A Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo

joaquim macedo

Primeiro romance da literatura brasileira, apresenta as aspirações sociais burguesas do século XIX.
Segundo Consuelo Albergaria Prado “o romance é instrumento de uma ideologia usada como meio de propaganda e afirmação de um grupo a serviço de uma classe em vias de formação”, e confesso, que a novela em sí não me surpreendeu e particularmente não me conduziu a uma leitura agradável, porém, considerando este o primeiro romance da literatura brasileira, escrito por Joaquim Manuel de Macedo ainda com vinte e três anos de idade, suas próprias palavras na introdução do livro, e somando estes fatores à possibilidade de observarmos “a classe em via de formação”, concluí a leitura e aqui estão meus comentários.
No texto introdutório, Joaquim Manuel Macedo afirma considerar a Moreninha sua filha, tendo ela mais três irmãos que logo seriam publicados. Embora A Moreninha possa se apresentar aos leitores, cheia de defeitos, e seu pai podendo inclusive ser acusado de não tê-la educado suficientemente conservando-a embaixo de seus olhos para que não se tornasse tão traquina, poderia o autor atribuir melhores qualidades diante de tantas críticas aos seus irmãos para corrigir suas imperfeições. Um conselho do pai à filha Moreninha: “E tu, minha filha, vai com a benção paterna e queira o céu que ditosa sejas: Nem por seres traquinas te estimo menos; e como prova, vou em despedida, dar-te um precioso conselho: recebe, filha, com gratidão, a crítica do homem instruído; não chores se com a unha te marcarem o lugar em que tiveres mais notável, senão, e quando te disserem que por este erro ou aquela falta não és boa menina, jamais te arrepies, antes, agradece, anima-te sempre com as palavras do velho poeta: Deixa-te arrepender de quem te ama, que ou te aproveita, ou quer aproveitar-te”.
Cada leitor pode fazer uma leitura diferente da mesma obra, espero que minhas críticas não sirvam de desmotivação para outros leitores, pois de qualquer forma, o livro é importante ser mantido enquanto clássico em nossa literatura, uma vez que cumpre o importante papel de apresentar um cenário histórico específico, que é a influência no Brasil do Romantismo que vigorara na Europa.
Publicado em 1844, A Moreninha apresenta as características que compõe as novelas que já conhecemos: mocinhos e mocinhas com virtudes que caracterizam o “modus vivendi” de uma regra social tida por ideal, personagens centrais que são compostos por todas estas virtudes e logo, compõe o romance central da novela. Por outro lado, figuras caricatas com defeitos, ou seja, características que não vão de encontro com as aspirações sociais daquele período. E por fim, a figura de uma senhora que seria a benevolência em pessoa, sendo de alguma forma a responsável pela afirmação dos “tipos ideais”, quando sua presença se torna respeitável pelo simples fato de corresponder à ordem vigente. Esta benevolência é aquela se transfigura no “cupido”que une o casal central, e torna o final feliz uma repetição dentro da repetição.
A exaltação do belo tendo como princípio o tipo brasileiro composto pela pele morena e cabelos negros em contraposição ao tipo europeu de pele e olhos claros, também é uma característica da influência que o romantismo promoveu no Brasil, uma vez que essa nova tendência visava romper com a tradição literária anterior. Como o Romantismo não se limita ao romance romântico, A Moreninha evidencia ainda, uma alta classe repleta de defeitos, namoros e fofocas. Algumas das inquietações intelectuais podem ser observadas nas falas de alguns personagens e eu particularmente gostei da passagem em que Fabrício descreve a moça a qual estava enamorado:
“Vocês com seu romantismo a que não posso acomodar, a chamariam de pálida. Eu que sou clássico de corpo e alma e que, portanto, dou às coisas seu verdadeiro nome, a chamarei sempre de “amarela. (…) Malditos românticos, que têm crispado tudo e trocado em seu crispar os nomes que melhor lhe exprimem as ideias!…O que outrora se chamava, em bom português, moça feia, os reformadores, dizem: menina simpática!…O que em uma moça era antigamente desenxabimento, hoje é ao contrário: sublime languidez! (…) a escola dos românticos reformou tudo isso, em consideração ao belo sexo. ”. Pg.25. Outro trecho que observo resquícios das inquietações no mundo das ideias:“ A bela senhora é filosofa! …faze ideia! Já leu Mary de Wollstonecraft” pg. 69. A referência aqui é a escritora inglesa que defendeu a igualdade de direitos entre homens e mulheres e melhor educação para as mulheres (1759-1797).
Sobre o estilo do autor, diria que é carismático ao narrar as aventuras dos jovens estudantes numa ilha, em uma casa cheia de moças, onde podemos “vigiar” o pensamento de alguns personagens. No auge dos seus poucos anos de vida, esses pensamentos não poderiam ser menos que engraçados. Quanto a Moreninha, personagem que intitula a obra, no final da leitura a perdoei por suas traquinagens em consideração o pedido do seu pai, na introdução. De fato a jovem mimada torna-se irritante com seus excessos, porém com tanta graça, ao mesmo tempo que irritante, torna-se apaixonante.

Fica aí, mais uma dica de leitura!

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