Instauração do caos e da desordem

Após as manifestações, muitas coisas chamaram a atenção no pronunciamento da presidente Dilma, como as propostas para saúde, educação e transporte, e a proposta de reunir-se com os governadores estaduais e representantes da principais cidades com o objetivo de tratar questões pontuais que estão sendo cobradas nas ruas.

Todos estão tentando compreender o que aconteceu com a política brasileira, quando um certo dia as cidades amanheceram tomadas pelo povo nas ruas, sitiadas por helicópteros e todas as bases policiais se dirigem para os grandes centros urbanos. Por parte do governos, houveram diferentes estratégias. A primeira, fechar o cerco com a tropa de choque, e foi quando o tiro saiu pela culatra e a mobilização só fez aumentar. A segunda estratégia foi soltar a corda, quem sabe o povo se enforcaria sozinho? Mas grupos extremistas ganharam espaço, e uma pequena guerra civil pôde ser instaurada. Agora me parece que a terceira estratégia é usar o meio termo, soltar a corda e usar o clima de festa para atrair parcela da população, e apertar o cerco para os mais barulhentos, e quem sabe até mais politizados.

O aumento da tarifa dos transporte foi o estopim de tudo isso, e o MPL que há muito saia às ruas ganha novos adeptos e o apoio popular. Porém, ano passado vi a ação do MPL e o que se ouvia de pessoas comuns era que “eles atrapalhavam o trânsito” e quem faz passeata às cinco da tarde atrapalha aqueles que trabalham, em outras palavras, o MPL era marginalizado e a tropa de choque era a única comunicação que o governo dispunha para dialogar com o movimento.

Não devemos esquecer que esse olhar é de quem está em São Paulo, terra do feriado do Nove de Julho, das manifestações anti nordestinos, e que apoia polícia militar bater e prender estudantes na USP. O que acontece que do dia para a noite todos estejam juntos num mesmo ideal? Essa é a pergunta que todos estão tentando responder. O que está ficando evidente é que não há um mesmo ideal. Cada qual sai de casa com suas pautas e o que há em comum é o desejo de tornar as coisas melhores. Mas o que é melhor para um, nem sempre é o melhor para outros.

As pautas educação, saúde e transporte sem dúvidas são gerais e atingem todas as camadas da população, mas quando o tema é corrupção há uma subjetividade. E a corrupção incomoda a todos, pois as melhorias na educação, saúde e transporte se dariam com o fim desta subjetiva corrupção. A subjetividade é assim definida, por não ser algo palpável. Ninguém parou para medir criteriosamente o que estamos entendendo por corrupção e nem por melhorias na saúde, educação e transporte. Esqueceram que alguém tem que pagar a conta, e me parece que com a tarifa zero e redução dos impostos e boicotando os eventos previstos para os próximos anos,numa matemática simples, a economia seria profundamente afetada. Nessa confusão, os partidos saem todos prejudicados, desde os mais emblemáticos aos nanicos. Está respingando para todos os lados.

E embora o pronunciamento da presidenta tenha levado em consideração todas as pautas, havia uma centralidade em seu discurso: a democracia. Defender e apoiar as manifestações afirmando o caráter democrático destas me pareceu uma boa estratégia de quem percebeu que existe um buraco que não pode ser preenchido por forças antidemocráticas. Elas existem, e são muitas.

O que presenciamos agora é uma erupção vulcânica: enquanto a camada da superfície se ocupava em determinar o caráter nacional (malandro, cordial e despolitizado), por baixo do solo haviam magmas rochosas que foram sujeitas a pressões e temperaturas muito elevadas, levando à sua fusão. Esses magmas são nossas questões sociais, tratadas até então como pequenos problemas com políticas publicas “para inglês” ver. Mas associar tal momento a uma erupção vulcânica tem também um caráter esperançoso: as lavas arrefecidas geralmente deixam o solo bom para plantações.

Embora exista o tal “mani fest” de alguma maneira a população está compreendendo a força que possui, mas infelizmente compreenderam isso da pior forma possível, colocando em questão o caráter democrático das instâncias representativas. Nossa democracia ainda jovem, nunca foi de fato um modelo perfeito (e nenhum lugar o é), mas sempre houve falta de participação e compreensão popular sobre os três poderes, e com uma estrutura normativa que se instaurou com a Constituição de 1988, o presidencialismo, o princípio de proporcionalidade, o federalismo e o multipartidarismo emergiu um sistema muito peculiar no Brasil, o presidencialismo de coalizão. Nos Estados, o ultrapresidencialismo estadual. Ou seja, criou-se uma estrutura normativa per sí, onde suas fragilidades e defeitos são traços constitutivos da prática democrática.

Isso é muito bem explicado pelos analistas, e para compreender deve-se vasculhar a literatura que tem buscado compreender tal processo. Entretanto, para os míseros mortais como nós, o que fica evidente são apenas os resultados desse processo: membros parlamentares agindo como principais cooptores do executivo estadual, um executivo federal com alianças aparentemente inexplicáveis. Isso tudo, soa ao eleitor também como uma forma de corrupção, e não como forma de fazer política dentro de um sistema que prevê tal comportamento, aliás, que só funciona por esses meios.

Esse processo institucional foi empregado no Brasil, tendo em vista o que o mundo entendia por reforma política, e quem sabe seja este o momento de repensarmos essas instâncias representativas tendo em vista o que o Brasil de fato precisa para fortalecer o seu processo democrático e não fragilizá-lo. Oxigenar o sistema político foi uma das propostas da presidente Dilma, porém ela não mencionou como tornar isso possível.

Estou ansiosa para saber quando e onde será a reunião com governadores e prefeitos e gostaria de ser um inseto para estar lá. É um momento de tensão, acima de tudo um momento histórico para a política brasileira.

O MPL contribuiu para chamar a atenção da população de alguma forma, e me parece que nem eles estavam preparados para isso, e precisam agora repensar como tratar a situação pois já entenderam o tamanho da sua responsabilidade. Mas para compreender os fatos, somente nos distanciando no tempo, e ter em vista o passado e o futuro. Embora possamos recorrer a Caio Prado Júnior e buscar o sentido da colonização, prefiro não ir muito longe e me apegar aos resquícios do governo passado que prometeu uma ascensão social a algumas camadas, a inclusão dos excluídos, e de certa forma inquietou os mais abastados. Soma-se a isso o fator Copa do Mundo, Copa das Confederações e Olimpíadas que requer uma projeção no espaço físico, investimentos e logo impacta na economia.

Esse foi o presente que o ex presidente deixou para sua sucessora, e pode ser entendido como um presente de grego ou uma bola na cara do gol. Resta saber, como o presente vai ser desembrulhado por Dilma Roussef.

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