Notas sobre “O Brasil Best Seller de Jorge Amado – Literatura e identidade nacional” de Illana Seltzer Goldstein

jorge amado

Alguns conceitos ou de como Jorge Amado pode ser bom para pensar a nação, a identidade e a mestiçagem

Illana Seltzer Goldstein acredita que as obras de Jorge Amado trazem elementos que proporcionam reflexão sobre o fenômeno da identidade nacional. Para tal, a autora pretende contextualizar o período histórico em que as obras foram produzidas, pois o interesse pela identidade nacional é fruto da década de 1930, e a preocupação com este tema é parte do papel atribuído aos intelectuais deste período.

→ Nota minha:

A identidade nacional é uma questão  política que antecede o período datado pela autora.  Isso se verifica em literaturas de outras épocas, a exemplo Silvio Romero da geração de 1870.

Identidade e representação.

A concepção de identidade será abordada como sinônimo de diferença, como num jogo de espelhos.

“as identidades são representações inevitavelmente marcadas pelo confronto com o outro” é o reconhecimento social da diferença. Ou seja, a identidade será tratada epistemologicamente de forma diferente ao sinônimo atribuído pelo dicionário, que associa identidade à semelhança e igualdade.

Relembrando Evans- Pritchard em Os Nuer, a autora enfatiza que um segmento nuer tribal só ganha  contorno em contraposição a outros segmentos tribais, e a unidade de uma tribo só faz sentido em relação a outra tribo. Mesmo sendo um povo segmentário e disperso, os nuer afirmam sua unidade em relação aos Dinkas, quando assumem uma coesão interna para atacar seus inimigos tradicionais.

Do trabalho de Fredrik Barth, a autora resgata a concepção de “grupo étnico”, como aquele que se perpetua biologicamente, compartilha valores culturais, e sobretudo, que conta com membros que identificam a si mesmo e são identificados por outros. (Pg.27). Mesmo com as transformações de práticas culturais, as distinções étnicas são garantidas pela manutenção de fronteiras simbólicas – que estabelecem critérios de exclusão e incorporação.

culturas são dinâmicas, e a identidade, situacional e contrastiva.

O fato do grupo de se entender e ser percebido enquanto grupo que garante a identidade (não se levam para a diáspora todos os seus pertences, mas seus costumes, seus valores e aspectos linguísticos, e etc).

Entretanto a intenção não é sugerir que as culturas tenham uma “essência” imutável ou uma personalidade de base, aprisionada. Mas, a “memória cultural” (definição do alemão Jan Assman) ajuda a compreender a questão das permanências. É essa memória que se refaz de geração para geração. não sendo nunca a mesma, ao mesmo tempo em que não se diferencia por completo. (pg.30).

No Brasil, os autores buscam identificar elementos contrastantes na sociedade brasileira.

Para Roberto DaMatta (argt!), a nossa maneira de nos relacionar seria esse elemento contrastante.

“Ao mesmo tempo em que reina entre nós a uma combinação paradoxal entre hierarquia e solidariedade, entre autoritarismo e camaradagem – o que permite que os patrões explorem seus funcionários ao mesmo tempo em que conversam com eles sobre intimidade”.

Somos uma sociedade contraditória, em que impera o “jeitinho brasileiro” e por outro lado imperam regras rígidas de ordem e deferência, traduzidas por expressões arrogantes “você sabe com quem está falando”, seria um exemplo.  Maria Lúcia Montes sugere uma verdadeira cultura de festa, barroca em suas matizes, impregna em profundidade o fazer e o sentir brasileiro. Lilia Scharwarez, por outro lado, considera a “fábula das três raças” nossa persistência, sendo a mestiçagem nossa singularidade.

Émeli Durkheim escreveu que a vida social é constituída de “representações coletivas” – imagens e ideias geradas por meio do encadeamento entre consciências individuais, que acabam ultrapassando-as e tornando-as autônomas. Representações coletivas, portanto, podem ifluir nos fatos sociais. ” Uma sociedade não é constituída simplesmente pela massa de indivíduos que a compõem, pelo solo que ocupa, pelas coisas de que serve, pelos movimentos que realiza, mas, antes de tudo, pela ideia que faz de si mesma”. (As formas elementares da vida religiosa –  E. Durkheim).

A noção de representação social é entendida como sinônimo de um saber ordinário elaborado a partir de crenças e valores, capaz de criar uma visão comum a cerca de objetos pessoas e eventos. Ao contrário do conceito de “ideologia”, que em algumas interpretações do materialismo histórico, corresponderia a uma mentira e ao massacramento da realidade por parte da “classe dominante”. (pg.33).

→ quando se analisam representações, mais importante do que provar sua (falta de) verdade objetiva é compreender sua eficácia social – porque e para quem fazem sentido.

→ Nota minha:

somente tendo essa frase bem grifada, Roberto Damatta faz algum sentido pra mim, tendo em vista que a identidade malandra foi construída coletando alguns elementos da sociedade brasileira e elevado ao todo, fazendo sentido a interesses específicos em contextos políticos específicos. Ler Roberto Shwartz elucida essa questão.

Nação e nacionalismo

A coesão de uma nacionalidade não pode ser dada por um recorte territorial, pela raça, pela língua ou pela religião. Existem nações com várias raças território flutuante e assim por diante. (Ernest Renan).  Existiria na nacionalidade um lado sentimental, um “princípio espiritual”.

Benediet Anderson conhece a nação como uma comunidade política imaginada, em que não se conhece a maioria dos outros membros, mas sente solidariedade por eles.

As nações não são reavivadas ou acordadas de um grande período de sono pelos movimentos nacionalistas, ao contrário, o nacionalismo é que cria nações, selecionando elementos culturais pré existentes e transformando-os.

As tradições inventadas, para Eric Hobsbawn, consistem num conjunto de práticas reguladas por normas aceitas explicita ou tacitamente, que visam inculcar valores e comportamentos pela repetição. (pg.36)

→  Nota minha: a crítica da filósofa Marilena Chauí, que considera a nação como uma ficção decorrente das necessidades do capitalismo” é facilmente contra-argumentado pela autora. Porém, vale ler o livro Mito Fundador e Sociedade Autoritária (Chauí) para ver que não é tão simples assim contra-argumentar.

 Os anos 1930 no Brasil: unificação cultural e eleição de símbolos nacionais

→ As ideias de nação e nacionalismo assentam-se sobre a padronização cultural e sobre a (re)invenção de tradições.

Os anos de 1930 no Brasil, marcam a tentativa de homogeneização de uma cultura nacional, a aproximação entre o Estado e a criação cultural e a viabilização de um campo literário autônomo.

→ Nota minha: Observar o momento político no Brasil: porque motivo o Estado em 1930 buscava uma hegemonia nacional? Havia a necessidade política de estruturar a economia com um Estado centrífugo, canalizador de todas as demandas sociais e políticas. Os intelectuais, que segundo a autora possuíam autonomia, compactuavam com estes interesses quando produziam ideias sobre o que é ser brasileiro na literatura. A crítica de Chauí e Roberto Shartwz só fazem sentido se nunca perdemos o contexto político em que certas afirmações se deram sobre o caráter nacional e , se lembrarmos a quem interessava certas concepções, hoje repetidas, se caracterizando pelo tal “mito” da identidade falado por Chauí.

Jorge Amado iniciou sua produção literária nessa época, e aparece enquadrado nos compêndios de literatura dentro do grupo dos regionalistas. Torquato Neto, um tropicalista, considera que nessa época perdeu-se aos poucos, o medo de mostrar ao mundo que éramos um país de fato subdesenvolvido, miserável, mas ao mesmo tempo rico.

A autora resgata informações do historiador Nicolau Seveenjo sobre o envolvimento político de Getúlio Vargas nas produções literárias. Vargas discursou em 1943 na Academia Brasileira de Letras ” a simbiose necessária sobre homens de pensamento e de ação”. Durante o governo de 1930-1945, boa parte da intelectualidade brasileira esteve reunida em torno de si: Carlos Drummond de Andrade no Ministério da Educação e Saúde, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer e Cândido Portinari projetando e decorando para o governo, o crítico Augusto Meyer na chefia do Instituto Nacional do Livro, Ribeiro Couto e Murilo Mendes  no corpo diplomático, Manuel Bandeira como membro consultivo do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), cuja primeira versão fora idealizada por Mário de Andrade. (Pg.47).

→ Nota minha: O Estado agindo como elemento centrífugo, trazendo para si intelectuais que estavam compactuando com a projeção de uma identidade nacional. Identidade essa, que Damatta irá classificar por “malandra” anos depois.

Nota 2:

a crítica de Chauí volta a ter sentido se nunca perdemos de vista o papel do Estado no cenário político e econômico em que certas afirmações se deram. Não surge tais temas de forma inocente e poética como o texto induz pensar. Deve-se sim pensar sempre o campo político em que suscitam estas questões.

É nesse período que as ideias regionalistas de Gilberto Freire influenciaram fortemente a representação amadiana do Brasil. A identidade nacional calcada na mestiçagem, que sustentou a seleção de símbolos nacionais nos anos de 1930 foi matéria-prima de Jorge Amado ao longo da sua vida e obra.

Mesmo sendo um membro da ALN (Aliança Nacional Libertadora), ou seja, um opositor do Estado Novo e tendo alguns dos seus livros queimados, Jorge Amado declarou algumas vezes sua posição favorável a algumas políticas adotadas por Vargas, considerando-o catalisador da industrialização e o mérito por ter criado uma legislação trabalhista.

Em 1930 pairava uma atmosfera nacionalista – nas tentativas de unificar e compreender o país, observa-se o papel dos intelectuais junto ao Estado.

 Considerações finais. O Brasil Beste Seller de Jorge Amado: Consenso e originalidade

Nós não omos isso ou aquilo, nós somos tudo: branco, negro, índio. É isto que faz a nossa singularidade e nos dá uma importância real”. Jorge Amado, apud Antônio Fernando e Francheschi.

A mestiçagem teria gerado um povo sem barreiras, em que pessoas de todas as camadas sociais e origens étnicas convivem harmoniosamente.

Nota (irônica) minha: Dessa forma, podemos afirmar que não há preconceito, segregação e desigualdade social no Brasil tipificados pela questão racial. Né? Afirmação irreal e inconsequente desses autores! Aqui, leva-se a crer que somos um país “bonito por natureza” e que políticas públicas para inclusão de negros, mulatos e pardos é perca de tempo, já que vivemos em uma “verdadeira democracia racial”.

→  Nota extremamente pessoal: Paus mandados do Estado Varguista! Se estou com raiva da produção intelectual de 1930 – esperem pra ver o que surge em 1945….uma desgraça intelectual. Precisamos consertar isso, urgente! Culpo os intelectuais por parte das mazelas sociais desse país. Costumamos culpar sempre o que mal sabem ler e escrever, ou “o que não sabe votar”. Mas os que dispõem de ferramentas de combate prestam serviços ao Estado e deserviços ao povo. Florestan Fernandes é que estava certo em ser um sociólogo “engajé”. Afirmou sabiamente que, ou se está do lado do opressor ou se está do lado do oprimido. Vejam de que lado estão estes intelectuais que estão produzindo ideias sobre a nossa identidade nacional. Identidade essa que repetimos cotidianamente pelo senso comum. Acreditamos que somos malandros com repulsa ao trabalho – quando somos um dos povos que mais trabalham em termos de horas produtivas no mundo! Malditos intelectuais!

Voltemos ao texto.

“A democracia racial chegou mesmo a servir ao discurso dos governos militares, fornecendo o cimento simbólico da integração forjada pela ideologia da Segurança Nacional. O conselho Federal de Cultura, criado em 1966 por Castelo Branco, promoveu a ideia do Brasil “cadinho de raças”, enfatizando em vez de heterogeneidade de nossa composição social e cultural, a harmonia entre regiões e realidades diferenciadas”. (Pg. 247)

→ Nem merece nota esse trecho que por sí já diz tudo. Chegamos em 1966….com um discursinho aparentemente inofensivo, produzido de cima pra baixo sobre nossa identidade nacional.

Uma pesquisa produzida pelo Datafolha em 1995 mostra o quanto essa ideia tem ressonância no senso comum. Dos cerca de 5 mil entrevistados, a maioria (73%) concordou que “uma coisa boa do povo brasileiro é a mistura das raças”. A autora joga esse dado e não discute muito sobre, mas vale observar que vinculada a essa miscigenação, o senso comum também acredita que somos de fato uma democracia racial, o que inviabiliza discussões mais profundas para combater o preconceito e a desigualdade social do país.

A representação da identidade brasileira mestiça e tolerante não supõe somente o esquecimento dos horrores da escravidão africana. Ela põe também entre parênteses a violência, mais ou menos direta, contra outros grupos étnicos que participaram e participam da formação da nação: o desprezo da sociedade nacional em relação às populações indígenas, desde a Colônia aos dias de hoje, as péssimas condições de trabalho e maus tratos infligidos a imigrantes europeus e asiáticos, no inpicio do século XX, o anti-semitismo do Estado Novo durante a Segunda Guerra. (Pg.279).

→ Nota: A autora toca em uma questão que me inquietou em todas as notas que redigi.

 Muito bem associado, citar Florestan Fernandes em uma das notas acima. A autora lembra que um dos críticos dessa suposta democracia racial é o ele mesmo: Florestan Fernandes, que fez várias pesquisas denunciando o caráter da democracia nacional ser uma “consciência falsa” que permitia às camadas dominantes manter seus privilégios e reter a ordem social competitiva. (Pg. 280).

O antropólogo Kabengele Mununga vê o sincretismo como uma “ideologia” ou “mito fundador” como prejudicial, pois dificulta a formação de consciência e identidade dos grupos oprimidos. Empréstimos culturais e segmentários étnicos dificultariam aqui a formação de “ação afirmativa” e com identidade racial e cultura puras.

No Brasil, impera um preconceito de marca e não de origem, como salienta Oracy Nogueira.

Nas obras de Jorge Amado é possível encontrar ao menos 37 cores diferentes, que vão desde “mulato-quase branco, brancarrona, bronzeado, encardidinha, cor de formiga, morena azulada, pele trigueira, pálido, tição e vermelho”. Essa aquarela de cores se encontra também em pesquisas do Pnad, que ao indagar à população sobre sua cor, encontra respostas semelhantes as descritas por Jorge Amado.

O preconceito no Brasil está ligado ao fenótipo e não à origem, como os Estados Unidos.

Em Tenda dos Milagres, o negro Tadeu Canhoto passa a ser chamado de moreno, no momento em que seus sogros ficam sabendo que ele está estudando engenharia.

A autora conclui que Jorge Amado criou estereótipos e representações da baianidade/brasilidade para ter sucesso. Mas, na Bahia real existem Gabrielas. Nina Rodrigues esteve no livro com o pseudônimo de Nilo Argolo. A sensualidade narrada por Jorge Amado não está presente só em seus personagens, como também em seu criador.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: