Malandro é a mãe!

Roberto da Matta me causa a mesma repulsa que os eugenistas.

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Resgatar alguns aspectos de uma sociedade e elevar ao todo, é no mínimo desonesto.

Tratar esses aspectos resultantes de um processo histórico como axiomas da natureza humana, é também, no mínimo desonesto. Tratar a malandragem como um a característica típica do brasileiro como que “se nasceu brasileiro, nasceu malandro” e colher dados históricos para equacionar essa questão, falando em nome da ciência, é no mínimo desonesto.

Culpo alguns intelectuais pela repetição que se dá no senso comum de que “todo brasileiro é malandro” (como se não existisse lei para 171 no mundo inteiro). Como se comportamento fosse algo biológico e não individual e situacional.

Cito Antônio Cândido, em “Dialética da malandragem”, quando o autor diz sabiamente que a personalidade malandra é narrada na literatura como se fosse uma “qualidade essencial, não um atributo adquirido pela força das circunstâncias”.

Muito me espanta termos acesso a certos autores e colocarmos eles em um patamar respeitoso nas ciências sociais. Muito me espanta não lermos os mesmos com desconfianças, se não, atribuindo a eles, responsabilidade pela repetição que se dá no senso comum sobre “nossas características”.

Essa repetição faz com que a população de tanto repetir o que ouviram dizer sobre sí, busque cotidianamente elementos que comprove a teoria da “malandragem brasileira”.

É engraçado observar, que mesmo no senso comum, o malandro é sempre o outro. Ou seja, embora a repetição do “mito” afirme que somos “tipicamente malandros”, o locutor nunca se identifica com o sujeito malandro.

A malandragem brasileira é uma construção social e não um atributo étnico.

Brasileiro não “dá um jeitinho” para não ter que trabalhar, ao contrário, é um dos povos que mais contabilizam as horas produtivas de trabalho no mundo, e , com exceção de certos grupos de pressão, pouco se questiona sobre isso.

A afirmação de que não temos amor ao trabalho não deveria ser encarada como uma ofensa se soubéssemos que o trabalho não dignifica o homem, ao contrário do que pensam os norte-americanos que solidificaram o capitalismo com o individualismo da ética protestante. No Brasil, o trabalho livre foi empregado em condições sociais específicas, e como um fim em sí mesmo: o salário. Ao contrário, os Norte- Americanos acreditavam que os bens adquiridos pelo trabalho seriam essenciais aos olhos de Deus para identificar os seus verdadeiros filhos. Isso explica parte da competição e individualismo dos americanos. Explica em partes, até a urbanização norte-americana, com condomínios fechados: uma estratégia de distanciamento do coletivo que trás ao mesmo tempo um senso de pertencimento a determinada “casta” social. A casta dos escolhidos de Deus, que são por acaso, os que “venceram na vida”.

No Brasil, enquanto os candangos trabalhavam (e muitos morreram e estão embaixo do Lago Paranoá) para solidificar o sonho de JK, os intelectuais estavam buscando comprovar o “mito” do povo malandro. Enquanto os campesinos lutavam por melhores condições de trabalho e terra, os intelectuais estavam afirmando a identidade do brasileiro como malandra. Enquanto os grevistas de São Paulo e Rio de Janeiro paralisavam fábricas denunciando o trabalho insalubre e a baixa renda, os intelectuais estavam produzindo discursos sobre o caráter malandro do brasileiro. Enquanto o trabalho em condições semelhantes a escravidão no Brasil ainda é uma realidade, intelectuais teimam em afirmar que somos malandros.

 

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