Joaquim Nabuco e José de Alencar – Duas figuras, um só período.

Registro minhas críticas sobre José de Alencar e em partes sobre Nabuco.

Nabuco, que representa uma das figuras mais importantes do movimento abolicionista, era também um monarquista e cosmopolita, se é que os termos me permitem acrescentar; era um homem fruto da aristocracia que, bom de oratória tendo estudado na Europoa soube defender a abolição, não só em O Abolicionista, como também o fazia no cenário político com fervorosos discursos. Entretanto se recusava falar diretamente para os escravos. Defendia, a meu ver, uma organização social tendo como referência e inspiração, outro continente. Faz muito sentido sua defesa abolicionista, se levarmos em consideração a sua posição política pró-monárquica. Mais tarde, quem assinou a Lei do Ventre Livre, se não a família imperial?!?! Alencar sendo contra essa mesma lei, foi “banido” do cenário político por Dom Pedro II, em sua candiatura ao senado.

Minha crítica à Nabuco é simples; no Brasil sempre usaram o externo com referência para uma realidade complexa e completamente singular como a nossa. O resultado, é esse vivido cotidianamente.

Sobre José de Alencar, sua posição política conservadora não me agrada e honestamente não me agrada também o que o romantismo produziu. Primeiro, observo que a linguagem muito se assemelha à empregada pelos “literatos” dos Samoiedas, descrito por Lima Barreto em Os Bruzundangas. Segundo, por que os expoentes do modernismo na literatura, visavam criar um tipo ideal buscando ícones, imagens e figuras elevando-as como símbolo nacional. Alguns tipos presentes na sociedade são elevados e os estereótipos são associados à identidade nacional, como se o fator comportamental fosse algo biológico e não consequência de uma estrutura numa conjuntura específica.

José de Alencar descrito como reacionário, fisicamente mirrado, deputado pelo partido conservador, assumia posição aberta contra a Lei do Ventre Livre. Enquanto Nabuco, defensor da abolição, era um homem galã, de boa oratória que se atraia pela vida mundana.

Ambos estão vivendo o mesmo período (1875), num Brasil repleto de ambiguidades no cenário político e econômico, o que desencadearia uma série de problemas no campo social.

O conflito teve início com o lançamento da peça de José de Alencar O Jesuíta, onde Nabuco registrou no Jornal O Globo uma fervorosa crítica ao autor da peça por ter atribuído a Independência do Brasil à Compainha de Jesus (é possível imaginar o que isso causa em um monarquista).

Ambos escreviam no mesmo jornal, que era acompanhado por um número grande de leitores.
Nabuco publicava aos domingos e Alencar às quintas, e a discussão que teve início no campo literário, logo se estendeu para o campo político.

No que tange a crítica literária, Nabuco analisa a obra O demônio Familiar , de Alencar e comenta:
Essa linguagem de telegrama não é falada entre nós; mas se o fosse,
ainda não teria o direito de passar da boca dos clowns, pintados de
preto, dos nossos circos para a dos atores. […] Já é bastante ouvir nas
ruas a linguagem confusa, incorreta dos escravos; há certas máculas
sociais que não se devem trazer ao teatro, como o nosso principal
elemento cômico, para fazer rir. O homem do século XIX não pode
deixar de sentir um profundo pesar, vendo que o teatro de um grande
país, cuja civilização é proclamada pelo próprio dramaturgo escravagista
[…] acha-se limitado por uma linha negra, e nacionalizado pela escravidão.
Se isso ofende o estrangeiro, como não humilha o brasileiro! (Coutinho, p. 106)

Sobre a obra A Mãe, que narra a situação da mãe escrava herdada pelo próprio filho, Nabuco demonstra seu caráter abolicionista, e comenta “A arte nada tem que ver nesse mercado de carne humana, que o autor pôs em cena” e “Tudo o que há de triste, de raro, de extraordinário, de inverossímil nesse fato, devia impedir o Sr. J. de Alencar de explorá-lo e de carregar ainda de cores tão sombrias a escravidão, já de si tão triste” (Coutinho, p. 110-11).

José de Alencar publica sua reposta: “É o assunto dos dramas o que define uma literatura e a caracteriza, ou é, ao contrário, a escola desse drama, o que lhe imprime o cunho? Assim o característico do teatro de Sófocles, segundo o Sr. Nabuco, será o incesto” (Coutinho,p. 59).”

Sobre à crítica da peça A Mãe, Alencar defende que uma obra deve possuir características semelhantes às da sociedade que ela pertence, levando em consideração o fator temporal, geográfico e humano. Devo concordar com Alencar, mesmo ciente da sua posição política, e e não apreciando sua literatura, acredito que nesse caso o problema não seja a obra, e sim a realidade do país.

Roberto Schwarz, em O Vencedor às Batatas, comenta sobre a posição de Nabuco, que a meu ver faz muito sentido ““Nabuco põe o dedo em fraquezas reais, mas para escondê-las; Alencar pelo contrário incide tenazmente, guiado pelo senso da realidade, que o leva a sentir, precisamente aí, o assunto novo e o elemento brasileiro”.

José de Alencar terminou a polêmica em sua carta resposta intitulada “Sem Resposta”.
Afrânio Coutinho resgata um verso da literatura de cordel avante la lettre, que ilustra a comoção que o embate causou naqueles que acompanhavam o folhetim.

“Um cita Renan, Littré
E a quantos a estanja tem;
O outro, sem dar apreço
Aos mestres de onde provém
Fala só de suas obras
E nunca cita ninguém.

‘Quincas, o belo’, n’ altura
De sua inglória missão com tanto afinco procura
Esmagar de presunção
Do hernáculo contendor
Que adoeceu do pulmão

‘Zeca, o terrível’, no entanto,
A ladear na contenda,
Sobranceiro e arrogante
Desdenha da corrigenda,
E se o negócio é mais sério
Passa por cima da emenda…

Semelhantes em princípios
e ambos iguais nos fins,
O que será que pretendem
Demonstrar nos folhetins
Os campeões denodados
Dos literários festins?”

No livro Duelos no Serpentário – uma antologia da polêmica intelectual no Brasil 1850 -1950 é possível ler na íntegra as publicações de Nabuco e Alencar no jornal O Globo, de 1875.

Capítulo 3 – Plêmica de José de Alencar com Joaquim Nabuco. Autores: Alexei Bueno e George Emarkoff

Também possível encontrar em Afrânio Coutinho o poema acima na íntegra e um estudo sobre a Polêmica Alencar e Nabuco em O teatro Brasileiro. A propósito do Jesuíta.

No artigo de Eduardo Vieira Martins (Universidade de São Paulo) é possível compreender a discussão dos autores pelo viés político e artístico.

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