Considerações e observações após ler O Sentido da Colonização – Caio Prado Junior

OS SENTIDOS DA COLONIZAÇÃO, IN FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÊNEO
CAIO PRADO JUNIOR.

As bases do Brasil contemporâneo está erigida sobre o seu passado colonial.
Para compreender o Brasil de hoje, é necessário buscar compreender os aspectos coloniais que desencadearam uma série de ambiguidades nas relações sociais e econômicas que se formaram no país, percorrendo desde a colônia até nossos dias atuais. Tais ambiguidades são reflexos de uma tradição colonial europeia específica de Portugal, e alguns fenômenos específicos, fomentaram uma série de acontecimentos que nortearam nossa história. Para compreender tais fenômenos e tais ambiguidades, faz-se necessário antes de tudo, recorrermos não só aos termos pragmáticos da história, faz-se necessário partir do telescópio para o microscópio, utilizando a expressão de Peter Burke, ou seja, ir além das estruturas e analisar as relações sociais da colônia.

Emergiu no Brasil uma forma de vida humana que diverge do seu passado habitado por índios, mas que também pouco se assemelha com aquela forma de vida vivida pelos seus colonizadores em sua terra natal. No Brasil, constituiu-se uma forma peculiar de relação social, forma esta, oriunda de uma série de fenômenos, sendo eles sociais políticos e econômicos. Tendo em vista as transformações que o mundo lá fora experimentava os impactos no Brasil ocorram de forma direta e indireta. A princípio não houve uma preocupação com a projeção de um estado nacional, tampouco com a identidade nacional. Ocorre que, conforme mencionado, os fenômenos sempre dialogaram com a realidade interna, e alguns deles fizeram com que camadas específicas se preocupassem com a formação de um Brasil que pudesse corresponder as necessidades daqueles que estavam formando uma nova esfera social. Um novo organismo social emergira então no Brasil, um organismo repleto de vicissitudes e ambiguidades, repleto de ambições e preocupações com o particular. Na formação do Estado o público se confunde com o privado e o priivado com o publico. No âmbito burocrático, a moral religiosa se confunde com a lei e a lei com a moral religiosa.

Caio Prado Junior afirma que todo povo tem na sua evolução, vista à distância, um certo “sentido”. Este se percebe não nos pormenores de sua história, mas no conjunto dos fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num largo período de acontecimento. (Junior, Caio Prado – o Sentido da Colonização).
Existe na história, uma linha ininterrupta de acontecimentos que se sucedem em ordem rigorosa e dirigida, sempre numa determinada orientação (Junior, Caio Prado), entretanto, o sentido adquirido por um povo varia conforme as suas experiências com os fenômenos específicos. A história do Brasil possui algumas características consoantes à história de Portugal, que traz em sua história uma tradição ibérica bastante singular. Portugal lutava contra a invasão árabe, torna-se um país marítimo se caracterizando posteriormente como uma grande potencia colonial. O sentido da colonização é um fenômeno que deve ser analisado, nos distanciando do sentido que aparece quase por osmose quando falamos em descobrimento e colonização, como se tais fatos fossem naturais. O sentido proposto por Caio Prado Junior vai além destas definições práticas que estudam a história simplesmente pela sucessão e acontecimentos datados em períodos específicos. O autor propõe que recorramos a este período específico como ponto de partida para compreendermos o Brasil em su formação social, política e econômica da atualidade.

Os países melhores situados geograficamente (próximos à costa) são os primeiros a iniciar uma nova etapa do desenvolvimento social e econômico no mundo. A Europa estava deixando de viver recolhida sobre sí mesma para lançar-se para o ultramar. Portugal iniciou essa jornada, seguida pelos holandeses, ingleses, normando e bretões, porém o primeiro foi mais longe procurando empresas e traficando com os mouros na África. A busca por especiarias fez com que a Espanha também contornasse o mar. Estes acontecimentos denominados por “descobrimentos”, para Caio Prado Junior são essencialmente capítulos da história comercial da Europa. A ideia de povoar não estava presente nos interesses destes países, o objetivo sendo estritamente econômico, visada explorar os benefícios comerciais que as novas terras ofereciam. A ocupação surgiu somente com contingências específicas. Caio Prado Junior ressalta ainda que para uma Europa fria e distante, embora houvesse grande repulsa por um clima tropical contrário a sua raça, havia também interesse em estar próximo a terras que propusessem acesso a produtos considerados de luxo e para tal, era necessários somente a disposição, iniciativa e esforço do homem. Havia então, demasiado estímulo para o povoamento, e não somente a repulsa como enfatiza a literatura. Para cada proprietário vindo para a o Brasil, haveria também a sua disposição mão de obra, estando este isento do trabalho, se tornaria empresário de um negócio rendoso. Os primeiros trabalhadores eram também colonos, que evidentemente não saíram da sua terra natal para viver sob estas condições. Nesta condição de dependência viveu durante alguns anos o colono europeu na América, até que a mão-de-obra escrava fosse implantada nas Américas. Alguns colonos foram trazidos como deportados; também vendidos como escravos, menores de idade abandonados ou vendidos pelos pais ou tutores eram levados até servirem a maioridade.
Após a adoção do trabalho escravo do negro africano, o colono ficará com a única responsabilidade de dirigente e proprietário rural. Portugal possuía parcos recursos humanos e isso agravava a situação de não haver interesse dos homens de virem trabalhar na colônia. Em Portugal, por volta de 1550, 10% da população era composta por negros escravos. Sua população era insuficiente inclusive para povoar o seu próprio território.
Diferente de outros países colonizados pelo povoamente, os do Trópico teriam características de colonização inteiramente original, não sendo apenas a simples feitoria, mas o seu caráter mercantil que comporia toda a estrutura dessas colônias; o trabalho de indígenas ou negros importados, as empresas rentáveis do colono branco. Esse caráter peculiar ditará o nosso destino.
“É este o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma dos resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos”. (pg.31).
O caráter da colonização no Brasil, sendo essencialmente mercantil, vivia de expedientes voltados para interesses externos. O sentido da nossa colonização é portanto o fornecimento do açúcar, do tabaco e alguns outros gêneros, e mais tarde ouro e diamante.

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