Uma resposta para Lima Barreto: sobre as mulheres brasileiras na literatura

Por Karina Rodrigues

Fiz questão de assinar esse pequeno ensaio, pois nem sempre foi simples assim assinar qualquer publicação na condição de mulher.

Em 1911, Lima Barreto publicou a crônica “A mulher brasileira” a qual inicia mencionando o hábito de brindar-se às mulheres brasileiras. Esse hábito podia ser percebido desde os jantares em família, aos encontros entre amigos. Lima Barreto coloca em questão a legitimidade de tal brinde, queixando-se da ausência da figura feminina na emancipação das ideias, comparando o cenário francês do século XIII, onde mulheres como Mme.d’Épinay, amiga de Diderot e protetora de Rousseou publicou “Memórias”, e Mme.du Defant que custeou o Espírito das Leis. Outras mulheres são lembradas por Lima Barreto, por animarem e encaminharem os homens superiores, se misturando nas intrigas e debates filosóficos. A aparente ausência da figura feminina na emancipação do mundo das ideias no Brasil, faz com que Lima Barreto questione a legitimidade dos brindes direcionados a elas e os elogios calorosos dos oradores de sobremesa. Lima Barreto questiona “onde é que se viram no Brasil, essa influência, esse apoio, essa animação das mulheres brasileiras aos seus homens superiores?”, mais a frente, afirma que “não há num Raul Pompéia influência da mulher; e cito só esse exemplo que vale por legião. Se houvesse, quem sabe se as suas qualidades intrínsecas de pensador e de artista não poderia ter dado uma obra mais humana, mais ampla, menos atormentada, fluindo mais suavemente por entre as belezas da vida?” (p.70).
Parece-me desonesto criticar alguém que não está mais entre nós para defender-se, ainda mais alguém o qual muito admiro. Entretanto, mais desonesto me parece, ler tamanha injustiça para com as mulheres brasileiras e permanecer em silêncio.
Se ser mulher hoje no Brasil, como bem sabemos, ainda é motivo de desigualdade social, imaginem nos séculos que se passaram? O inicio das atividades intelectuais das mulheres, coincidem com a modernidade, até então a mulher era preparada apenas para as atividades domésticas. Estudos recentes, produzidos em sua maioria por mulheres, comprovam que mesmo com todas as dificuldade do início do século XVIII, elas já estavam presentes no mundo das ideias, não só “influenciando seus homens”, como se refere Lima Barreto às mulheres francesas, como produzindo obras literárias. Regina Zilmerman e Marisa Lajolo (A formação da leitura no Brasil, editora Ática, 2001) afirmam que “Na França do século XVIII, o assunto já tinha resultado no dilema: e se o ‘esboço intelectual’ feminino se transformasse em traços seguros, com mulheres intelectualizadas para apoiar com braços e idéias a revolução e, ao mesmo tempo, tornar o choque entre os sexos iminente? Era o poder que estava em jogo”.
No que se refere às influências, diante da necessidade de transformação social, as mulheres compõem uma nova espécie de leitoras, e as tiragens de romances se adaptam para esse novo publico, Dentre a imensidão de novos gêneros, aquele de tendência épica, “que priorizava os enredos romanescos dissociados da religião” (p. 237), ganhava cada vez mais destaque, sobretudo os textos que “valorizavam a personagem feminina enquanto protagonista de grandes amores” (p. 237). Entretanto, outras pesquisas comprovam que as mulheres não se limitaram a influência indireta dos autores, algumas foram responsáveis pela produção direta de obras, como Josefina Álvares de Azevedo (Recife, 1851) por exemplo, produziu diversos artigos em prol dos direitos da mulher. Embora, a Academia Brasileira de Letras tenha sido inaugurada oficialmente em 1897, somente em 1977 uma mulher foi intitulada pela primeira vez como merecedora de uma cadeira. A escritora Raquel de Queiroz é a quinta ocupante número 5, porém isso não significa que antes dela não houveram outros nomes femininos da literatura. A maranhense, mestiça Maria Firmina dos Reis publicou em 1859 o romance Ursula,devido as limitações da época, assina somente com o peseudônimo “Uma Maranhense”. Posteriormente publica também dos seus poemas nos jornais. Em 1861, o jornal O Jardim dos Maranhenses publicou em forma de folhetim, o romance Gupeva, também da autora. Maria Firmina dos Reis, foi resgatada por alguns pesquisadores, e suas obras são tidas como fontes de informações sobre as relações sociais do Brasil escravocrata, sendo Maria Firmina dos Reis, professora e a primeira escritora abolicionista do Brasil, sendo responsável também pela fundação da primeira escola mista, para meninos e meninas, no Maranhão. O romance Úrsula, segundo o professor Eduardo de Assis Duarte: “tematiza o assunto negro a partir de uma
perspectiva interna e comprometida politicamente em recuperar e narrar a condição do ser negro em nosso
país”.

Maria Firmina dos Reis é também autora da letra do hino de libertação dos escravos no Maranhão
.
Não ouso dizer que Lima Barreto foi tendencioso em seu comentário, pois no mesmo livro o qual a crônica “A mulher brasileira” foi publicado, temos acesso a outras críticas do autor, onde podemos observar a sua posição favorável a igualdade entre gêneros, como por exemplo em “Tenho esperança que”, o autor defende a importância do acesso das mulheres nas escolas publicas, e condena o Estado que limitava o número de vagas para mulheres em vista da pouca necessidade de formar profissionais para o magistérios. Ocorre que a realidade do Brasil vivido por Lima Barreto limitava a atuação das mulheres no mundo das ideias, e resgatar figuras como Maria Firmina dos Reis é um trabalho árduo que exige uma minuciosa pesquisa. Virgínia Woolf publicou em 1929 o livro Um Teto Todo Seu, e detectou uma profunda misoginia que afirmava a inferioridade mental, moral e intelectual das mulheres limitando-as ao campo das atividades domésticas. “Era preciso ter um quarto próprio e serem minimamente
independentes e instruídas. A exclusão cultural estava associada irremediavelmente à submissão e à dependência econômica. Se o talento
criador não era exclusivo dos homens, os meios para desenvolvê-los,
com certeza eram”.
Diante de tantos aspectos que contribuíram para a dificuldade da inserção feminina no mundo das ideias, infelizmente o que ficou registrado na história foi a timidez das nossas moças. Entretanto, como afirma a pesquisadora Constância de Lima Duarte em Arquivos de Mulheres Anarquivadas: História de uma História Mal Contada, algumas outras mulheres foram resgatadas:
“(…)Outra escritora que também demandou intensa investigação foi Emília Freitas (1855-1908), a poetisa e romancista cearense, abolicionista, autora do romance fantástico (literalmente) A rainha do ignoto (…)“Foram também resgatadas as baianas
Adélia Fonseca (1827-1920), poetisa muito elogiada por Machado de Assis e Gonçalves Dias, por seus sonetos bem construídos, que dialogam amorosamente com Camões; e Ildefonsa César (1794-?), que ousou imprimir em sua poesia a paixão e o erotismo, para espanto da sociedade contemporânea. Ou Adelaide de Castro Guimarães (1854-1940), a irmã dedicada de Castro Alves, que nos legou poemas amorosos, de um lirismo sensível e erudito; ou ainda Violante de Bivar Velasco (1817-1875), poliglota, que traduziu peças teatrais do francês, italiano e inglês, e, como jornalista, colocou sua pena a serviço da emancipação feminina. Outra baiana destacada foi, sem dúvida, Inês Sabino (1835-1911), que, além de poemas, romances e crônicas, publicou Mulheres ilustres do Brasil (1899), livro
pioneiro no resgate de mulheres que tiveram atuação significativa na
sociedade brasileira.
” (p.4). Resgatar autoras e intelectuais femininas tem sido um trabalho difícil, muitas obras são encontradas em anonimato, como a obra intitulada As mulheres: um protesto por uma mãe, publicada em Salvador, em 1887. “Esse livro revela aspectos fundamentais da vida concreta das mulheres, como o diminuto mercado de trabalho a elas reservado, a absurda diferença salarial entre homens e mulheres, a valorização das funções reservadas aos homens, o rebaixamento da mulher, entre vários outros. O que mais surpreende, quando lemos o texto da “escritora anônima”, é a erudição que transparece em sua argumentação, e as inúmeras referências que faz, com extrema propriedade, a escritores, filósofos, sociólogos, quase todos europeus e contemporâneos”.

Diante dos fatos, devo dizer que Lima Barreto estava equivocado. As mulheres brasileiras não diferente das francesas, foram de grande importância para a produção intelectual, e sim; há legitimidade nos brindes oferecidos nas sobremesas às mulheres brasileiras.

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