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Morre o historiador Eric Hobsbawm

Morre o historiador Eric Hobsbawm

fonte: band.com.br
O pensador marxista britânico morreu aos 95 anos no início de hoje, após uma longa doença, de acordo com sua filha, Julia.
O historiador tratou de muitos temas, em sua longa carreira, entre eles a ascensão do Estado-nação e movimentos revolucionários / Tuca Vieira / Folha Press

 Um dos principais historiadores do século 20, Eric Hobsbawm morreu aos 95 anos, informou a família dele nesta segunda-feira, de acordo com o jornal “The Guardian”.

O pensador marxista britânico morreu no início de hoje, no Royal Free Hospital, em Londres, após uma longa doença, de acordo com sua filha, Julia.
Nascido em uma família judia em Alexandria, no Egito, Hobsbawm viveu em Viena, na Áustria, e Berlim, na Alemanha. Com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, sua família seguiu em 1933 para Londres, onde Hobsbawm seguiu seus estudos e se graduou, em Cambridge, além de adotar a cidadania britânica.

O historiador tratou de muitos temas, em sua longa carreira, entre eles a ascensão do Estado-nação, movimentos revolucionários, a história contemporânea em geral e até, em uma de suas obras, fez uma história social do jazz. Entre seus principais livros estão “A era das revoluções”, “A era do capital”, “A era dos extremos” e “Nações e Nacionalismo desde 1780”. Desenvolveu quase toda sua carreira na Birkbeck University, mas também foi, por exemplo, professor-visitante em Stanford, nos EUA, nos anos 1960.

O “Guardian” lembra que o fato de Hobsbawm ter se mantido fiel ao marxismo ao longo do tempo era alvo de polêmica, sobretudo após ficarem claros os vários abusos cometidos por lideranças socialistas em países como a Hungria e na própria União Soviética em relação aos opositores do regime ou a algumas minorias. Em uma declaração lembrada pelo diário britânico, Hobsbawm disse que nunca tentou minimizar as atrocidades cometidas na Rússia, mas acreditara que o sistema soviético poderia representar uma solução melhor para a humanidade que o capitalismo do Ocidente.

Hobsbawm veio ao Brasil em 2003, para a primeira edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Na ocasião, falou, por exemplo, de sua autobiografia, “Tempos interessantes”.

14 de Setembro de 2011 – 10h54

Entrevista com Eric Hobsbawm: Trocando mitos por história

Eric Hobsbawm é um historiador merecedor de todo o respeito. Num tempo em que a atividade central da grande maioria dos historiadores burgueses consiste na reescrita da história de acordo com as conveniências da ideologia dominante, a sua fidelidade à matriz marxista na investigação e no método serve de exemplo, independentemente das discordâncias que este ou aquele aspecto da sua obra suscitem.

Discordâncias que ele próprio assume frontalmente: “O que busco é o entendimento da história, e não concordância, aprovação ou comiseração”. Esta interessante entrevista é um exemplo da importância da reflexão de alguém que conta 94 anos, ou seja, de alguém que nasceu no ano da grande revolução socialista de outubro.

Estadão: No livro Globalização, Democracia e Terrorismo, de 2007, o senhor passa para os leitores certo pessimismo ao lhes colocar uma perspectiva crucial e ao mesmo tempo desconfortante: ”Não sabemos para onde estamos indo”, diz, referindo-se aos rumos mundiais. Olhando as últimas décadas pelo retrovisor da história, esse sentimento parece ter se intensificado. Em que outros momentos a humanidade viveu períodos marcados por essa mesma sensação de falta de rumos?

Eric Hobsbawm: Embora existam diferenças entre os países, e também entre as gerações, sobre a percepção do futuro – por exemplo, hoje há visões mais otimistas na China ou no Brasil do que em países da União Europeia e nos Estados Unidos –, ainda assim acredito que, ao pensar seriamente na situação mundial, muita gente experimente esse pessimismo ao qual você se refere. Porque de fato atravessamos um tempo de rápidas transformações e não sabemos para onde estamos indo, mas isso não constitui um elemento novo em tempos críticos. Tempos que nos remetem ao mundo em ruínas depois de 1914, ou mesmo a vários lugares daquela Europa entre duas grandes guerras ou na expectativa de uma terceira.
Aqueles anos durante e após a 2ª Guerra foram catastróficos, ali ninguém poderia prever que formato o futuro teria ou mesmo se haveria algum futuro. Cruzamos também os anos da Guerra Fria, sempre assustadores pela possibilidade de uma guerra nuclear. E, mais recentemente, notamos a mesma sensação de desorientação ao vermos como os Estados Unidos mergulharam numa crise econômica que até parece ser o breakdown do capitalismo liberal.

Estadão: Nações saíram empobrecidas, arruinadas mesmo, das guerras mundiais, mas é adequado pensar que havia naqueles escombros o desenho de um futuro?

Eric Hobsbawm: Sim. Se de um lado o futuro nos era desconhecido e cada vez mais inesperado, havia por outro lado uma ideia mais nítida sobre as opções que se apresentavam. No entreguerras, a escolha principal de um modelo se dava entre o capitalismo reformado e o socialismo com forte planejamento econômico – supremacia de mercado sem controle era algo impensável. Havia ainda a opção entre uma democracia liberal, o fascismo ultranacionalista e o comunismo.
Depois de 1945, o mundo claramente se dividiu numa zona de democracia liberal e bem-estar social a partir de um capitalismo reformado, sob a égide dos EUA, e uma zona sob orientação comunista. E havia também uma zona de emancipação de colônias, que era algo indefinido e preocupante. Mas veja que os países poderiam encontrar modelos de desenvolvimento importados do Ocidente, do Leste e até mesmo resultante da combinação dos dois. Hoje esses marcos sinalizadores desapareceram e os “pilotos” que guiariam nossos destinos, também.

Estadão: Como o senhor avalia o poder das imagens de destruição nos ataques do 11/9 a Nova York, tão repetidas nos últimos dias? Tornaram-se o símbolo de uma guinada histórica, apontando novas relações entre Ocidente e Oriente? Por que imagens do cenário de morte de Bin Laden surtiram menos impacto?

Eric Hobsbawm: A queda das torres do World Trade Center foi certamente a mais abrangente experiência de catástrofe que se tem na história, inclusive por ter sido acompanhada em cada aparelho de televisão, nos dois hemisférios do planeta. Nunca houve algo assim. E sendo imagens tão dramáticas, não surpreende que ainda causem forte impressão e tenham se convertido em ícones.
Agora, elas representam uma guinada histórica? Não tenho dúvida de que os Estados Unidos tratam o 11/9 dessa forma, como um turning point, mas não vejo as coisas desse modo. A não ser pelo fato de que o ataque deu ao governo norte-americano a ocasião perfeita para o país demonstrar sua supremacia militar ao mundo. E com sucesso bastante discutível, diga-se. Já o retrato de Bin Laden morto (que não foi divulgado) talvez fosse uma imagem menos icônica para nós, mas poderia se converter num ícone para o mundo islâmico. Da maneira deles, porque não é costume nesse mundo dar tanta importância a imagens, diferentemente do que fazemos no Ocidente, com nossas camisetas estampando o rosto de Che Guevara.

Estadão: Mas além da chance de demonstrar poderio militar, os Estados Unidos deram uma guinada na sua política externa a partir de 2001, ajustando o foco naquilo que George W. Bush batizou como “war on terror”. Outro encaminhamento seria possível?

Eric Hobsbawm: Eu diria que a política externa norte-americana, depois de 2001, foi parcialmente orientada para a guerra ao terror, e fundamentalmente orientada pela certeza de que o 11/9 trouxe para os EUA a primeira grande oportunidade, depois do colapso soviético, de estabelecer uma supremacia global, combinando poder político-econômico e poder militar.
Criou-se a situação propícia para espalhar e reforçar bases militares americanas na Ásia central, ainda uma região muito ligada à Rússia. Sob esse aspecto, houve uma confluência de objetivos – combate-se o inimigo ampliando enormemente a presença militar norte-americana. Mas, sob outro aspecto, esses objetivos conflitaram. A guerra no Iraque, que no fundo nada tinha a ver com a Al-Qaida, consumiu atenção e uma enormidade de recursos dos EUA, e ainda permitiu à organização liderada por Bin Laden criar bases não só no Iraque, mas no Paquistão e extensões pelo Oriente Médio.

Estadão: Os Estados Unidos lançaram-se nessa campanha sabendo o tamanho do inimigo?

Eric Hobsbawm: O perigo do terrorismo islâmico ficou exagerado, a meu ver. Ele matou milhares de pessoas, é certo, mas o risco para a vida e a sobrevivência da humanidade que ele possa representar é muito menor do que o que se estima. Exemplo disso são as importantes mudanças que ocorreram neste ano no mundo árabe, mudanças que nada devem ao terrorismo islâmico. E não só: elas o deixaram à margem.
Agora, o mais duradouro efeito da war on terror, aliás, uma expressão que os diplomatas norte-americanos finalmente estão abandonando, terá sido permitir que os Estados Unidos revivessem a prática da tortura, bem como permitir que os cidadãos fossem alvo de vigilância oficial. Isso, claro, sem falar das medidas que fazem com que a vida das pessoas fique mais desconfortável, como ao viajar de avião.

Estadão: Diante dos problemas econômicos que hoje afligem os Estados Unidos, ainda sem um horizonte de recuperação à vista, o senhor diria que seguimos em direção a um tempo de declínio da hegemonia norte-americana?

Eric Hobsbawm: Nós de fato caminhamos em direção à Era do Declínio Americano. As guerras dos últimos dez anos demonstram como vem falhando a tentativa norte-americana de consolidar sua solitária hegemonia mundial. Isso porque o mundo hoje é politicamente pluralista, e não monopolista. Junto com toda a região que alavancou a industrialização na passagem do século 19 para o século 20, hoje a América assiste à mudança do centro de gravidade econômica do Atlântico Norte para o Leste e o Sul.
Enquanto o Ocidente vive sua maior crise desde os anos 1930, a economia global ainda assim continua a crescer, empurrada pela China e também pelos outros Brics. Ainda assim, não devemos subestimar os Estados Unidos. Qualquer que venha a ser a configuração do mundo no futuro, eles ainda se manterão como um grande país e não apenas porque são a terceira população do planeta. Ainda vão desfrutar, por um bom tempo, da notável acumulação científica que conseguiram fazer, além de todo o soft power global representado por sua indústria cultural, seus filmes, sua música, etc.

Estadão: Não só por desdobramentos político-militares do 11/9, mas também pela emergência de novos atores no mundo globalizado, criam-se situações bem desafiadoras. Por exemplo, o que o Ocidente sabe do Islã? E dos países árabes que hoje se levantam contra seus regimes? Qual é o grau de entendimento da China? Enfim, o Ocidente enfrenta dificuldades decorrentes de uma certa superioridade cultural ou arrogância histórica? Eric Hobsbawm: Ao longo de toda uma era de dominação, o Ocidente não só assumiu que seus triunfos são maiores do que os de qualquer outra civilização, e que suas conquistas são superiores, como também que não haveria outro caminho a seguir. Portanto, ao Ocidente restaria unicamente ser imitado. Quando aconteciam falhas nesse processo de imitação, isso só reforçava nosso senso de superioridade cultural e arrogância histórica.
Assim, países consolidados em termos territoriais e políticos, monopolizando autoridade e poder, olharam de cima para baixo para países que aparentemente estavam falhando na busca de uma organização nas mesmas linhas. Países com instituições democráticas liberais também olharam de cima para baixo para países que não as tinham. Políticos do Ocidente passaram a pensar democracia como uma espécie de contabilidade de cidadãos em termos de maiorias e minorias, negando inclusive a essência histórica da democracia.
E os colonizadores europeus também se acharam no direito de olhar populações locais de cima para baixo, subjugando-as ou até erradicando-as, mesmo quando viam que aqueles modos de vida originais eram muito mais adequados ao meio ambiente das colônias do que os modos de vida trazidos de fora. Tudo isso fez com que o Ocidente realmente desenvolvesse essa dificuldade de entender e apreciar avanços que não fossem os próprios.
Estadão: Essa superioridade do Ocidente pode mudar com a emergência de uma potência como a China?

Eric Hobsbawm: Mas mesmo a China, que no passado remoto era tida como uma civilização superior, foi subestimada por longo tempo. Só depois da 2ª Guerra é que seus avanços em ciência e tecnologia começaram a ser reconhecidos. E só recentemente historiadores têm levantado as extraordinárias contribuições chinesas até o século 19.
Veja bem, ainda não sabemos em que medida a cultura, a língua e mesmo as práticas espirituais da Pérsia, hoje Irã, enfim, em que medida aquele fraco e frequentemente conquistado império influenciou uma grande parte da Ásia, do Império Otomano até as fronteiras da China. Sabemos? Temos grande dificuldade em compreender a natureza das sociedades nômades, bem como sua interação com sociedades agrícolas assentadas, e hoje a falta dessa compreensão torna quase impossível traduzir o que se passa em vastas áreas da África e da região do Saara, por exemplo, no Sudão e na Somália.
A política internacional fica completamente perdida quando confrontada por sociedades que rejeitam qualquer tipo de estado territorial ou poder superior ao do clã ou da tribo, como no Afeganistão e nas terras altas do sudoeste asiático. Hoje achamos que já sabemos muito sobre o Islã, sem nem sequer nos darmos conta de que o radicalismo xiita dos aiatolás iranianos e o sonho de restauração do califado por grupos sunitas não são expressões de um Islã tradicional, mas adaptações modernistas, processadas o longo século 20, de uma religião prismática e adaptável.

Estadão: Com todos esses exemplos de ”mundos” que se estranham, o senhor diria que a história corre o risco das distorções?

Eric Hobsbawn: Apesar de todos esses exemplos, sou forçado a admitir que a arrogância histórica ocidental inevitavelmente se enfraquece, exceto em alguns países, entre eles os EUA, cujo senso de identidade coletiva ainda consiste na crença de sua própria superioridade. Nos últimos dez anos, a história tomou outro curso, muito afetada pelas imigrações internacionais que permitem a mulheres e homens de outras culturas virem para os “nossos” países.
Dou um exemplo: hoje a informação municipal na região de Londres onde vivo está disponível não apenas em inglês, mas em albanês, chinês, somali e urdu. A questão preocupante é que, como reação a tudo isso, surge também uma xenofobia de caráter populista, que se propaga até nas camadas mais educadas da população. Mas, inegavelmente, numa cidade como Londres ou Nova York, onde a presença dos imigrantes de várias partes é forte, existe hoje um reconhecimento maior da diversidade do mundo do que se tinha no passado.
Turistas que buscam destinos na Ásia, África ou até mesmo no Caribe costumam não entender a natureza das sociedades que cercam seus hotéis, mas jovens mulheres e homens que hoje viajam, a trabalho ou estudos, para esses lugares, já criam outra compreensão. Em resumo, apesar da expansão de xenofobia, há motivos para otimismo porque a compreensão abrangente do nosso tempo complexo requer mais do que conhecimento ou admiração por outras culturas. Requer conhecimento, estudo e, não menos importante, imaginação.
Estadão: Imaginação?

Eric Hobsbawm: Sim, porque essa compreensão abrangente é frequentemente dificultada pelo persistente hábito de políticos e generais passarem por cima do passado. O Afeganistão é um clamoroso exemplo do que estou dizendo. Temo que não seja o único.
Estadão: Na sua opinião, estaríamos atravessando um momento regressivo da humanidade quando fundamentalismos religiosos impõem visões de mundo e modos de vida?

Eric Hobsbawm: O que vem a ser um momento regressivo? Esta é a pergunta que faço. Não acredito que nossa civilização esteja encarando séculos de regressão como ocorreu na Europa Ocidental depois da queda do Império Romano. Por outro lado, devemos abandonar a antiga crença de que o progresso moral e político seja tão inevitável quanto o progresso científico, técnico e material. Essa crença tinha alguma base no século 19.
Hoje o problema real que se coloca, o maior deles, é que o poder do progresso material e tecnocientífico, baseado em crescente e acelerado crescimento econômico, num sistema capitalista sem controle, gera uma crise global de meio ambiente que coloca a humanidade em risco. E, à falta de uma entidade internacional efetiva no plano da tomada de decisão, nem o conhecimento consolidado do que fazer, nem o desejo político de governos nacionais de fazer alguma coisa estão presentes.
Esse vazio decisório e de ação pode, sim, levar o nosso século para um momento regressivo. E certamente isso tem a ver com aquele “sentido de desorientação” que discutimos no início da entrevista.

Estadão: Apoiado na sua longa trajetória acadêmica, que conselhos o senhor daria aos jovens historiadores de hoje?

Eric Hobsbawn: Hoje pesquisar e escrever a história são atividades fundamentais, e a missão mais importante dos historiadores é combater mitos ideológicos, boa parte deles de feitio nacionalista e religioso. Combater mitos para substituí-los justamente por história, com o apoio e o estímulo de muitos governos, inclusive. Se eu fosse jovem o suficiente, gostaria de participar de um excitante projeto interdisciplinar que recorresse à moderna arqueologia e às técnicas de DNA para compor uma história global do desenvolvimento humano, desde quando os primeiros Homo sapiens tenham aparecido na África oriental e como elas se espalharam pelo globo.
Agora, se eu fosse um jovem historiador latino-americano, daí eu poderia ser tentado a investigar o impacto do meu continente sobre o resto do mundo. Isso, desde 1492, na era dos descobrimentos, passando pela contribuição material desse continente a tantos países, com metais preciosos, alimentos e remédios, até o efeito da América Latina sobre a cultura moderna e a compreensão do mundo, influenciando intelectuais como Montaigne, Humboldt, Darwin. E, evidentemente, eu pesquisaria a riqueza musical do continente, fosse eu um latino-americano. Isso é tudo o que eu quero dizer.
A Roda Bélica da História, por Hobsbawn
1ª Guerra, o banho de sangue
O tempo histórico era outro, avalia Hobsbawm. O mundo ficara quase um século sem um grande conflito e o conceito de “paz” fez-se sinônimo de “antes de 1914”, ano em que Francisco Ferdinando, da Áustria, foi morto. Detonava-se o conflito que iria sangrar a Europa.
2ª Guerra, o mistério
O mundo sabia o que era uma guerra maciça, mas não uma guerra global. Eis a amarga contribuição da 2ª Guerra, conflito sem limites. Hobsbawm indaga: por que Hitler, esgotado na Rússia, declarou guerra aos EUA, permitindo que se associassem à Grã-Bretanha?
Guerra Fria, o absurdo
Como explicar 40 anos de tensão pela crença de que o planeta poderia explodir a qualquer momento e, contra a destruição total, só haveria a chance da dissuasão mútua? Para Hobsbawm, a Guerra Fria dos tempos de Kruchev carregou a inconclusão da Era da Catástrofe.
Guerra do Golfo, o lucro
Ao findar da Guerra Fria, lembra o historiador, a hegemonia econômica norte-americana já estava abalada. E sua superioridade militar teve que ser financiada por apoiadores de Washington. Na guerra contra o Iraque, em 1991, a potência presidida por Bush pai realizou lucros.
Fonte: O Estado de S. Paulo

Entrevista com o autor de Homo Sacer, Giorgio Agamben.

Giorgio Agamben: “Deus não morreu; tornou-se Dinheiro”

“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”, afirma Giorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salvà e publicada por Ragusa News e republicada no Brasil pelo Instituto Humanitas

Extraído do blog http://www.vermelho.org.br

 

Giorgio Agamben

Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.  Segundo ele, “a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas”. Assim, “a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben.

A tradução é de Selvino J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC [e tradutor de três das quatro obras de Agamben publicadas pela editora Boitempo].
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O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itália. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?

“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. ”Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.
Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a idéia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania ), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?

A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado. Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história e o passado tem um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.
O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar) têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim, da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.
Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.
A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?

Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo, foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política. O que aconteceu nos estados totalitários do século 20 reside no fato de que é o poder (também na forma da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.
O mal-estar, para usar um eufemismo, com que o ser humano comum se põe frente ao mundo da política tem a ver especificamente com a condição italiana ou é de algum modo inevitável?

Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.
O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?

Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos Estados que se dizem democráticos. Poucos sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmaras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmaras não é mais um lugar público: é uma prisão

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A grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal, o futuro será melhor do que o presente?

Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: ”a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.
Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a lectio que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação de como sair do xequemate no qual a arte contemporânea está envolvida.

Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercadorização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea, as duas coisas coincidem.
Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma umapoiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.
Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercadorização. Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com não-obras e performances a museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

Briga de gigantes…

Uma curiosidade interessante que possibilita compreender melhor o posicionamento de dois grandes pensadores.

Como e porque Sartre brigou com Foucault (extraído do blog http://filosofiadetododia.blogspot.com.br).

Foucault (1926-1984) e Sartre (1905-1980), ambos filósofos franceses, que muitas vezes lutaram pelas mesmas causas na política interna da Fança, estavam em lados opostos em suas concepções filosóficas. Em temas como o marxismo, o sujeito humano, sua existência, as ciências humanas, a teoria sobre a história – a disputa foi acirrada.

Sartre e Foucault nos anos 70, vendo-se atrás deles Deleuze

Sartre discordou da análise de Foucault sobre a história, este “esqueceu a história”, pois não diz como os acontecimentos se transformam em função do movimento dialético (veja postagem sobre a dialética marxista). E pior, Foucault “matou o homem”, que não passa de um sujeito assujeitado e constituído por saberes de certa época. Quer dizer, Foucault despreza a dignidade e a liberdade humanas. Os estruturalistas visam constituir, sempre segundo Sartre, uma nova ideologia, burguesa, se recusam a prestar atenção às relações de produção, à praxis e consideram que a estrutura da linguagem é mais importante do que a história material e social. Ora, argumenta Sartre, a linguagem é inerte, uma rede de oposições e de regras, de onde o homem está ausente.

Em suma, para o existencialismo sartreano, que aos poucos se tornou um marxismo sartreano, sem o homem concreto, abolindo sua existência e a história dos modos de produção que o transformam, Foucault comete, proclama Sartre “um escândalo lógico”. O homem é mais do que as estruturas que o condicionam.
Foucault sustenta algo muito diferente. Para ficarmos só com As Palavras e as Coisas (1966), para ele a história não é feita de passagens, mas de cortes, diferentes práticas de saber para falar, para situar e lidar com os acontecimentos. Acontecimentos são fabricados, inclusive esse humanismo que vê o homem como pura existência, genérica. A história produz lutas, mas muitas delas nada têm a ver com classes sociais. O próprio marxismo surgiu de condições históricas, Marx é um peixe nas águas do século 19, há que compreendê-lo e lê-lo nesse “ambiente”. Ele escreveu sobre uma dessas situações históricas: conflitos no nascimento do capitalismo moderno. Conhecimentos só podem nascer de circuntâncias que os homens produziram, o que, diga-se de passagem, Marx sabia. O que ele não sabia, tampouco Sartre, é que não há nada por detrás, nem um projeto de avançar para o socialismo, nem a existência como essência do homem.
Foucault não pretende que uma ideologia deva servir à revolução de que classe for. Não há revolução de classe que acabe com as diferenças, com ciências que marcam e classificam, como a psiquiatria. As transformações históricas não têm uma causa geral ou única. Foucault não negou a história, ele mostrou que a história pode ser vista de outra forma. Ele não foi um antihumanista, ele foi o cartógrafo dos saberes que permitiram o surgimento da figura do homem como alguém vivo, que trabalha e fala. Essa figura é recente. Se pensarmos no modo como Platão, por exemplo, via o homem – alma imortal presa a um corpo, e como nós hoje nos pensamos, e como certos saberes nos produziram como seres finitos, sujeitados a normas , a técnicas, a ciências, nada disso nos “humaniza”, tudo isso nos tiraniza.
Na entrevista em que Foucault, com 38 anos, rebate a acusação de Sartre de que ele despreza a subjetividade e o humanismo (um dos escritos mais difundidos de Sartre chama-se , aliás, O existencialismo é um humanismo), Foucault responde: o esforço feito pela nossa geração não é o de reivindicar o homem contra o saber e contra a técnica, mas o de mostrar que nosso pensamento, nossa vida, nosso modo de ser, até o mais cotidiano, fazem parte da mesma organização sistemática, dependem das mesmas categorias que regem o mundo científico e técnico.
O que ele quis dizer com isso? O homem não tem uma essência pura, ele não está salvo se o livrarmos dos condicionamentos. Em nossa época predominam os saberes técnicos, das várias ciências, a tecnologia. DNA, exames, testes, diagnósticos, controlar, produzir, empreender, obter sucesso, comunicar -, é isso que nossa “humanidade” carrega.

Gabriel Garcia Marquez nos tempos do Alzheimer

Esse ano recebemos uma triste notícia sobre um dos maiores escritores da América Latina.

Gabriel Garcia Marquez sofre de demencia senil, doença popularmente conhecida por Alzheimer. Seu irmão e também escritor Jaime Garcia Marquez informou que existe na família o histórico dessa doença, e Gabriel Garcia Marquez  começou a apresentar sintomas de demência senil em 1999, quando teve um câncer linfático e hoje a doença se encontra em estado mais avançado.

Com 85 anos, nascido na cidade Aracata (Colômbia), Gabriel Garcia Marquez entrou para a história da literatura mundial do século XX após publicar obras que demonstram a qualidade narrativa e criativa do autor. Gabo também é um importante ativista político Colombiano, tendo ele estudado ciencia política quando jovem e abandonado o curso sem conclusão.

Difícil não pensar sobre os sintomas da velhice ao receber uma notícia como esta sobre um autor que descreveu tão bem sobre essa fase da vida adulta.

Em O Amor nos Tempos do Cólera (El amor en los tiempos del cólera”) publicado quando ainda era jovem em 1985,  Gabriel Garcia Marquez conduz os leitores a sentirem os anos passarem ao acompanhar a história de Florentino Ariza que carrega consigo durante meio século  o amor puro, e as vezes até doentio que sente por Firmina Daza.

Particularmente, senti angústia em diversas passagens ao ler O Amor nos Tempos do Cólera, principalmente por sentir um autor detalhista, intrigante e que leva aos extremos o seu método descritivo na narrativa, e atribuo a este método descritivo a grandiosidade dessa obra. É possível acompanhar as transformações não só comportamentais como também biológicas dos personagens. Cinquenta anos de amor em O Amor nos Tempos do Cólera, significam cinquenta anos de angústias do coração. Cinquenta anos que se passam na vida dos personagens e são acompanhados dia após dia pelo leitor que se depara com a descrição sobre o que nos tornamos em determinada fase de nossas vidas: carne morta. Como disse um de seus personagens sobre a velhice “um dia na vida a mais, não é um dia a mais e sim um dia a menos”.

Principais obras de Gabriel Garcia Márquez:

– Relato de um náufrago – 1955 – Ninguém escreve ao coronel – 1961 – Cem anos de solidão – 1967 – A última viagem do navio fantasma – 1968 – Entre amigos – Um senhor muito velho com umas asas enormes – Olhos de cão azul – O outono do Patriarca – Crônica de uma morte anunciada -1981 – O verão feliz da senhora Forbes – O Amor nos tempos do cólera – 1985 – O general em seu labirinto – Doze contos peregrinos – 1992 – Do amor e outros demônios 1994

Simone Beauvoir, “Como se explicam os transes”?

Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Zélia Gattai e Jorge Amado com Mãe Senhora, em Salvador, Bahia. Agosto, 1960. Foto: Fundação Casa de Jorge Amado.

O trecho abaixo é parte das reflexões que Simone de Beauvoir fez  sobre a cultura brasileira durante sua visita e pode ser lido na íntegra em A Força das Coisas.

Extraído do blog de Regina Miraaz http://avecbeauvoir.wordpress.com/ o qual recomendo a visita.

“Por duas vezes o carro nos levou, à noite, através daquelas montanhas-russas que são os subúrbios da Bahia, até casas longínquas onde rufavam tambores. (…) Durante uma das festas, uma jovem negra estava terminando o ciclo de iniciação. Com a cabeça raspada, vestida de branco, tremia ligeiramente, com o olhar fixo no invisível, ao mesmo tempo presente e distante, como meu pai em sua agonia. No fim, entrou em transe, partiu e voltou transfigurada por uma alegria misteriosa.

Fiz a pergunta clássica: ‘Como se explicam os transes’? Só a mãe de santo tem o direito de simulá-los, para facilitar a descida dos orixás: e me pareceu que uma das duas usou realmente dessa permissão. Todos os observadores estão de acordo em afirmar que as outras não trapaceiam, e u não tinha dúvidas disso: tanto para elas quanto para o espectador, sua metamorfose era uma surpresa; elas também não pareciam neuróticas nem drogadas: as velhas, sobretudo, irônicas e alegres, chegavam ao candomblé com todo seu bom senso cotidiano. E então? Vivaldo [da Costa Lima], muito claramente, e Pierre Verger, com menos franqueza, falaram de intervenção do sobrenatural. [Jorge] Amado e todos os outros confessavam-se ignorantes. O certo é que esses fatos nada têm de patológico, mas são de ordem cultural; encontramos experiências análogas em todos os lugares onde indivíduos estão divididos entre duas civilizações. Obrigados a se dobrarem ao mundo ocidental, os negros da Bahia, outrora escravos, hoje explorados, sofrem uma opressão que chega a lhes tirar a posse de si mesmos; para se defenderem, não lhes basta preservar seus costumes, suas tradições e suas crenças: eles cultivam as técnicas que os ajudam a se arrancar, através do êxtase, da personagem mentirosa na qual foram aprisionados; no instante em que parecem perder-se é que se reencontram: eles são possuídos, sim, mas por sua própria verdade.  O candomblé, se não transforma os seres humanos em deuses, ao menos, através da cumplicidade de espíritos imaginários, restitui a humanidade a homens rebaixados à categoria de rebanho. O catolicismo lança os pobres de joelhos diante de Deus e de seus sacerdotes. Pelo candomblé, ao contrário, eles experimentam essa soberania que todo homem deveria poder reivindicar. (…) O momento supremo de sua vida individual – quando, de vendedora de bolos ou de lavadora de pratos, ela se transforma em Ogum ou Iemanjá – é também aquele em que a filha-de-santo integra-se mais estreitamente em sua comunidade. Poucas sociedades oferecem a seus membros oportunidade semelhante: realizar sua ligação com todos, não na banalidade cotidiana, mas através daquilo que se experimenta de mais íntimo e mais precioso”.

Simone de Beauvoir, A Força das Coisas. Tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010. pp. 563-564.

por Paul Klee e Walter Benjamin

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus.

Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente.

Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.

O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado.

Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.

Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.

Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.

Tradução de Sergio Paulo Rouanet (in Obras Escolhidas, Brasiliense, 1994)

Homenagem: Maria Lacerda Moura

Hoje, Maria Lacerda de Moura, é nome de uma rua no Rio de Janeiro e de uma escola pré-escola na periferia de São Paulo, sinais de um reconhecimento oficial da personagem que representa. Tem uma tese de doutorado sobre sua trajetória pessoal, na Universidade de São Paulo e múltiplas referências em outras. Alguns outros trabalhos estão sendo elaborados comparando sua atuação à de outras anarquistas contemporâneas e aprofundando a análise de sua obra como educadora.

Não é mais a autora silenciada pela imprensa e pela academia ou difamada e incompreendida pelos contemporâneos. Não está mais numa posição isolada e singular na galeria dos rebeldes sociais.

É chegado portanto o momento de reavaliar a sua contribuição, agora que os Estudos sobre a Mulher ganharam um estatuto respeitado dentro e fora das Universidades. Não se trata mais de tirá-la do ocultamento e dos malentendidos, tnas de reexaminar seus escritos, verificando até que ponto eles admitem releituras, com o instrumental da crítica social feminista aguçada e desdobrada nas últimas décadas.

O que se destacou primeiramente nesta releitura foi a persistência do discurso espiritualista e teosófico. Nem os estudiosos de história política das primeiras décadas do século XX, nem os estudiosos do anarquismo assinalaram devidamente essa persistência que se prolonga dos primeiros escritos, ainda em Barbacena (1918) até a última conferência, pronunciada na fraternidade Rosa Cruz do Brasil, no Rio de Janeiro (1943).

Como os estudos foram realizados durante os anos de chumbo da repressão militar (1964 – 1984), as dimensões políticas destacaram-se na caracterização da rebeldia da escritora, vista como divulgadora social intermediária, entre a revolta e a revolução. Os contornos políticos de sua aproximação dos anarquistas e comunistas na década de 20 e seu pioneirismo nos escritos antifascistas tiveram uma ênfase incompatível com a extensão cronológica dessa atuação. Essa aproximação durou desde sua mudança para São Paulo, em 1921, até a dissolução da comunidade de Guararema, em 1935, em publicação na imprensa, em panfletos e livros e continuaram vivas na correspondência com D. Albina Moreira Lima de Barbacena entre 1938 e 1943.

Concorreu para essa desatenção ao teor espiritualista e teosófico na obra as rupturas sucessivas e públicas da escritora com os diferentes grupos tanto políticos quanto espiritualistas, que interromperam todas as alianças que teve. Talvez também tenha havido, da parte dos estudiosos anarquistas e académicos, um despreparo para lidar com o simbolismo, os enunciados e o encadeamento definidores do universo discursivo da Autora.

Sua independência, recusando explicitamente deixar de pensar por si mesma, fez com que suas relações com os anarquistas (muitos dos quais aderiram ao partido comunista a partir de 1922), dela se afastassem quando, numa conferência elogiou o programa educacional de Lunatcharsky adotado na União Soviética que, a essa altura já estava eliminando os antigos aliados de
seus quadros. O individualismo declarado de Maria Lacerda de Moura, em contraste com seus ideais de fraternidade, dificultava a continuidade de suas alianças tanto entre educadores, como na Sociedade Teosófica, na Federação Brasileira da Mulher, como no Comitê Feminino contra a Guerra.

Muitos anarquistas e homens de esquerda aliavam o misticismo à atuação política na década de 20. Mas para os comunistas, que abafaram os antigos aliados, ao escrever uma história dos vencedores da esquerda, o horizonte se fechara de uma doutrina socialista internacional para um nacionalismo estreito e a religião, como ópio do povo, passara a ser reacionário, colocado no campo inimigo.

Todos esses dados conjunturais conformam a incompreensão que pairou sobre a figura controvertida de Maria Lacerda, que não dispensa uma reflexão sobre a influência de Helena Blavatsky (Rússia 1831 – Madras-Londres 1891) e Annie Besant (Londres 1847 – Madras 1933). Essas influências auxiliam a focalizar a ligação entre o espiritualismo e a emancipação da mulher, a aliança entre Ciências Ocultas e o Neo-Maltusianismo.

Os sonhos de uma fraternidade de iguais, sem distinção de sexo, cor e classe, acalentados através da resistência passiva, da desobediência civil e de recursos à não violência, que renasceram com os hippies da década de 60, tiveram suas maiores expressões nas obras de Tolstoi e Gandhi, figuras a que Maria Lacerda de Moura acrescentava a de Cristo.

Vêm das obras desses “mestres” as raízes das idéias pacifistas de Maria Lacerda, que contrastam com o estilo agressivo e precioso com que enfrentou a desqualificação ou a incompreensão de suas idéias no ambiente brasileiro. Os três artigos intitulados “Guerra à guerra!” publicados em O Combate (SP) de 19/11/1927, 20/12/1928 e 2/11/1935 completam a denúncia feita nos intitulados “De Admundsen a deI Prete” (1928) sobre a infiltração fascista na imprensa e nas escolas , difundindo a violência e conduzindo à guerra que iniciada na África, se transformaria na Segunda Guerra Mundial (1 939-1 945). Expressou também suas idéias pacifistas e as ações diretas que as mulheres poderiam exercer no livreto Serviço Militar Obrigatório para a Mulher! — Recuso-me! Denuncio! em resposta à mobilização feminina que estava-se difundindo e chegou ao Brasil por ocasião da chama Revolução Constitucionalista de 1932. Esses anos da ascensão e do avanço do fascismo por todos os países foram acompanhados pela Autora por livros contundentes como Clero e Fascismo — horda de embrutecedores (1934) e Fascismo, filho dileto da Igreja e do capital (s/d) que desdobram as conseqüências trágicas do caminho para a guerra.

Quando no início da década de vinte sugerira a introdução do estudo de História das Mulheres nas escolas femininas, Maria Lacerda de Moura não imaginou que somente sessenta anos depois é que haveria condições para que essa historia viesse a ser formulada. As classes mistas ainda não existiam nas escolas. Um segredo tácito cercava as relações sexuais e familiares, assegurado pelo isolamento das mulheres em suas casas, ocupadas pelos trabalhos estafantes, pela procriação anual e pelas ameaças e flagelos sociais. Ao levantar essa cortina de silêncio e tratar da vida privada como questão política e pública, passivel de análise e transformação (como só se viria a fazer depois da década de 70, quando os movimentos feministas estimularam o desenvolvimento dos Estudos sobre a Mulher) denunciou as mentiras convencionais que cercavam os conflitos, as relações de poder e seus abusos, a violência e a exclusão dentro das famílias de camadas sociais médias. Sua defesa da maternidade consciente e do amor plural não só a colocaram em oposição aos preceitos de obediência e submissão impostos secularmente à mulher, como puseram sob suspeita a seriedade de sua obra. O planejamento familiar continua sendo uma afronto à sociedade e as mulheres que ousam discutir a sexualidade e o amor ainda são vistas com ambigüidade e desconfiança.

Quando denunciou a dupla moral vigente para os homens, enquanto aprisionava as mulheres em casamentos monogâmicos contratados por interesses econômicos, fora dos quais ficavam excluídas socialmente como solteironas ou prostitutas, atribuia diretamente à família burguesa esses desequilíbrios sociais.

Tendo verificado que a paz era um meio para o preparo eficaz da guerra, ou, em suas palavras “para a. crueldade organizada sadicamente dentro da lei” convenceu-se de que a vida só poderia ser vivida integralmente dentro da liberdade e do amor à natureza, cada qual, em harmonia consigo mesmo. Como sentia a civilização e a vida urbana como uma corrida feroz de exploração dos fracos, através de preconceitos e privilégios, em que as pessoas tornavam-se cúmplices das infâmias do Estado, inclusive as guerras para sustentar malfeitores’, acabou achando que cada um só pode educar a si mesmo, pois “as palavras são deturpadas entre os lábios e os ouvidos e dos ouvidos para os lábios”.

Nesta posição, considerada por alguns contemporâneos como uma pertubação mental e por outros como uma forma de alienação da sociedade, deixou implícita a crise dos paradigmas das Ciências Humanas, que passaram a desconstruir não só os conceitos formulados, como as disciplinas estruturadas, para buscar o conhecimento no universo do discurso.

Essa foi a fundamentação de sua retirada para a comunidade de Guararema, em companhia de objetores de consciência da Primeira Guerra Mundial, italianos, espanhóis e franceses. Viveu ai até 1935, quando as medidas repressoras de Getúlio Vargas, vieram dispersá-los, prendendo uns e deportando outros, e deixando Maria de Lacerda novamente só, diante de seu universo.

NOTA: O ensaio acima foi especialmente preparado para o Anuário 96/97 da ABL (SP ,27-8-1996). Miriam Lifchitz Moreira é Historiógrafa Doutora do Centro de Apoio à pesquisa em História da USP. Em 1984, lançou pela Editora Ática sua tese sobre MLM com título de “Outra Face do Feminismo: Maria Lacerda de Moura” num total de 171 pp.

Matéria extraída do site http://recollectionbooks.com/