Dica de leitura: O Diabo Coxo (El Diablo Cojuelo), de Luis Veléz Guevara

Lançado em 1641, O Diabo Coxo trata-se de um discurso, como prefere ser chamado pelo autor, Luis Velez de Guevara.O livro não está repartido em capítulos, mas em trancos, por se tratar das peripécias do diabo.

o diabo coxo

Dom Cleófas Leandro Pérez Zambullo, estudante, fidalgo, galã (e outros adjetivos atribuídos pelo narrador), andava fugido da justiça pelo crime de estupro o qual não havia cometido. Pelos telhados de Madri com um escudo na mão, o estudante perambulou até encontrar por acaso a morada de um astrólogo, onde por curiosidade começou a “remexer os trastes astrológicos” e escutou alguns suspiros, e ao questionar quem mais estava ali, uma voz afirmou ser espírito mais travesso do inferno, um demônio grande e o mais celebrado dos dois mundo. O tal diabo estava preso na redoma, em um árgel de vidro durante mais ou menos dois anos em poder do astrólogo.
O demônio afirmou não ser Lúcifer , pois esse é o demônio das beatas e escudeiros, também não era Satanás , pois esse é o demônio de alfaiates e açougueiros, também não era Belzebu que é o demônio dos jogadores, amancebados e carroceiros, e por fim, também não era Barrabás, Belial, Belial ou Astorat, pois esses demônios tratavam de coisas maiores. O demônio era então, as pulgas do inferno, a fofoca, a confusão, a usura, a fraude que trouxe para o mundo a algazarra, a chacota, inventou as pandorgas, os comas, as marionetes, os saltimbancos. Esse pobre diabo, teria sido o primeiro dos que se levantaram na rebelião celestial e dos primeiros que caíram, portanto tendo sido o que mais ficou assinalado pelas mãos de Deus e pelos pés dos outros diabos, pois depois muitos outros caíram por cima dele, deixando-o todo estropiado e coxo, mas não por isso menos ágil.
Pediu a liberdade a Dom Cleófas, oferecendo em troca a sua amizade com as suas imperfeições boas e más. Ao quebrar a redoma, o jovem viu o líquido que estava no vidro esparramar-se pelo chão e logo um homenzinho pequeno de muletas estava posto a seu lado, “cheio de galos, com o nariz achatado, a boca grande com duas presas sem nenhum outro dente nas desertas gengivas e bigodes ouriçados; seu cabelo era ralo, um aqui outro ali, pareciam aspargos, legume tão inimigo da companhia que, que só se juntam quando é para vê-los em punhados”. (p.20).
Logo, o diabo tratou de cumprir a promessa que havia feito a Dom Cleofas, e os dois se viram livre da morada do astrólogo, e também da região a qual o estudante fugia de seus perseguidores. O relógio de Madri marcava uma hora, momento do toque de recolher e do sono. No plano mais alto da cidade estavam os dois; jovem e diabo, e iniciara nesse momento a brincadeira do diabo que propôs apresentar a Dom Cleófas tudo de mais notável que acontece na cidade espanhola;“levantando-se o telhado dos edifícios, por arte diabólica, descobriu-se a carne do pastelão de Madri como estava então; pelo muito calor, estava com menos persianas, e havia ‘tanta variedade de bichos racionais nesta arca do mundo, que a do dilúvio, comparada com ela, foi suave brincadeira”. (p.21).
O teatro onde tantas figuras representa começava a ser despido e narrado pelo diabo com sarcasmo, ironia e ainda assim, muita graça, como “aquele que se preza lindo, ou aquele lindo dos mais apreciados , como dorme com bigodeira, creme nas mãos e luvas; tem tanta porcaria no rosto que daria para fazer refeições para toda a quaresma que vem”, ou aquele rinoceronte com camisa de mulher a quem “não somente a cama fica estreita, como também a casa e Madri”. O diabo coxo se diverte em seus comentários, observa que este homem era de muitas propriedades, e havia construído uma capela para seu enterro, acreditando que dessa forma iria direto para o céus, “apesar de que mesmo que ponham uma garruchada na estrela de Vênus e uma alavanca para Sete Cabritinhas, será impossível que ele suba para lá esse tonel.” (p.25). Observam as pessoas com suas mais íntimas vaidades, manias e mentiras que agora se apresentam em suas verdades. O alquimista tentando a mais de dez anos transformar o pó em ouro, o fidalgo a caminho de casa (que despido, com tantos defeitos, deveria ir para a cova e não para a casa), os ladrões noturnos, as donzelas “santas” que possuem dois amores, o mentiroso que quando dorme, sonha dizer a verdade. Ao fim da noite, Dom Cleófas e o Diabo Coxo desceram para as ruas de Madri, vendo na corte aquele cozido humano, fervendo para cima e para baixo, “ (…) travando-se a batalha do dia, cada um com desígnios e negócios diferentes, e pretendendo enganar uns aos outros, levantando-se uma nuvem de mentiras, e não se descobriria uma pisca de verdade por um olho de cara”. (29).
Enquanto o jovem e o diabo pararam as andanças para comer em uma taverna, o astrólogo se lamentava pela fuga do seu diabinho, e no inferno uma comissão havia sido convocada por Satanás para encontrar o coxo e ordenou que Cem- chamas (Hispa e Redina) o prendessem em qualquer lugar que fosse encontrado, e assim a alta vara do inferno segue em busca do diabo. Dom Cleófas e o Diabo Coxo estavam sendo procurados, o primeiro pela família da moça o qual supostamente havia desonrado (outros antes dele o haviam feito, porém sobrou ao último o castigo), e o diabo por ter fugido do astrólogo e andar perambulando pelo mundo. Nenhuma gente humana poderia se meter com os demônios, e os que ousavam iriam acertar as contas no inferno. Tipos destes eram os poetas cegos, que versavam contra os demônios, e as beatas, que não há no mundo gente que não as queira mal; são espécies de diabas fêmeas na terra.
No tranco XII, o estudante observa uma caravana, denominada pelo diabo por “casa da Fortuna”, a caminho da Ásia Maior para assistir a batalha campal entre Mogor e o Sofi. Na caravana que se segue, estão os oficiais da boca (cozinheiros, garrafeiros, despenseiros, e demais canalhas que tocam a bucólica), estão os da armada (quatro ventos e os arpões em uma torre), e os lacaios da Fortuna, “que são um dos maiores engenhos que já teve o mundo”, entre eles estão Homero, Píndaro, Virgílio, Ovídio, Horácio, Síilio, Lucano, Claudiano, Estácio Papínio, Juvenal, Marcial, Catulo, Propércio, Petrarca, Sannazaro, Tasso, Bembo, Dante, Guarino, Ariosto, Juan de Mena, Castillejo, Gregório, Garci, Camões e que foram em diferentes províncias os Príncipes da Poesia. O estudante observa que estes, cresceram pouco, pois não passaram de lacaios da poesia. Enquanto o esquadrão brilhante que carrega as jóias de diamantes é composto pelos homens mais ricos, príncipes e grandes senhores do mundo, estes são puxados não por mulas e cavalos, mas pelos mais antigos filósofos. Observa-se passar a Mudança, que oferece muitos papéis de casamentos e não cumprindo nenhum, a Beleza, dama de preto, sem jóias que se segue chorando. A Inveja que persegue a anterior, com um vestido de palha, bordado de basiliscos e corações. A Ambição, que parece prenha. A Avareza coberta de ouro, e logo a Usura, a Fraude, a Fofoca, a Soberba e a Invenção, donas da Fortuna, seguem com toucas compridas e óculos sobre minotauros. Ladroes, trapaceiros, astrólogos, espiões, hipócritas, passadores de moedas falsas, casamenteiros, noveleiros, corredores, gulosos e bêbados seguem à frente destas últimas com tochas iluminando seus caminhos. A esquadra de selvagens é composta pelos contadores, tesoureiros, historiadores, letrados (correspondentes, agentes da Fortuna). Atrás deles, exibindo troféus carregados por Pitágoras, Diógenes, Aristóteles, Platão e outros filósofos. As vozes da algazarra encerra esse esquadrão, com os dançarinos e atores. E assim dois forasteiros; o estudante e o diabo, seguem observando o mundo, os príncipes, os condes, os acadêmicos e os poetas, com Cem-chamas (Hispa e Redina) no rastro deles.

Certamente esse discurso, não se trata apenas de uma comédia, é antes, uma crítica aos costumes e à moralidade que conduzem o grande teatro das relações sociais. Quando um mundo de aparências é despido, pode causar enjoos até ao próprio diabo ao ver “estes canalhas que nasceram para desacreditar a natureza”.

Fica aí, uma bela dica de leitura.

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2 pensamentos sobre “Dica de leitura: O Diabo Coxo (El Diablo Cojuelo), de Luis Veléz Guevara

  1. Adriano Queiroz 30 de setembro de 2013 às 16:00 Reply

    Boa dica. Eu gosto de histórias que colocam o diabo como um palhaço bufão, um homenzinho mesquinho ou uma espécie de espelho escancarado da condição humana.
    Não conhecia, vou procurar para ler.

    • saindodasprateleiras 3 de outubro de 2013 às 2:17 Reply

      Posso deixar esse livro emprestado com você.
      Te levo sexta 🙂
      Leitura rápida, agradável e muito divertida.

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