.

A proposta da luta armada caiu no vazio, sendo aderia apenas em alguns Estados como Paraná e Goías, se caracterizando por conflitos locais. Por outro lado, o segundo governo Vargas aderia ainda uma postura populista, e embora estivesse em uma fase de colisão com os Estados Unidos, permanecia inflexível em relação ao PCB, que já se encontrava em situação calamitosa  no que se refere a sua organização. Esta situação pode ser percebida, quando o PCB se coloca ao lado da UDN para derrubar o Presidente da Republica e em seguida, Prestes vem a publico se posicionando contra o golpe. Importante observar nessa passagem que o PCB durante o Governo Dutra,  se aproxima da esquerda trabalhadora (inclusive aqueles que simpatizavam pelo regime varguista) nas fábricas. O jornal Notícias de Hoje chegou a atingir a vendagem diária de 25 mil exemplares durante a greve dos 300 mil que durou de março-abril de 1953.

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