Considerações sobre “Ensaio sobre a tristeza no Brasil”, in Retrato do Brasil – Paulo Prado

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Esse texto me fez pensar como a narrativa sobre os fatos é decisiva para construir ou reforçar certos conceitos. Elevar alguns aspectos, sublinhar alguns detalhes, ter de fundo certos valores e pronto: está aí um iminente perigo contra uma população, que poderá carregar por muitos anos os aspectos sombrios que os intelectuais trataram de definir como elementos típicos de um povo.

Uma formação social com aspectos próprios de um dado momento histórico pode causar estranheza ao observador já domesticado aos princípios da formação social moderna. Utilizo o termo “domesticar” para falar do observador, pois ele é muito utilizado por este quando se refere a um povo ainda em formação. O termo é empregado pelo autor em tom de estranhamento, associando nas entrelinhas os indivíduos aos animais em seu grau evolutivo primitivo. Nesse caso, me aproprio do termo, para lembrar que o observador também se trata de um animal, em uma etapa evolutiva semelhante aos indivíduos observados, porém em outro contexto de socialização.

A narrativa do autor está impregnada de valores e conceitos morais que traz ao leitor uma ideia de que todas as mazelas são consequências de uma miscigenação, se não, a um esvaziamento de cultura. Embora o autor faça considerações tendo como referência culturas da Europa ou da América Central, deve-se ainda considerar os dados resgatados por fontes bibliográficas, que de fato são ricos em precisão de detalhe sobre a forma a qual se davam as relações no Brasil.

O desenvolvimento desordenado do país, para Paulo Prado, é consequência de uma obsessão dos colonizadores por ouro, mas a responsabilidade é do colonizado, ou povos agregados (leia-se aqui, negros escravos) que andavam semi-nus, induzindo o comportamento erótico exagerado.

Para melhor compreensão da crítica, inverterei muitas afirmações do autor. A exemplo: se um povo dito “instruído” por uma moralidade cristã ao se deparar com populações com tradições diferentes, não tem controle racional sobre os prazeres da carne (tão condenados pelos princípios que movem sua cultura), como podemos culpabilizar aqueles que desconhecem os princípios éticos do colonizador? Pois bem, é nesse ordenamento que o texto se segue: a culpa é da mulher seminua e dos seus pares tratados pelo autor como quase primatas, e desses aspectos negativos, limitados no viver instintivo resultaram o caráter brasileiro.

Observar um povo em formação e identificar a ausência de um sentimento nacional, causa espanto para um pesquisador tendencioso já habituado com uma formação social estruturada em termos de nação.

Paulo Prado observa o sertão Pernambucano e afirma que os mamelucos eram mais belos que os mulatos. O índio “domesticado” (o sertanejo) possuía qualidades do tipo: corajoso, hospitaleiro, generoso. Em outras palavras, era “civilizado”.

A relação entre escravos e senhores aparece como dados históricos: muitos senhores se relacionavam com as negras e dispensavam a estas, mais atenção que as suas esposas. Os filhos agregados recebiam, algumas vezes, generosas partes de terras. Embora tratam-se de dados, a narrativa do autor condena aspectos tidos por “imorais”, e a culpa: era da negra escrava que seduzia os senhores e filhos de senhores a cometerem pecados.

Não somente os costumes e as vestimentas causavam repugnância aos pesquisadores. O cheiro da pele negra também causava ojeriza. “Rango, viajante alemão que aqui esteve em 1819, notou logo ao desembarcar o cheiro penetrante, adocicado, que exalavam as ruas cheias de negros carregando fardos de calor intenso”.

A “desvalorização da vida” é observada pela autor que enfatiza as brigas constantes que se davam nas ruas: “por uma patação um capanga se incumbia do desaparecimento de qualquer desafeto”. Mas o autor desconsidera que tipos “capangas” são produtos do seu povo tido por “civilizado”.

São lançadas considerações etnocêntricas sobre Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo e a cobrança sobre a falta de patriotismo em um período em que sequer havia um Estado concretizado, a meu ver, coloca ainda mais o autor em uma situação de descrédito.

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