Dica de leitura: O Túnel, Ernesto Sábato.

sabatoAutor de O Túnel, 1948 , Sobre Heróis e Tumbas, 1958 e Abadon, 1974 . Ernesto Sábato é um físico nascido em Rojas, província de Buenos Aires, em 1911.

O túnel

 Narrado na primeira pessoa, o estilo literário me fez lembrar a princípio, Machado de Assis, logo gostei muito. Machado possuía uma forma peculiar de conduzir o leitor, passando por altos e baixos, jogando comentários soltos entre uma observação e outra, o que sempre me fez sentir próximo do narrador.

 Quanto a obra em sí, considerei a princípio o sarcasmo do personagem ao discorrer seus pensamentos mais íntimos sobre a vida humana. Um assassino em liberdade, que ousa na primeira página admitir que no mundo existem pessoas horríveis e que os assassinos embora sejam a princípio repugnantes, são muitas vezes limpos e inofensivos, pois tratam de eliminar alguns maus tipos da sociedade, de uma vez por todas. Em seguida, lamenta-se por não ter usado sua liberdade para eliminar mais uns seis ou sete tipos destes.

De pronto, percebemos que o que virá pela frente é uma novela ousada, que permitirá o leitor questionar-se sobre certos conceitos fundamentados em nossa cultura machista.

             Juan Pablo Castel havia matado Maria Iribarne Hunter, e se propõem a escrever a história do seu crime. Os aspectos humanos são colocados em pauta a todo o momento. As lembranças seletivas que exclamam sentir “saudades dos velhos tempos”, mesmo sendo a vida sempre repleta de infelicidades. A vaidade humana, presente até mesmo na bondade e na modéstia, que pode ser percebida inclusive na figura simbólica de Jesus Cristo que passara a vida servindo indivíduos que ajoelhavam aos seus pés. Segundo Juan Pablo, embora ele não tenha motivos para sentir-se superior aos demais humanos, ou a néscia de sentir-se perfeito, esforça-se em afirmar que não contará a história do seu crime por vaidade, talvez por soberba e orgulho, ou por achar que mesmo com a curiosidade daqueles que buscam explicações para tudo, e que automaticamente fará com que muitos leiam a história até o fim, talvez ninguém possa entendê-lo. “Existiu uma única pessoa que poderia entender-me. Mas foi, precisamente esta que matei”.(p.5).

           Juan Pablo Castel era um pintor famoso, mas repudiava os críticos de arte. Nverdade repudiava toda espécie de agrupamento de pessoas que compartilham entre sí comportamentos semelhantes, caracterizados pela repetição do tipo.  “Que quero dizer repetição do tipo?Já terão observado quão desagradável é encontrar-se com alguém que a todo instante pisca um olho ou torce a boca? Imagem, então todos esses indivíduos reunidos em um clube! Não há necessidade de se chegar a esses extremos; no entanto, basta observar as famílias numerosas onde se repetem certos rasgos, certos gestos, certas entonações de voz”. Essa repetição do tipo, aparece também em grupos específicos como na forma de empregar o artigo definido “a sociedade, por Sociedade da psicanálise, o partido, por Partido Comunista; a sétima, pela Sétima sinfonia de Beethoven”. No campo das ações, essa repetição fica nítida, como em certa ocasião que teve de enfrentar com ingenuidade o olhar do psicanalista

(…) olhando-me com aqueles olhos penetrantes que os freudianos julgam obrigatórios para a profissão, e como se também se perguntasse: que outra maluquice estará atacando esse cara ”.

            Juan Pablo Castel evitava reuniões e discussões sobre arte, tal como, repudiava a repetição dos seguidores de obras famosas, como as de Picasso. Eis que em uma exposição, uma mulher lhe chama a atenção por debruçar os olhos sobre sua tela, mas diferente dos outros que ele próprio se distanciava, ela pareceu a única a observar um detalhe na pintura. Havia no canto superior do quadro, uma janela. Uma janela que não dialogava com o resto da tela e parecia que somente ela compreendia o sentido daquela janela ali, propositalmente posta. Sentido este, que nem o pintor saberia explicar qual era. E foi este o dia que Juan Pablo Castel viu pela primeira vez Maria Iribarne  Hunter e desde então ela estaria em seus pensamentos. Durante meses Juan Pablo ensaiou como se comportaria diante dela, caso a encontrasse novamente. Sabia que encontros casuais não eram sempre possíveis, então pensava na hipótese de a encontrar pela rua, ou próximo a curadoria. Ela não parecia uma crítica de arte, e isso também fazia com que o interesse por ela aumentasse. Desde então Juan Pablo só pintava para ela. Seis meses se passaram nesta agonia, até que ele a reencontrou e ao se aproximarem, os reencontros tornaram-se frequentes.

            As páginas que se seguem, são de insegurança e desconfiança. Juan Pablo Castel deseja cada vez mais possuir Maria, conhecer seus mais íntimos pensamentos. O ciúmes e o sentimento de posse move o personagem num drama que sofistica a equação machista “honra manchada=castigo de morte”. O teor psicológico do personagem em O Túnel apresenta características literárias inusitadas, transcendendo a ordem do real e do irreal, apresentando o conflito e a decadência do sujeito. A mulher, narrada pelo assassino muitas vezes é associada à um um vidro que ele não consegue atravessar, e se  assemelha à muitas Marias que vítimas do sentimento de posse, encontram o mesmo fim que Maria Iribarne Hunter.

Fica registrada mais uma dica de leitura.

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