O Governo Goulart e o Golpe de 1964 – Caio Navarro de Toledo

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Um governo no entreato golpista

 “ O Governo João Goulart nasceu, conviveu e morreu sob o signo do golpe de Estado”.

 Antes mesmo de completar sete meses na Presidência, Janio Quadros escreveu uma carta-renuncia. Tratava-se de uma estratégia, ou um ensaio para um golpe, que contava com o imediato impedimento por parte dos ministros militares à posse Goulart, e por outro lado o clamor da população para o recebê-lo novamente em seus braços. Ocorre que não houve um clamor popular para o seu retorno, como também os ministros militares não impediram a posse de João Goulart.

Embora tenha assumido a Presidência nessas circunstância, Goulart não teve uma posse tranquila, sendo alvo de pressões de alguns setores conservadores que desejavam impedir a sucessão presidencial, ameaçada por um arbitrário veto militar respaldado pela UDN. “As manifestações populares, associadas com as dos políticos democráticos e militares nacionalistas, conseguiram impedir o golpe militar que se configurava em agosto de 1961”.

 O governo de João Goulart teve dois anos e meio de vigência (setembro de 1961 a março de 1964), tendo nesse período, emergido um novo contexto político-social no país, diante de uma intensa crise-econômico-financeira, frequentes crises político-institucionais, extensa mobilização política das classes populares, ampliação e fortalecimento do movimento operário e dos trabalhadores do campo, crise no sistema partidário e acirramento da luta ideológica de classes. (p.64).

 Esse período apresenta elementos importantes para análises sobre qualquer marco entre passado e presente. Com uma sociedade polarizada ideológica e politicamente, com “dimensões inéditas e características singulares”.

 

A direita, ao referir-se aos tempos de Goulart, geralmente busca classificá-lo como sinônimo de desordem civil, para justificar a implantação do regime autoritário. A esquerda, por sua vez, embora reconheça avanços políticos e sociais, tende a investigar as razões dos limites e das impossibilidades da democracia burguesa com características populares.

 2 – O “golpe branco” ou a solução de compromisso

 O veto militar

 No momento da renúncia de Janio Quadros, o vice-presidente João Goulart estava ausente do país. O Congresso Nacional reunido em 25 de agosto de 1961 concedeu a posse da Presidência da República a Ranieri Mazzili (presidente da Câmara dos deputados), sendo a posse em caráter provisório. A mídia conservadora das classes dominantes, expressava a opinião política que conclamava às Força Militares a assumirem o um papel decisivo no cenário político. Os ministros militares, por sua vez, buscaram impedir a posse de Goulart e estavam decididos a detê-lo quando pisasse em território nacional. Ocorre que o Congresso, com uma expressa maioria, se manifestaram contra a exigência arbitrária dessa ala militar.

 

Os motivos dos militares se oporem à posse de Jango, ficaram evidentes no dia 30, através de um manifesto dirigido a nação. Em resumo, os motivos estavam associados ao passado de Jango, um passado que trazia evidências sobre o seu modo subversivo de governar, sendo considerado um “implacável inimigo da ordem capitalista”.

Goulart: por um capitalismo “humano e patriótico”

João Goulart, manteve no início de sua trajetória política, vínculos com o seu ex-vizinho de estância em São Borja, Getúlio Vargas. A aproximação pessoal e política entre os dois, causava desconfiança dos setores anti-getulistas. Embora tenha sido deputado pelo Rio Grande do Sul (eito em 1950) foi nas tarefas que assumiu no Diretório Estadual do PTB, com orientação política dedicada ao movimento sindical, que Jango se destacou, sendo nomeado para o cargo de ministro do Trabalho no governo de Getúlio Vargas.

As classes dominantes, aterrorizadas com a presença de João Goulart no ministério, acusava-o de não ser Ministro do Trabalho, mas dos Trabalhadores. Seria também responsável por insuflar greves e pregar a luta de classes.

 Em resposta, Jango se considerava um democrático-burguês (herdeiro de uma grande fortuna e grande proprietário de terras), se colocava contra o que hoje chamamos de “capitalismo selvagem”, e defendia um capitalismo mais humanizado.

 Reproduzo parte da fala de Jango, quando ainda Ministro do Trabalho “ (…) estou pronto a estimular e a aplaudir os capitalistas que fazem de sua força econômica um meio legítimo de produzir riquezas, dando sempre às suas iniciativas um sentido social, humano e patriótico”.

 Após defender o aumento de 100% do salário mínimo para os trabalhadores, os militares redigiram o Memorial dos Coronéis (assinado por 81 oficiais), onde registravam explícitas preocupações com “o perigo do comunismo”. Mesmo sem citar diretamente Jango, a demissão de Jango ocorreu após a divulgação do documento pela imprensa.

 Alguns destes militares que assinaram o Memorial, seriam os responsáveis por varrer Jango da vida política, dez anos depois.

 Como vice- presidente da República, no governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, Jango continuava sendo alvo de acusações da direita e setores liberais-conservadores, que consideravam subversiva sua aproximação com as reivindicações sindicais e populares.

 A Luta pela Legalidade e a “solução de compromisso”

 Enquanto a direita e os liberais-conservadores se oporam à posse de Jango, a liberal-democracia, o nacionalismo reformista e a esquerda revolucionária afinavam sua posição favorável a legalidade de Jango, representados por parlamentares federais e estaduais, sindicatos, estudantes, trabalhadores, entidades de empresários, e até alguns setores militares.

 Impedido o golpe militar, foi então planejado pelos dois grandes partidos conservadores (UDN e PSD) a “Solução de Compromisso”, um golpe político que impôs de forma arbitrária o regime parlamentar ( a carta de 1946 proibia toda e qualquer reforma institucional).

 João Goulart concordou em assumir com a emenda constitucional, organizando uma solene efeméride nacional para ser empossado. “No dia 07 de setembro de 1961, João Belchior Marques Goulart recebia a faixa presidencial, sob o manto do regime parlamentar”. (p.21).

 A emenda parlamentarista transformava o Presidente da República em Chefe de Estado: O poder Executivo passava a ser exercido pelo presidente da República e por um Conselho de Ministros (Gabinete Parlamentar), a quem caberia a direção e a responsabilidade da política do governo, assim como a administração federal. AI presidente, competiria nomear o presidente do Conselho de Ministros (primeiro-ministro) ou chefe do governo, e por indicação deste, os demais membros ministros de Estado. (p.21).

 Com estas limitações, Goulart assumiu a presidência, mas pretendia “abreviar a vida do novo regime” para “governar, e não apenas reinar”.

 A Crise Político- Institucional na versão parlamentarista

 O regime parlamentarista teve vida curta, durou de setembro de 1961 a janeiro de 1963, entretanto teve três Conselhos de Ministros, além de no mesmo período o governo enfrentar crises econômico-financeiras e político-institucionais.

 No governo anterior houve o agravamento da dívida externa, com o acentuado descompasso entre o crescimento do setor industrial e o da agricultura. Além desses problemas, o governo teria que enfrentar as graves consequências da reforma cambial precipitadamente realizada por Quadros.

 

Um gabinete de “união nacional”

 

Em 08 de setembro de 1961 o primeiro Conselho de Ministros, aprovado pelo Congresso.

O Conselho era presidido por Tancredo Neves (PSD). Tancredo e Goulart denominaram o gabinete de “união nacional”. Esse primeiro gabinete, entretanto, representava uma nítida derrota do movimento popular, que alguns dias antes havia empolgado o país. Seria um gabinete de conciliação para evitar que fossem colhidos os frutos da vitória popular. Uma conciliação de imperialistas e golpistas.

Na divisão das pastas, coube ao partido do presidente da República (PTB), coube apenas o Ministério das Relações Exteriores, os demais foram compostos pelas forças conservadoras. O Ministério da Fazenda ficou sob a responsabilidade de Walter Moreira Salles, banqueiro e ideologicamente identificado com os manuais ortodoxo-conservadores em matéria de política econômico-financeira. Essa composição visava conquistar apoio do FMI e das autoridades financeiras norte-americanas. (p.25).

 

Com a ascensão do governo socialista em Cuba, o Brasil teve que fazer promessas democráticas à OEA, entretanto não se posicionando favorável às sanções militares ou econômicas contra Cuba.

 

A campanha das Reformas.

Goulart X Gabinete

 

Nesse período, a Reforma Agrária tornara pauta importante do Governo, com o apoio de diversas bases que reconheciam a urgência das reformas estruturais. Entretanto o apelo social de Jango incomodava a ala conservadora. O gabinete de Tancredo vinha encaminhando o debate de forma conciliadora e moderada. Embora o ministro da agricultura tivesse criado importantes assessorias técnicas para a Reforma (SUPRA e o Conselho Nacional de Reforma Agrária), nunca encaminhou nenhum projeto de Reforma Agrária ao Congresso.

 

O discurso de Jango em Volta Redonda com a pressão ao Congresso para alterar o artigo S16 do Art. 41 pode ser considerado um marco importante do Governo Jango por ter provocado instabilidade política com os setores conservadores, que consideravam a desapropriação uma reforma agrária radical, mesmo quando o programa previa uma justa indenização.

 

As crises de Gabinete

 

O Gabinete de Tancredo Neves não teve o apoio do presidente da República, e foi desintegrado com o pedido de demissão de seus membros em junho. A formação do segundo gabinete parlamentarista teve embates ideológicos. O governo indicaria Santiago Dantas, mas com ampla rejeição do PSD e UDN, Jango nomeou Auro Soares, buscando apoio do PSD. Com a reprovação de Santiago Dantas e da aprovação do Conselho de Ministros pelo conservador Moura Andrade, o Comando Geral de Greves anunciou aquela que seria uma das maiores paralisações do movimento operário da história, resultando a aprovação da lei que institui o 13 salário. Leonel Brizola, posiciona-se claramente contrário ao parlamentarista, que segundo ele era um regime composto por latifundiários que não representavam os interesses do povo.

 

A Campanha do plebiscito

 

É interessante observar, que a campanha para o fim do sistema de governo parlamentar, representava mais uma campanha “pró Jango” por algumas alas da sociedade que viam na República um ato de confiança ao Presidente que demonstrava comprometimento com pautas sociais, que um embate sistêmico sobre a forma de governo. A campanha teve apoio também daqueles que visavam suceder o Presidente da República nas próximas eleições, porém a ala conservadora se oporia à campanha e a mídia evitava chamar a atenção da população sobre o plebiscito. EM 06 de Janeiro de 1963 cerca de 1 milhões de pessoas compareceram às urnas, “numa proporção de 05 votos a 01, rejeitava-se o regime implantado na crise político-militar de 1961”. (p.39).

 

Um governo no trapézio e Plano Trienal: “combater a inflação com desenvolvimento”

 

EM 23 de janeiro de 1923, Jango assumiria a presidência com plenos poderes que a Carta de 1946 conferia ao presidente da República. Seu governo, definido por um jornalista como “verdadeiro trapézio” tentava equacionar os conflitos de disputas ideológicas, mantendo em sua base de governo alguns nomes conservadores, técnicos apartidários e militares duros.

O plano econômico visava solucionar as constantes crises que o país enfrentava – aceleração inflacionária e desaceleração do crescimento. O Plano Trienal tinha como proposta conter a inflação, negociar a dívida externa, acelerar o crescimento e contribuir para melhor distribuição dos frutos de desenvolvimento econômico: diminuindo as desigualdades regionais.

Alvo de críticas tanto da ala conservadora como a esquerda, o Plano Trienal demonstrou suas fragilidades nos anos que se sucedem.

 

Um plano antipopular e capitulacionista

 

O sucesso do Plano Trienal, para o ministro da Fazenda San Tiago Dutra, dependia da “boa vontade” de todos os envolvidos. Ou seja, a classe trabalhadora deveria não pressionar o governo, adiando greves. Os empresários deveriam moderar provisoriamente o apetite por lucros.

O Plano pedia aos trabalhadores “paciência, patriotismo e colaboração”.

A classe trabalhadora julgava o Plano burguês, pois visava o crescimento enquanto asfixiava a população. Os empresários (particularmente a indústria automobilística de São Paulo) se queixava da falta de crédito, e os aspectos antinacionais também foram alvo de críticas quanto às conversações entre Brasil e EUA para renegociação da dívida externa. O plano, antes de compretar 06 meses, enfrentava duras críticas, sem obter apoio. O balanço no ano de 1963 demonstrava o malogro do plano, não houve desenvolvimento e houve ainda o aumento inflacionário e o governo fragilizou-se ao ser pressionado e tomar decisões que iam contra o Plano: concedeu aumento de 70% aos funcionários civis e militares (e não 40%, como previsto) e também voltou atrás em suas medidas de contenção de créditos.

 

 

 

As reformas: como garantir a propriedade e impedir a “convulsão social”

 

As Reformas de Base (Agrária, Bancária, Administrativa, Fiscal, Eleitoral, Urbana e etc) foram amplamente enunciada pelo presidente na campanha parlamentarista, e os setores da esquerda acusavam o governo pelo “cozimento” das propostas. As Reformas de Base, ao lado do planejamento, era essencial para o desenvolvimento. Entre as Reformas, a Agrária causava profundos debates e entraves políticos, sociais e econômicos.

Era preciso: estimular a produção agrícola (alimentos que suprissem o consumo interno)criar um mercado interno amplo e redistribuição das terras. Segundo Darci Ribeiro, o governo Goulart caiu por suas qualidade e não por seus defeitos. A Reforma Agrária seria antes um equacionamento da propriedade privada e não o fim dela, ou seja, não tinha nenhum fim revolucionário (correspondendo às necessidades da consolidação do capitalismo industrial e à estratégia da dominação social burguesa). “A redistribuição visava defender a propriedade e assegurar a fartura”. Darci Ribeiro. Porém, os mesmos setores que eram contrários à Reforma no parlamentarismo, se oporá radicalmente na República (ala conservadora, igreja, proprietários e etc).

 

Com as constantes crises durante o governo Jango, houve uma baixa produção Legislativa resultando a acusação da direita: incompetência administrativa e crise de governabilidade.

 

Isolamento e debilidade política do governo

O distanciamento dos conservadores no governo sempre existiu, conforme vimos. Entretanto, como Jango passou a adotar discursos com características da direita, a esquerda também se afastou do governo. O cenário no RJ também não era favorável ao presidente. Carlos Lacerda havia se pronunciado, evidenciando riscos no governo e instabilidade política, e acusava Jango de passividade frente aos problemas administrativos do país. João Goulart por sua vez, tentou fechar o Congresso por 30 dias, para que medidas emergenciais pudessem ser tomadas. A esquerda e a direita opuseram-se a concessão do Estado de Sítio, e viam nessa estratégia uma ameaça às liberdades democráticas e aos movimentos progressista.

Com a crescente taxa de inflação e crise econômica, em 1963 foi crescente também as reivindicações populares.

 

A politização da sociedade – esquerda e direta mobilizam-se

Os partidos existentes não eram suficientes para expressar rodas as características ideológicas e demandas que emergiam na sociedade.

 

A crise do sistema partidário: FNP versus ADP

 

Os dois partidos conservadores do país detinham juntos 54% da representação na Câmara (PSD e UDN), o PTB que embora apresentasse significativo crescimento, estava fragmentado em duas frações: a ideológica e a fisiológica. A Frente Parlamentar Nacionalista e Ação Democrática Parlamentar surgiram com o propósito de articular conservadores e progressistas. Nesse período quase que os partidos desapareceram e as lideranças de governo e oposição ter existência nominal.

 

A politização da esquerda

 

Diante do descontentamento popular, os sindicatos organizados passaram a agir como captores das demandas, interagindo e pressionando o governo por meio de greves e ameaças de greves. O CGG se transformou em CGT, atuando de forma horizontal e era frequentemente reconhecido como interlocutor do Presidente da República, sendo chamado de “Quarto Poder” pela oposição. “O CGT foi mais uma organização política das lideranças comunistas e nacionalistas, destinada a ampliar seu poder de pressão na coligação nacional populista, do que um organismo sindical propriamente dito” (p.75).

A maioria das greves políticas tiveram êxito, quando obtinham o apoio dos militares, sendo a participação do operariado praticamente nula. Mas a inflação fazia com que os trabalhadores também estivesse nas ruas.

 

As Ligas Campesinas, que se caracterizavam pela reivindicação da Reforma Agrária Radical, estava constantemente envolvida em embates com os latifundiários. Os sindicatos, por sua vez discursavam sobre o direito do 13 salário, creche, alimentação, saúde e etc. Nota-se que, embora ambos tenham sido fundamentados em questões diferentes (o mais importante para os campesinos é a terra), em dado momento ambos se aliaram para pressionar o governo. Entretanto, com o crescimento do sindicalismo, as Ligas foram perdendo sua importância política.

O Movimento dos Sargentos (muitos deles vinculados a lideranças brizolista) se uniu aos trabalhadores rurais e urbanos, estudantes, parlamentares nacionalistas na luta pelas reformas e na denúncia da espoliação imperialista. A UNE decretou seu apoio às forças antiimperialistas, formando uma aliança-operário-estudantil-camponesa. Na UNE existia várias correntes partidárias, PCB, PC do B, Política Operária (POLOP) e outras menores, mas todas as esquerdas revolucionárias se contraporam ao PCB, condenando sua aproximação com a fração progressista da burguesia para a consolidação da revolução democrática burguesa, etapa que julgavam necessária para o socialismo.

 

A contramobilização da direita

 

Com a fragmentação que se encontrava os partidos da direita e uma instabilidade política, os empresários, militares e alguns setores da Igreja também decidiram se mobilizar. Os empresários criaram o IPES, pois entendiam que a esquerda não poderia dominar o cenário político e por outro lado, não poderiam confiar apenas nos mecanismos tradicionais de representação. Os principais objetivos do IPES eram: impedir a solidariedade da classe operária;conter a sindicalização dos trabalhadores e a mobilização camponesa; apoiar as facções da direita dentro da Igreja Católica; dividir o movimento estudantil; bloquear as forças nacional-reformistas no Congresso e nas Forças Armadas; mobilizar a alta oficialidade militar e as “classes médias para a desestabilização do “regime populista”. A ação ideológica se fez de várias maneiras, como financiamento de importantes jornais da “grande imprensa”, na edição de livros, jornais e revistas, realização de ciclos, conferências e debates, patrocínio de programa de rádio, produção de filmes, slides, cartuns, história em quadrinhos, e etc. (A FIESP fez parte da organização da direita). Os recursos para campanhas do IPES/IBAD vinhamd e financiamento de empresas nacionais e estrangeiras, como Shell, General Motors, IBM, Coca Cola, e etc. Subsídios norte americanos também foram utilizados para campanha.

 

O golpe político-militar

O governo Janco caiu, não porque não podia realizar-se economicamente, mas porque não podia realizar-se institucionalmente” (p.90).

 

O incontrolável aumento do custo de vida tinha como consequência uma drástica redução do poder aquisitivo dos salários, foi responsável pela eclosão de sucessivas greves durante todo o período – enquanto os sindicatos de 300 passaram a 1500, não estando mais presente somente nos centros urbanos, como também no campo. As greves eram constantes (em apenas 15 dias, ocorreram 17 greves na Guanabara).

 

A direita “fecha o cerco”. As esquerdas apoiam Goulart, desconfiado.

 

Para a direita brasileira e a embaixada norte-americana, não cabiam mais dúvidas sobre a “esquerdização” do governo Goulart. Bilac Pinto, chefe do Estado-Maior do Exército acusou a esquerda de estar promovendo uma “guerra revolucionária” , que já estaria em sua terceira fase. Com falta de provas, Bilac afirmava que diante dos fatos, eram desnecessária as provas. Na verdade, oq ue ocorria, era uma “guerra psicológica”.

 

O comício do dia 13, sexta-feira

 

Ainda haviam fortes desconfianças dos setores da esquerda em relação ao governo Goulart.

O comício das Reformas Organizado pela CGT e pela assessoria sindical de Goulart, ocorreu em Guanabara, e posteriormente ocorreria em outros grandes centros urbanos do país, tinha como objetivo, demonstrar apoio popular às propostas de Reformas de Base do governo, e o Executivo também pretendia pressionar o Congresso Nacional para aprovar rapidamente os projetos a ele encaminhados. Diante do mar de cartazes que aterrorizavam a classe média e a direita, Jango findou o discurso que durou cerca de três horas anunciando a promulgação de dois decretos: a nacionalização das refinarias particulares de petróleo e a desapropriação das propriedades de terras (com mais de 100 hectares) que ladeavam as rodovias e ferrovias federais e os açudes públicos federais. Prometeu também enviar ao Congresso outros projetos de reforma (agrária, eleitoral, universitária e constitucional). Anunciou ainda que decretaria nos próximos dias o tabelamento de aluguéis, controle dos preços e etc. Brizola que havia aberto o discurso, atacou o Legislativo, acusado de ser constituído por latifundiários, reacionários e ibadianos.

O dia 13 entrou para a história brasileira, mas não como gostaria a esquerda, com a ascensão de um governo nacionalista, democrático e popular, mas sim como o último ato da chamada democracia populista.

 

A ofensiva Golpista

A Marcha da Família com Deus destacou-se nas mobilizações da direita conservadora, que defendiam a bandeira anticomunista, a defesa da propriedade, da fé religiosa e da moral. Pediam ainda o impeachment do governo federal. Realizada em São Paulo, em 19 de Março, reuniu cerca de 500 mil pessoas. Tais iniciativas apoiadas pela FIESP, UDN e PSD tinham como propósito criar um clima favorável para a intervenção militar.

A Marinha Brasileira estava dividida. A Revolta dos Marinheiros teve grande repercussão e presos políticos que foram anistiados pelo ministro nomeado por Goulart, causando ainda maior revolta nas altas patentes. O Clube Militar e o Clube Naval criticavam a indisciplina “acobertada pela autoridade constituída, destruindo o princípio de hierarquia”. Jango denunciou as pressões que vinha sofrendo da direita, em um discurso transmitido por rádio e televisão. “ O discurso não passou de uma justificativa para a história, de quem já havia decidido não o suicídio físico, mas o suicídio político” (Paulo Schilling).

 

O golpe vitorioso: nem resistência, “nem guerra civil”

Em 31 de Março o gal. Mourão Filho ordenou suas tropas à movimentarem-se em direção ao Rio de Janeiro. Iniciativa aprovada pelos governadores de São Paulo e de Minas Gerais. No Vale do Paraíba, o I e o III Exército (do extremos Sul do país) se moviam em apoio ao governo. Entretanto os setores militares dispostos a defender a “legalidade” foram dissuadidos por Jango, que temia uma guerra civil com derramamento de sangue. Jango deixou o Palácio da Guanabara, embarcou para Brasília e em seguida para Porto Alegre. Brizola tentou convencer Jango sobre a necessidade de uma resistência armada, entretanto não teve sucesso. Jango embarcou para o exílio no Uruguai.

Em 02 de abril, o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzili era empossado como presidente da República. O presidente dos EUA, Lyndon Johnson saudou, através de um telegrama, o novo governo brasileiro.

 

O golpe político-militar: made in Brazil?

 

Mesmo com apoio norte americano no processo desestabilizador do governo Goulart, e com todas as evidências de que se houvesse resistência ao golpe, o governo americano disponibilizaria todo o aparato bélico e militar para os golpistas, a não resistência do presidente categoriza o golpe ocorrido em 01 de abril de 1964 como um “produto brasileiro”.

 

As esquerdas: uma derrota inevitável?

Jacob Gorender lança críticas ao comportamento político da esquerda, comportamento que levaria ao seu inevitável fracasso. As forças do CGT, Ligas Camponesas, Grupo de Onze, movimento dos sargentos demonstraram suas fragilidades diante do golpe. O extremismo estava mais presente no discurso do que na ação política. Desprovidos de forças para resistências, esses grupos foram perseguidos e reprimidos no novo regime.

“Fragmentadas em diferentes correntes ideológicas e isoladas das grandes massas rurais e urbanas, foram as esquerdas e os setores populares que tiveram as suas “cabeças cortadas”. (p.114).

 

Conclusões

 

  • 1961 a 1964: emergência no interior do Estado burguês de um executivo que se distinguiu fundamentalmente pelo programa de Reformas (econômicas, político e sociais);

  • Congresso Nacional formado por uma base conservadora, que se opôs aos programas de Reformas e impedindo a sua aplicação prática;

  • As Reformas não possuiam caráter transformador ou revolucionários: apenas buscava solucionar os impasses enfrentados pelo capitalismo no início dos anos 60;

  • A Reforma Agrária buscava responder às necessidades de expansão do capitalismo industrial brasileiro ao mesmo tempo que atendia aos imperativos a preservação da ordem burguesa;

  • O nacionalismo brasileiro sempre teve um caráter pragmático: dependendo das circunstancias a burguesia se opõem ou se associam ao capital multinacional;

  • A incapacidade do governo de reverter às crises econômicas com o Plano Trienal, colocou setores da direita contra Jango;

  • Importante lembrar que o Plano Trienal não obtinha apoio popular por não representar os interesses dos trabalhadores;

  • A crescente articulação e organização da esquerda, fez com que a direita se mobilizasse assombra com a possibilidade de uma articulação política maior (golpe revolucionário);

  • A classe trabalhadora foi excluída do novo processo de reforma instituído pelo Estado burguês militarizado, que optara pela chamada “modernização-conservadora”, pondo fim a democracia populista.

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