Os Bruzundangas, de Lima Barreto

Lima Barreto

Estou de volta com mais uma dica de leitura. Sem dúvida o melhor livro que já li. Todas as vezes que termino um livro faço essa mesma afirmação, segundo uma amiga.A gente sempre se surpreende lendo, e com Lima Barreto não poderia ser diferente.
Uma palavra para definir esse livro: genial!

Encontrei pouco material sobre essa obra em fontes de pesquisa.
Então, aí vai a minha contribuição.

Importante o leitor ficar atendo a todas as características que compõe a sociedade e o corpo político da Bruzundanga; qualquer semelhança com o Brasil, não é mera coincidência.

Lima Barreto faz claras referências às características do Brasil quando descreve Bruzundanga que possui uma sociedade marcada pela tradição e as relações sociais são, antes de tudo relações de poder, e o poder é concedido pela corte através de títulos de nobreza aos que compõe os ministérios. O cenário político é corrompido desde a sua formação e o status vale mais que qualquer moeda. A exemplo, o autor menciona que os filhos dos ministros iam estudar medicina na europa, mas “quando vão estudar medicina, não é a medicina que pretendem exercer. Não é curar, não é ser um grande médico, é ser doutor“. (p.17).

Os samoiedas

O narrador inicia por apresentar a corrente literária de Bruzundanga, denominada por Escola Samoieda.
Os Samoiedas, assim como o exemplo dos médicos, não estão preocupados com a arte literária, e sim com os títulos que as letras dão. E sustentavam que a escola nasceu do poema de um príncipe samoieda que se chamava Tuque- Tuque Fit-Fit, descrito por sua beleza sem par, o príncipe na verdade pertencia a um mito e poucos ousavam contestar a lenda.
Sobre os bruzundanguenses;”não há como discutir com eles, porque todos se guiam por idéias feitas, receitas de julgamentos, e nunca se aventuram a examinar por si qualquer questão, preferindo resolvê-las por generalizações quase sempre recebidas de segunda ou terceira mão, diluídas e desfiguradas pelas sucessivas passagens de uma cabeça para outra cabeça“. (p.19). Os Samoiedas de todos os postiços literário usava, e de todas as mesquinharias da profissão abusava.
Sobre a arte como ciência, proposta por eles, era na verdade enfadonha, falsa, sem talento e forçosamente requintada. “Era este de fato um samoieda típico no intelectual, no moral, no físico. Tinha fama”.

O grande financeiro

A República dos Estados Unidos da Bruzundanga era, assim como outras Repúblicas, composta por um presidente, juízes, senado e uma câmara dos deputados – ambos eleitos por sufrágio direto e temporário. As característica econômicas da Bruzundanga era de um país que “de cinquenta em cinquenta anos descobria-se nele um produto que ficava sendo a sua riqueza“. Os governos taxavam-no até não mais poder, de modo que os países rivais, mais parcimoniosos na decretação de impostos sobre os mesmos produtos, acabavam na concorrência, por derrotar a Bruzundanga”. Daí vinha que a grande nação vivia aos solavancos, sem estabilidade financeira e econômica; e por isso mesmo, dando campo a que surgissem financeiros de todos os cantos e sobretudo no parlamento. Um certo deputado, de oratória muito boa, havia proposto um engenho financeiro para cobrar impostos diretos e indiretos, e como o caixa da Bruzundanga vivia limitado, a proposta foi bem aceita no parlamento.
Conhecido pelo título de doutor (mesmo sem saber ao certo se este era médico, advogado ou dentista), o doutor Karpatoso citava em seus discursos com sólida erudição influências do estrangeiro. A exemplo, o russo polaco Poniatwsky, o australiano Gordo O’Neill, o chinês Ma-Fi-Fu, o americano Willian Fartching e o doutor Caracoles y Mientras da universidade de Caracas. Quanto mais conhecido se tornava Kapartoso, mais movimentada se tornava sua casa.
Para custear os comes e bebes das festas e jantares oferecidos em seu salão, o doutor colocou alguém de sua confiança para vender ervas no centro da cidade. Logo, tournou-se o maior forncedor dos feiticeiros da cidade. O jornal Diário Mercantil publicava notícias sobre os trajes e a elegância do deputado.

Será uma crítica a figura do Marques de Pombal, ministro das relações exteriores do Brasil?
Ao que tudo indica, sim.

A nobreza da Bruzundanga

O governo da Bruzundanga manda imprimir livros destinados a fazer propaganda do país no estrangeiro, e muita gente ganha fortuna e notoriedade com isso. Entretanto tais livros não podem ser encontrados facilmente, mesmo sendo distribuídos pelo governo, mas são inescrupulosamente mofinas e escandalosamente mentirosos a ponto de não despertar qualquer interesse para os sebos revenderem, pois não haveria quem os comprasse.
A nobreza da Bruzundanga é constituída pelos doutores da medicida, do direito e das engenharias. “Lá o cidadão que se arma de um título em uma das escolas citadas obtém privilégios especiais, algumns constantes das leis e outros consignados nos costumes. O povo mesmo aceita esse estado das coisas e tem respeito religioso pela nobreza de doutores”. A formatura é dispendiosa e demoradas, o que limita o acesso aos pouco afortunados. O título de doutor tem o efeito do dom, na Bruzundanga.
Im coronel formado deve ser de doutor coronel, pois este possui um duplo título de nobreza que deve se antepor ao nome.
No que tange as leis, o doutor tem prisão especial, em qualquer tipo de crime e “tendo crescido o número de doutores, eles, os seu pais, sogros e etc. trataram de reservar o maior número de lugares no Estado para eles”. A pesar do prestígio, a verdade é que os cursos que formavam estes jovens eram medíocres. Entretant, “há nessa nobreza doutoral uma hierarquia como em todas as aristocracias”.

A outra nobreza da Bruzundanga

Aqueles que de alguma forma tiveram alguma sorte afortunando-se, e que porém não possuíam títulos de doutores, viajavam para a europa e voltavam príncipes. Uma anedota para ilustrar: Certo dia, um homem que se chamava algo parecido com Ferreira, ao retornar da europa foi visitar as terras da sua família, que há muito estavam abandonadas. Um empregado antigo da família ao aproximar-se do homem e trataá-lo como nos tempos em que este era um menino e ser reprimido pelo prícipe responde “_ Qual o quê nhonhô, Vancê não pode ser príncipe. Você não é filho de imperadô”. Outros títulos seguem o mesmo exemplo: condes, duques e marqueses. Esses títulos apareceram desde que a Bruzundanga se tornou República, mas para a massa esses títulos não fazem efeito como os títulos dos doutores. Mas na elite, na nata, nesta sim faz diferença.
“Os costumes daquele longínquo país são assim interessantes e dignos de acurado estudo. Eles têm uma curiosa mistura de ingenuidade infantil e idiotice cenil”. (p.48).

A política e os políticos da Bruzundanga

A Bruzundanga possui uma rica diversidade natural, e porém sua economia é falsa e artificial nas suas bases, pois vive de expedientes. As regiões ficam resumidas à miséria após perder o selo de polo econômico para outra rgião. Os políticos acrfeditam que são de carne e sangue diferente do resto da população, fazendo um valo de separação e distinção cada vez mais profundo. Na Bruzundanga “não há cidadão ateu ou materialista, que ao se casar com uma moça rica não se torne católico apostólico romano”, e isso reflete o papel da igreja nas relações sociais daqueles que aspiram poder. Os bispos, padres e irmãs ajudam quem deseja a conquistar desejos, veleidade e pretenções com suas influências. As irmãs por exemplo, ajudam um moço com pretenções de um bom casamento a se aproximar das filhas de homens ricos que estão sob seus cuidados. Dizem que estas freiras foram as principais inimigas da abolição, e tendo as filhas dos deputados e senadores aos seus cuidados, exerceram grande influência na política escravocrata. Os políticos não tratam dos problemas da população, mas tratam de garantir a perpetuação do poder e riqueza dos seus descendentes. “Não há lá homem influente que não tenha pelo menos trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá políticos influentes que não se julguem com o direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos primos gordas pensões pagas pelo Tesouro da Republica”.
Os chefões políticos oprimem a população rural, deixam os latifúndios abandonados e a população na pobreza.

As riquezas da Bruzundanga

Os poetas e os músicos da Bruzundaganga costumam exaltar a riqueza proporcionada pela diversidade natural do país, porém essa riqueza é extraída para atender as demandas externas, e quando finda um determinado comércio, finda também a extração das matérias primas em determinadas regiões, que ficam a esmo. Sua população lançadas às mais terríveis sorte da miséria.
O café representa uma ambiguidade; é tido por ser a maior fonte de riqueza da Bruzundanga, mas é também a sua maior fonte de pobreza. “O café é o maior mordedor da Bruzundanga”. A cultura do café é a base da oligarquia política que domina a nação. O preço é fixado por ela mesmo, pois muitas vezes esta mesma oligarquia compõe os representantes do Estado.Não somente o café é fonte de riqueza, como o latéx também. Extraída em grande quantidade, porém em terras úmidas e excassas. As´populações que habitam áreas de extração de latéx nos seringais tendem a contrair doenças endemicas. Isso encarece a borracha, e as altas taxas tornou possível construir grandes palácios fossem, que simbolizam a fortuna de poucos. Porém os ingleses plantaram as seringueiras e pacientemente esperaram para extrair o latéx. Com taxas menores e seu plantio em regiões menos escassas, tornaram-se os grandes exportadores, acabando com o expediente na Bruzundanga. E novamente a riqueza virou pobreza.

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