Arquivo da categoria: Saindo das prateleiras – leituras e reflexões

Os Bruzundangas, de Lima Barreto

Lima Barreto

Estou de volta com mais uma dica de leitura. Sem dúvida o melhor livro que já li. Todas as vezes que termino um livro faço essa mesma afirmação, segundo uma amiga.A gente sempre se surpreende lendo, e com Lima Barreto não poderia ser diferente.
Uma palavra para definir esse livro: genial!

Encontrei pouco material sobre essa obra em fontes de pesquisa.
Então, aí vai a minha contribuição.

Importante o leitor ficar atendo a todas as características que compõe a sociedade e o corpo político da Bruzundanga; qualquer semelhança com o Brasil, não é mera coincidência.

Lima Barreto faz claras referências às características do Brasil quando descreve Bruzundanga que possui uma sociedade marcada pela tradição e as relações sociais são, antes de tudo relações de poder, e o poder é concedido pela corte através de títulos de nobreza aos que compõe os ministérios. O cenário político é corrompido desde a sua formação e o status vale mais que qualquer moeda. A exemplo, o autor menciona que os filhos dos ministros iam estudar medicina na europa, mas “quando vão estudar medicina, não é a medicina que pretendem exercer. Não é curar, não é ser um grande médico, é ser doutor“. (p.17).

Os samoiedas

O narrador inicia por apresentar a corrente literária de Bruzundanga, denominada por Escola Samoieda.
Os Samoiedas, assim como o exemplo dos médicos, não estão preocupados com a arte literária, e sim com os títulos que as letras dão. E sustentavam que a escola nasceu do poema de um príncipe samoieda que se chamava Tuque- Tuque Fit-Fit, descrito por sua beleza sem par, o príncipe na verdade pertencia a um mito e poucos ousavam contestar a lenda.
Sobre os bruzundanguenses;”não há como discutir com eles, porque todos se guiam por idéias feitas, receitas de julgamentos, e nunca se aventuram a examinar por si qualquer questão, preferindo resolvê-las por generalizações quase sempre recebidas de segunda ou terceira mão, diluídas e desfiguradas pelas sucessivas passagens de uma cabeça para outra cabeça“. (p.19). Os Samoiedas de todos os postiços literário usava, e de todas as mesquinharias da profissão abusava.
Sobre a arte como ciência, proposta por eles, era na verdade enfadonha, falsa, sem talento e forçosamente requintada. “Era este de fato um samoieda típico no intelectual, no moral, no físico. Tinha fama”.

O grande financeiro

A República dos Estados Unidos da Bruzundanga era, assim como outras Repúblicas, composta por um presidente, juízes, senado e uma câmara dos deputados – ambos eleitos por sufrágio direto e temporário. As característica econômicas da Bruzundanga era de um país que “de cinquenta em cinquenta anos descobria-se nele um produto que ficava sendo a sua riqueza“. Os governos taxavam-no até não mais poder, de modo que os países rivais, mais parcimoniosos na decretação de impostos sobre os mesmos produtos, acabavam na concorrência, por derrotar a Bruzundanga”. Daí vinha que a grande nação vivia aos solavancos, sem estabilidade financeira e econômica; e por isso mesmo, dando campo a que surgissem financeiros de todos os cantos e sobretudo no parlamento. Um certo deputado, de oratória muito boa, havia proposto um engenho financeiro para cobrar impostos diretos e indiretos, e como o caixa da Bruzundanga vivia limitado, a proposta foi bem aceita no parlamento.
Conhecido pelo título de doutor (mesmo sem saber ao certo se este era médico, advogado ou dentista), o doutor Karpatoso citava em seus discursos com sólida erudição influências do estrangeiro. A exemplo, o russo polaco Poniatwsky, o australiano Gordo O’Neill, o chinês Ma-Fi-Fu, o americano Willian Fartching e o doutor Caracoles y Mientras da universidade de Caracas. Quanto mais conhecido se tornava Kapartoso, mais movimentada se tornava sua casa.
Para custear os comes e bebes das festas e jantares oferecidos em seu salão, o doutor colocou alguém de sua confiança para vender ervas no centro da cidade. Logo, tournou-se o maior forncedor dos feiticeiros da cidade. O jornal Diário Mercantil publicava notícias sobre os trajes e a elegância do deputado.

Será uma crítica a figura do Marques de Pombal, ministro das relações exteriores do Brasil?
Ao que tudo indica, sim.

A nobreza da Bruzundanga

O governo da Bruzundanga manda imprimir livros destinados a fazer propaganda do país no estrangeiro, e muita gente ganha fortuna e notoriedade com isso. Entretanto tais livros não podem ser encontrados facilmente, mesmo sendo distribuídos pelo governo, mas são inescrupulosamente mofinas e escandalosamente mentirosos a ponto de não despertar qualquer interesse para os sebos revenderem, pois não haveria quem os comprasse.
A nobreza da Bruzundanga é constituída pelos doutores da medicida, do direito e das engenharias. “Lá o cidadão que se arma de um título em uma das escolas citadas obtém privilégios especiais, algumns constantes das leis e outros consignados nos costumes. O povo mesmo aceita esse estado das coisas e tem respeito religioso pela nobreza de doutores”. A formatura é dispendiosa e demoradas, o que limita o acesso aos pouco afortunados. O título de doutor tem o efeito do dom, na Bruzundanga.
Im coronel formado deve ser de doutor coronel, pois este possui um duplo título de nobreza que deve se antepor ao nome.
No que tange as leis, o doutor tem prisão especial, em qualquer tipo de crime e “tendo crescido o número de doutores, eles, os seu pais, sogros e etc. trataram de reservar o maior número de lugares no Estado para eles”. A pesar do prestígio, a verdade é que os cursos que formavam estes jovens eram medíocres. Entretant, “há nessa nobreza doutoral uma hierarquia como em todas as aristocracias”.

A outra nobreza da Bruzundanga

Aqueles que de alguma forma tiveram alguma sorte afortunando-se, e que porém não possuíam títulos de doutores, viajavam para a europa e voltavam príncipes. Uma anedota para ilustrar: Certo dia, um homem que se chamava algo parecido com Ferreira, ao retornar da europa foi visitar as terras da sua família, que há muito estavam abandonadas. Um empregado antigo da família ao aproximar-se do homem e trataá-lo como nos tempos em que este era um menino e ser reprimido pelo prícipe responde “_ Qual o quê nhonhô, Vancê não pode ser príncipe. Você não é filho de imperadô”. Outros títulos seguem o mesmo exemplo: condes, duques e marqueses. Esses títulos apareceram desde que a Bruzundanga se tornou República, mas para a massa esses títulos não fazem efeito como os títulos dos doutores. Mas na elite, na nata, nesta sim faz diferença.
“Os costumes daquele longínquo país são assim interessantes e dignos de acurado estudo. Eles têm uma curiosa mistura de ingenuidade infantil e idiotice cenil”. (p.48).

A política e os políticos da Bruzundanga

A Bruzundanga possui uma rica diversidade natural, e porém sua economia é falsa e artificial nas suas bases, pois vive de expedientes. As regiões ficam resumidas à miséria após perder o selo de polo econômico para outra rgião. Os políticos acrfeditam que são de carne e sangue diferente do resto da população, fazendo um valo de separação e distinção cada vez mais profundo. Na Bruzundanga “não há cidadão ateu ou materialista, que ao se casar com uma moça rica não se torne católico apostólico romano”, e isso reflete o papel da igreja nas relações sociais daqueles que aspiram poder. Os bispos, padres e irmãs ajudam quem deseja a conquistar desejos, veleidade e pretenções com suas influências. As irmãs por exemplo, ajudam um moço com pretenções de um bom casamento a se aproximar das filhas de homens ricos que estão sob seus cuidados. Dizem que estas freiras foram as principais inimigas da abolição, e tendo as filhas dos deputados e senadores aos seus cuidados, exerceram grande influência na política escravocrata. Os políticos não tratam dos problemas da população, mas tratam de garantir a perpetuação do poder e riqueza dos seus descendentes. “Não há lá homem influente que não tenha pelo menos trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá políticos influentes que não se julguem com o direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos primos gordas pensões pagas pelo Tesouro da Republica”.
Os chefões políticos oprimem a população rural, deixam os latifúndios abandonados e a população na pobreza.

As riquezas da Bruzundanga

Os poetas e os músicos da Bruzundaganga costumam exaltar a riqueza proporcionada pela diversidade natural do país, porém essa riqueza é extraída para atender as demandas externas, e quando finda um determinado comércio, finda também a extração das matérias primas em determinadas regiões, que ficam a esmo. Sua população lançadas às mais terríveis sorte da miséria.
O café representa uma ambiguidade; é tido por ser a maior fonte de riqueza da Bruzundanga, mas é também a sua maior fonte de pobreza. “O café é o maior mordedor da Bruzundanga”. A cultura do café é a base da oligarquia política que domina a nação. O preço é fixado por ela mesmo, pois muitas vezes esta mesma oligarquia compõe os representantes do Estado.Não somente o café é fonte de riqueza, como o latéx também. Extraída em grande quantidade, porém em terras úmidas e excassas. As´populações que habitam áreas de extração de latéx nos seringais tendem a contrair doenças endemicas. Isso encarece a borracha, e as altas taxas tornou possível construir grandes palácios fossem, que simbolizam a fortuna de poucos. Porém os ingleses plantaram as seringueiras e pacientemente esperaram para extrair o latéx. Com taxas menores e seu plantio em regiões menos escassas, tornaram-se os grandes exportadores, acabando com o expediente na Bruzundanga. E novamente a riqueza virou pobreza.

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Dica de leitura: O Diabo Coxo (El Diablo Cojuelo), de Luis Veléz Guevara

Lançado em 1641, O Diabo Coxo trata-se de um discurso, como prefere ser chamado pelo autor, Luis Velez de Guevara.O livro não está repartido em capítulos, mas em trancos, por se tratar das peripécias do diabo.

o diabo coxo

Dom Cleófas Leandro Pérez Zambullo, estudante, fidalgo, galã (e outros adjetivos atribuídos pelo narrador), andava fugido da justiça pelo crime de estupro o qual não havia cometido. Pelos telhados de Madri com um escudo na mão, o estudante perambulou até encontrar por acaso a morada de um astrólogo, onde por curiosidade começou a “remexer os trastes astrológicos” e escutou alguns suspiros, e ao questionar quem mais estava ali, uma voz afirmou ser espírito mais travesso do inferno, um demônio grande e o mais celebrado dos dois mundo. O tal diabo estava preso na redoma, em um árgel de vidro durante mais ou menos dois anos em poder do astrólogo.
O demônio afirmou não ser Lúcifer , pois esse é o demônio das beatas e escudeiros, também não era Satanás , pois esse é o demônio de alfaiates e açougueiros, também não era Belzebu que é o demônio dos jogadores, amancebados e carroceiros, e por fim, também não era Barrabás, Belial, Belial ou Astorat, pois esses demônios tratavam de coisas maiores. O demônio era então, as pulgas do inferno, a fofoca, a confusão, a usura, a fraude que trouxe para o mundo a algazarra, a chacota, inventou as pandorgas, os comas, as marionetes, os saltimbancos. Esse pobre diabo, teria sido o primeiro dos que se levantaram na rebelião celestial e dos primeiros que caíram, portanto tendo sido o que mais ficou assinalado pelas mãos de Deus e pelos pés dos outros diabos, pois depois muitos outros caíram por cima dele, deixando-o todo estropiado e coxo, mas não por isso menos ágil.
Pediu a liberdade a Dom Cleófas, oferecendo em troca a sua amizade com as suas imperfeições boas e más. Ao quebrar a redoma, o jovem viu o líquido que estava no vidro esparramar-se pelo chão e logo um homenzinho pequeno de muletas estava posto a seu lado, “cheio de galos, com o nariz achatado, a boca grande com duas presas sem nenhum outro dente nas desertas gengivas e bigodes ouriçados; seu cabelo era ralo, um aqui outro ali, pareciam aspargos, legume tão inimigo da companhia que, que só se juntam quando é para vê-los em punhados”. (p.20).
Logo, o diabo tratou de cumprir a promessa que havia feito a Dom Cleofas, e os dois se viram livre da morada do astrólogo, e também da região a qual o estudante fugia de seus perseguidores. O relógio de Madri marcava uma hora, momento do toque de recolher e do sono. No plano mais alto da cidade estavam os dois; jovem e diabo, e iniciara nesse momento a brincadeira do diabo que propôs apresentar a Dom Cleófas tudo de mais notável que acontece na cidade espanhola;“levantando-se o telhado dos edifícios, por arte diabólica, descobriu-se a carne do pastelão de Madri como estava então; pelo muito calor, estava com menos persianas, e havia ‘tanta variedade de bichos racionais nesta arca do mundo, que a do dilúvio, comparada com ela, foi suave brincadeira”. (p.21).
O teatro onde tantas figuras representa começava a ser despido e narrado pelo diabo com sarcasmo, ironia e ainda assim, muita graça, como “aquele que se preza lindo, ou aquele lindo dos mais apreciados , como dorme com bigodeira, creme nas mãos e luvas; tem tanta porcaria no rosto que daria para fazer refeições para toda a quaresma que vem”, ou aquele rinoceronte com camisa de mulher a quem “não somente a cama fica estreita, como também a casa e Madri”. O diabo coxo se diverte em seus comentários, observa que este homem era de muitas propriedades, e havia construído uma capela para seu enterro, acreditando que dessa forma iria direto para o céus, “apesar de que mesmo que ponham uma garruchada na estrela de Vênus e uma alavanca para Sete Cabritinhas, será impossível que ele suba para lá esse tonel.” (p.25). Observam as pessoas com suas mais íntimas vaidades, manias e mentiras que agora se apresentam em suas verdades. O alquimista tentando a mais de dez anos transformar o pó em ouro, o fidalgo a caminho de casa (que despido, com tantos defeitos, deveria ir para a cova e não para a casa), os ladrões noturnos, as donzelas “santas” que possuem dois amores, o mentiroso que quando dorme, sonha dizer a verdade. Ao fim da noite, Dom Cleófas e o Diabo Coxo desceram para as ruas de Madri, vendo na corte aquele cozido humano, fervendo para cima e para baixo, “ (…) travando-se a batalha do dia, cada um com desígnios e negócios diferentes, e pretendendo enganar uns aos outros, levantando-se uma nuvem de mentiras, e não se descobriria uma pisca de verdade por um olho de cara”. (29).
Enquanto o jovem e o diabo pararam as andanças para comer em uma taverna, o astrólogo se lamentava pela fuga do seu diabinho, e no inferno uma comissão havia sido convocada por Satanás para encontrar o coxo e ordenou que Cem- chamas (Hispa e Redina) o prendessem em qualquer lugar que fosse encontrado, e assim a alta vara do inferno segue em busca do diabo. Dom Cleófas e o Diabo Coxo estavam sendo procurados, o primeiro pela família da moça o qual supostamente havia desonrado (outros antes dele o haviam feito, porém sobrou ao último o castigo), e o diabo por ter fugido do astrólogo e andar perambulando pelo mundo. Nenhuma gente humana poderia se meter com os demônios, e os que ousavam iriam acertar as contas no inferno. Tipos destes eram os poetas cegos, que versavam contra os demônios, e as beatas, que não há no mundo gente que não as queira mal; são espécies de diabas fêmeas na terra.
No tranco XII, o estudante observa uma caravana, denominada pelo diabo por “casa da Fortuna”, a caminho da Ásia Maior para assistir a batalha campal entre Mogor e o Sofi. Na caravana que se segue, estão os oficiais da boca (cozinheiros, garrafeiros, despenseiros, e demais canalhas que tocam a bucólica), estão os da armada (quatro ventos e os arpões em uma torre), e os lacaios da Fortuna, “que são um dos maiores engenhos que já teve o mundo”, entre eles estão Homero, Píndaro, Virgílio, Ovídio, Horácio, Síilio, Lucano, Claudiano, Estácio Papínio, Juvenal, Marcial, Catulo, Propércio, Petrarca, Sannazaro, Tasso, Bembo, Dante, Guarino, Ariosto, Juan de Mena, Castillejo, Gregório, Garci, Camões e que foram em diferentes províncias os Príncipes da Poesia. O estudante observa que estes, cresceram pouco, pois não passaram de lacaios da poesia. Enquanto o esquadrão brilhante que carrega as jóias de diamantes é composto pelos homens mais ricos, príncipes e grandes senhores do mundo, estes são puxados não por mulas e cavalos, mas pelos mais antigos filósofos. Observa-se passar a Mudança, que oferece muitos papéis de casamentos e não cumprindo nenhum, a Beleza, dama de preto, sem jóias que se segue chorando. A Inveja que persegue a anterior, com um vestido de palha, bordado de basiliscos e corações. A Ambição, que parece prenha. A Avareza coberta de ouro, e logo a Usura, a Fraude, a Fofoca, a Soberba e a Invenção, donas da Fortuna, seguem com toucas compridas e óculos sobre minotauros. Ladroes, trapaceiros, astrólogos, espiões, hipócritas, passadores de moedas falsas, casamenteiros, noveleiros, corredores, gulosos e bêbados seguem à frente destas últimas com tochas iluminando seus caminhos. A esquadra de selvagens é composta pelos contadores, tesoureiros, historiadores, letrados (correspondentes, agentes da Fortuna). Atrás deles, exibindo troféus carregados por Pitágoras, Diógenes, Aristóteles, Platão e outros filósofos. As vozes da algazarra encerra esse esquadrão, com os dançarinos e atores. E assim dois forasteiros; o estudante e o diabo, seguem observando o mundo, os príncipes, os condes, os acadêmicos e os poetas, com Cem-chamas (Hispa e Redina) no rastro deles.

Certamente esse discurso, não se trata apenas de uma comédia, é antes, uma crítica aos costumes e à moralidade que conduzem o grande teatro das relações sociais. Quando um mundo de aparências é despido, pode causar enjoos até ao próprio diabo ao ver “estes canalhas que nasceram para desacreditar a natureza”.

Fica aí, uma bela dica de leitura.

O caso da Vara, Machado de Assis

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O conto O Caso da Vara, publicado no jornal Gazeta de Notícias em 1891, apresenta alguns aspectos do Brasil oitocentista, no período imperial e escravocrata. Damião é o personagem central, que foge do seminário que havia sido levado pelo pai. Recorre a casa da Sinhá Rita,para que através do seu padrinho João Carneiro interceda em seu destino, convencendo seu pai sobre a sua falta de vocação para o clero. Num plano secundário encontra-se Lucrécia, uma negra escrava, franzina de onze anos, que junto a outras escravas tomava aula de costura com a Sinhá, que coordena as escravas com rigidez. Observa-se que esta tarefa constitui a maior parte da renda da Sinhá Rita. Com a presença do jovem Damião, a pequena Lucrécia se atrapalha no trabalho, sendo condenada pela Sinhá à enfrentar à vara como punição.
A aflição do jovem que foge de um futuro indesejado é narrado com minúcias, entretanto, a aflição constante da escrava Lucrécia pode ser percebida desde os traços de maus tratos presentes em seu corpo mirradinho. Lucrécia, diferente das outras escravas, atrasou a entrega do trabalho, e a mesma Sinhá que estava disposta ajudar cordialmente o jovem rapaz, pede que este busque a vara para castigar a pequena escrava. Mesmo o narrador demonstrando que de alguma forma Damião estava escandalizado com o que via, num dilema entre o seu futuro e o da escrava, o jovem pega a vara e entrega a Sinhá Rita,em consideração a sua benevolência para com ele.

Vemos aí três personagens em um cenário de dominação, onde a Sinhá Rita apresenta características contraditórias entre ajudar um pobre rapaz condenado a um futuro indesejado, e por outro lado punindo a pequena escrava por motivos menores. Levando em consideração o momento histórico do conto, creio que este trata-se de mais um conto o qual Machado de Assis trata com ironia os “bons costumes” presentes na sociedade.

Afonso Henriques de Lima Barreto

lima barreto

Mulato, filho de negros escravos Lima Barreto era libertário por essência.
Porque estou escrevendo sobre ele? Porque ao terminar de ler A Moreninha de Joaquim Manoel Macedo, remexi minha biblioteca e encontrei um fantástico livro de crônicas de Lima Barreto, e estou lendo desde ontem a noite com o propósito de terminá-lo ainda hoje até o anoitecer. Encontrei um Lima Barreto humano e ácido, manifestando-se contra os interesses aristocráticos e militares. Nesse livro é possível também observar as características do subúrbio do Rio de Janeiro no início do século já com fortes indícios de desigualdade. Desigualdade presente também no sistema educacional, onde o acesso à vagas para mulheres eram limitadas. Lima Barreto discorre sobre esse e outros aspectos sociais que o incomodavam e pelo que percebi, os jornais de hoje carregam as mesmas características de alguns jornais do passado, com comentários “negros” como lembra Lima Barreto, “isso porque no Brasil ninguém quer ser negro”.

Um dos críticos mais importantes do seu tempo, e por incomodar a aristocracia e os militares, teve uma vida tumultuada passando inclusive por alguns sanatórios, tido como louco.

Lima Barreto deu entrada pela primeira vez no Hospital Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, na Urca, na então capital federal, em 18 de agosto de 1914. Aos 33 anos, transtornado e com alucinações supostamente provocadas pelo abuso do álcool, ele teve que ser detido e levado na camisa de força, a pedido de seu irmão”. A esta altura, já havia publicado em livro Recordações do escrivão Isaías Caminha. Editado em Portugal, em 1909, o romance sobre um rapaz do interior do Rio que vinha tentar a sorte na capital, acaba por trabalhar na imprensa e se depara com os maneirismos, trejeitos e vícios do nosso jornalismo, é recebido por um silêncio estrondoso, que incomoda o jovem escritor e jornalista“. (informações do livro Diário do hospício e Cemitério dos Vivos (Cosac Naify, 2010)

Os sinais da sua conhecida posição de rompimento com o nacionalismo ufanista ficam evidentes na crônica O Caso do Mendigo, quando ele finaliza “De resto, ele era espanhol, estrangeiro, e tinha por dever voltar rico. Um acidente qualquer tirou-lhe a vista, mas lhe ficou a obrigação de enriquecer. Era o que estava fazendo, quando a polícia foi perturbá-lo. Sinto muito; e são meus desejos que ele seja absolvido do delito que cometeu, volte à sua gloriosa Espanha, compre uma casa de campo, que tenha um pomar com oliveiras e a vinha generosa; e, se algum dia, no esmaecer do dia, a saudade lhe vier deste Rio de Janeiro, deste Brasil imenso e feio, agarre em uma moeda de cobre nacional e leia o ensinamento que o governo da República dá… aos outros, através dos seus vinténs: “A economia é a base da prosperidade“. Bagatelas,1918.

Compartilho o link com todas as crônicas disponíveis para leitura.

http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/lima-barreto/o-caso-do-mendigo.php

A Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo

joaquim macedo

Primeiro romance da literatura brasileira, apresenta as aspirações sociais burguesas do século XIX.
Segundo Consuelo Albergaria Prado “o romance é instrumento de uma ideologia usada como meio de propaganda e afirmação de um grupo a serviço de uma classe em vias de formação”, e confesso, que a novela em sí não me surpreendeu e particularmente não me conduziu a uma leitura agradável, porém, considerando este o primeiro romance da literatura brasileira, escrito por Joaquim Manuel de Macedo ainda com vinte e três anos de idade, suas próprias palavras na introdução do livro, e somando estes fatores à possibilidade de observarmos “a classe em via de formação”, concluí a leitura e aqui estão meus comentários.
No texto introdutório, Joaquim Manuel Macedo afirma considerar a Moreninha sua filha, tendo ela mais três irmãos que logo seriam publicados. Embora A Moreninha possa se apresentar aos leitores, cheia de defeitos, e seu pai podendo inclusive ser acusado de não tê-la educado suficientemente conservando-a embaixo de seus olhos para que não se tornasse tão traquina, poderia o autor atribuir melhores qualidades diante de tantas críticas aos seus irmãos para corrigir suas imperfeições. Um conselho do pai à filha Moreninha: “E tu, minha filha, vai com a benção paterna e queira o céu que ditosa sejas: Nem por seres traquinas te estimo menos; e como prova, vou em despedida, dar-te um precioso conselho: recebe, filha, com gratidão, a crítica do homem instruído; não chores se com a unha te marcarem o lugar em que tiveres mais notável, senão, e quando te disserem que por este erro ou aquela falta não és boa menina, jamais te arrepies, antes, agradece, anima-te sempre com as palavras do velho poeta: Deixa-te arrepender de quem te ama, que ou te aproveita, ou quer aproveitar-te”.
Cada leitor pode fazer uma leitura diferente da mesma obra, espero que minhas críticas não sirvam de desmotivação para outros leitores, pois de qualquer forma, o livro é importante ser mantido enquanto clássico em nossa literatura, uma vez que cumpre o importante papel de apresentar um cenário histórico específico, que é a influência no Brasil do Romantismo que vigorara na Europa.
Publicado em 1844, A Moreninha apresenta as características que compõe as novelas que já conhecemos: mocinhos e mocinhas com virtudes que caracterizam o “modus vivendi” de uma regra social tida por ideal, personagens centrais que são compostos por todas estas virtudes e logo, compõe o romance central da novela. Por outro lado, figuras caricatas com defeitos, ou seja, características que não vão de encontro com as aspirações sociais daquele período. E por fim, a figura de uma senhora que seria a benevolência em pessoa, sendo de alguma forma a responsável pela afirmação dos “tipos ideais”, quando sua presença se torna respeitável pelo simples fato de corresponder à ordem vigente. Esta benevolência é aquela se transfigura no “cupido”que une o casal central, e torna o final feliz uma repetição dentro da repetição.
A exaltação do belo tendo como princípio o tipo brasileiro composto pela pele morena e cabelos negros em contraposição ao tipo europeu de pele e olhos claros, também é uma característica da influência que o romantismo promoveu no Brasil, uma vez que essa nova tendência visava romper com a tradição literária anterior. Como o Romantismo não se limita ao romance romântico, A Moreninha evidencia ainda, uma alta classe repleta de defeitos, namoros e fofocas. Algumas das inquietações intelectuais podem ser observadas nas falas de alguns personagens e eu particularmente gostei da passagem em que Fabrício descreve a moça a qual estava enamorado:
“Vocês com seu romantismo a que não posso acomodar, a chamariam de pálida. Eu que sou clássico de corpo e alma e que, portanto, dou às coisas seu verdadeiro nome, a chamarei sempre de “amarela. (…) Malditos românticos, que têm crispado tudo e trocado em seu crispar os nomes que melhor lhe exprimem as ideias!…O que outrora se chamava, em bom português, moça feia, os reformadores, dizem: menina simpática!…O que em uma moça era antigamente desenxabimento, hoje é ao contrário: sublime languidez! (…) a escola dos românticos reformou tudo isso, em consideração ao belo sexo. ”. Pg.25. Outro trecho que observo resquícios das inquietações no mundo das ideias:“ A bela senhora é filosofa! …faze ideia! Já leu Mary de Wollstonecraft” pg. 69. A referência aqui é a escritora inglesa que defendeu a igualdade de direitos entre homens e mulheres e melhor educação para as mulheres (1759-1797).
Sobre o estilo do autor, diria que é carismático ao narrar as aventuras dos jovens estudantes numa ilha, em uma casa cheia de moças, onde podemos “vigiar” o pensamento de alguns personagens. No auge dos seus poucos anos de vida, esses pensamentos não poderiam ser menos que engraçados. Quanto a Moreninha, personagem que intitula a obra, no final da leitura a perdoei por suas traquinagens em consideração o pedido do seu pai, na introdução. De fato a jovem mimada torna-se irritante com seus excessos, porém com tanta graça, ao mesmo tempo que irritante, torna-se apaixonante.

Fica aí, mais uma dica de leitura!

Os botões de Napoleão; As 17 moléculas que mudaram a história

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Escrito pelos químicos Penny Le Couteur e Jay Burreson, o livro propõem analisar fatos históricos pela perspectiva da química. Portanto, este não é um livro sobre a história de química; é antes um livro sobre a química na história.

Em Borizov (região no oeste da Rússia) um observador descreveu o exército francês como “uma multidão de fantasmas vestidos com roupa de mulher, retalhos de tapetes ou sobretudos queimados e esburacados”. O livro sugere que os soldados da Grande Armada teriam sucumbido ao fatal inverno russo, pois, entre outras coisas, o estanho (material presente nos botões das fardas dos soldados) se esfarelam em baixas temperaturas, e caso fossem outras as partículas moleculares das roupas do regimento de Napoleão, a história poderia ter sido outra. Os metais, como o estanho, o ouro e o ferro são elementos que não podem ser decompostos em materiais mais simples por causa da reação química. Esses e outros elementos mudaram os rumos da história e foram cruciais para o desenvolvimento humano. A exemplo, o isougenel é o elemento químico responsável pelo cheiro da noz-moscada, que por sua vez era interessante para os ingleses no Tratado de Breda. A Europa estava assombrada com a peste negra (doença bacteriana provocada pela picada de pulgas em ratos e transmitida ao homem), e acreditava-se que ela agia como um pesticida natural contra os insetos.Embora pareça um mito medieval, é perfeitamente possível que o isougenol atuasse positivamente para repelir insetos, como as pulgas transmissoras de doenças. Hoje o idioma de Manhattan não é o Holandês graças ao Tratado de Breda, ou ao isougenol. O livro mostra como pequenas moléculas estão intrinsecamente ligadas à história. “Uma mudança tão pequena quanto a posição de uma ligação, o vínculo entre átomos numa molécula, pode levar a enormes diferenças nas propriedades de uma substância e, por sua vez, influenciar o curso da história”.(p.11).
A busca por especiarias, deu início à era das descobertas. A pimenta, usada pelos gregos como antídoto para venenos e pelos romanos na culinária, a princípio era uma especiaria luxuosa, mas com o tempo tornou-se indispensável para disfarçar o gosto das comidas conservadas em sal, ou disfarçar o sabor das comidas secas e insossas. Os consumidores usavam apenas o olfato para identificar a qualidade dos alimentos – o prazo de validade viria séculos depois.
A sensação picante que sentimos ao ingerir pimenta, não é um sabor, mas uma resposta dos nossos receptores nervosos de dor, a um estímulo químico. A piperina é uma substância orgânica composta por oxigênio, hidrogênio, carbono e nitrogênio. Vale ressaltar que quase todas as moléculas apresentadas nesse livro são orgânicas, que por sua vez, são átomos de carbono com quatro ligações. Em sua segunda viagem às índias Ocidentais, Colombo encontrou no Haiti, o chile, que seria uma nova especiaria incorporada na culinária mundial. O chile é uma das várias espécies de pimenta, que possui o composto químico capsaicina, responsável pelo seu sabor e ardência. A capsaicina possui estrutura molecular semelhante a piperina. Ambas possuem átomos de nitrogênio, vizinho de um átomo de carbono, duplamente ligado a oxigênio, com um único anel aromático, portanto ambas sendo picantes resultante da sua forma molecular. O gengibre possui a zingerona, que se assemelha em sua composição química, entretanto sem nenhum átomo de nitrogênio, sendo menos picante. A capsaicina, a piperina e a zingerona aumentam a secreção da saliva facilitando a digestão. O fato de algumas pessoas gostarem mais de pimenta, pode ser explicado pela sensação de dor, que ao ser captada pelo cérebro libera endorfina, proporcionando sensação de prazer final.
A piperina teria sido uma das principais responsáveis pelo início da complexa estrutura da bolsa de valores, pois foi através dela que iniciou o capitalismo, quando a Companhia das Índias Orientais foi formada para assegurar um papel mais ativo para a Inglaterra no comércio das especiarias das Índias Orientais e como os riscos associados ao financiamento do envio à Índia de um navio que voltaria carregado de pimenta eram altos, os comerciantes compravam cotas de uma viagem, limitando assim o tamanho do prejuízo potencial para um único indivíduo.
Enquanto as moléculas presentes nas especiarias deram início a era dos descobrimentos, pode-se dizer que a falta de outras moléculas poderiam ter resultado o fim dessa mesma era. A deficiência do ácido ascórbico (vitamina C) no organismo, causa inchaço dos braços e pernas, amolecimento das gengivas, equimoses nasais e bucais, hálito fétido, diarréia, dores musculares perda de dentes, afecções do pulmão e do fígado. Estes sãos alguns sintomas do escorbuto, doença que dizimava os navios em alto mar. Em até seis semanas em alto mar, já era possível encontrar sinais de escorbuto nos navios, pois os alimentos a bordo não possuíam a vitamina C, uma vez que as condições de armazenamento limitavam a alimentação à poucas variedades livres de bolor. A comida usual dos marinheiros era carne de vaca ou de porco salgada e uma espécie de bolacha, feita de água farinha e sem sal, até ficar dura feito pedra. Em relatos apresentados no livro, era comum que o mofo crescesse nas roupas, nas botas , nos cintos de couro, nas roupas de cama e nos livros dos marinheiros. Essas bolachas eram praticamente imunes ao mofo, entretanto também faziam com que os alimentos se tornassem difíceis de morder. O fogo era pouco utilizado, pois os materiais dos navios eram altamente inflamáveis, e os alimentos poucas vezes eram cozidos. O escorbuto matou milhares de pessoas, e embora alguns pesquisadores já associavam a doença à falta de vitamina C, muitos acreditavam que a doença era ocasionada devido o excesso de carne conservada no sal, ou sem quantidade suficiente de carne fresca. Algumas embarcações até conheciam as vantagens da dieta com vitamina C, porém a vitamina se perde nos alimentos mal conservados e as frutas cítricas frescas ou em conserva eram caras. O capitão da Real Marinha Britânica, James Cook foi o primeiro capitão a assegurar que suas tripulações estavam livres do escorbuto. Os métodos de Cook eram simples e baseados na higiene, fazendo valer o termo inglês shipshape (forma reduzida da palavra inglesa shipshapen: bem arrumado como um navio), e uma alimentação regada a frutas, que colhiam sempre que possível nos portos. “Graças a vitamina C, molécula do ácido ascórbico, Cook foi capaz de levar a cabo uma impressionante série de façanhas: a descoberta das ilhas Havaí e da Grande Barreira de Recifes, a primeira circunavegação da Nova Zelândia, o primeiro mapeamento da costa noroeste Pacífico, e o primeiro cruzamento do Círculo Atlântico”. (p.46). A palavra vitamina vem da contração de duas outras palavras vital (necessário) e amina (composto orgânico nitrogenado) e C, pois foi a terceira vitamina a ser identificada.
Outra molécula que influenciou os acontecimentos da história, é a glicose, importante componente da sacarose (açúcar). A molécula do açúcar afetou o destino dos países e continentes, estimulou o tráfico negreiro, e estimulou o crescimento econômico da Europa, e a Revolução Industrial, transformando o comércio e a cultura no mundo inteiro. Hoje, podemos encontrar numerosos doces “não-doces” como os adoçantes artificiais, que possuem estrutura química que imita a geometria dos açucares, costumam ser centenas de vezes mais doces (ao paladar)do que a sacarose, e estas são as bases milionárias das indústrias de adoçantes, que se apropriam de outras substâncias, como o aspartame ou o ciclamato.
O cultivo de outros produtos agrícolas, como o algodão, que consiste em 90% de celulose, também dependeu da escravidão. As consequências sociais do comércio do algodão foram enormes. Enquanto o comércio açucareiro forneceu o capital inicial para a Revolução Industrial, grande parte da prosperidade que a Grã-Bretanha conheceu no século XIX, baseou-se na demanda do algodão.

Dica de Leitura: Combate nas Trevas, Jacob Gorender

Terminei o livro do Sábato e agora inicio nova leitura a qual compartilho considerações com este blog.  Essa dica de leitura é dedicada a uma pessoa muito especial. Pessoa que buscou esse livro em diversos sebos até encontrar a melhor versão para me presentear. Essa pessoa é meu querido pai. Antes de tudo, obrigada por motivar minhas incessantes leituras e por ser minha referência intelectual. Embora o tenha decepcionado no meu encontro com o feminismo e o ateísmo, aprendi com ele a admirar a poesia portuguesa, a boa música brasileira e a literatura universal.

Sobre o autor

jacob gorender

No currículo de Jacob Gorender não constam títulos acadêmicos. Eles são substituídos por uma longa militância prática e teórica. Membro durante anos do PCB, onde chegou até o Comitê Central, e fundador do PCBR, Gorender sempre procurou fazer o que boa parte dos militantes marxistas não fazem: aliar à prática política uma sólida formação teórica. Autor de diversos ensaios, escreveu também O escravismo Colonial, obra considerada clássica pela comunidade acadêmica. Em Combate nas Trevas, Jacob Gorender alia duas qualidades aparentemente contraditórias “a guarra do combatente e a serenidade do historiador”.

Combate nas Trevas

combate nas trevas

Devido a complexidade das informações apresentadas, separarei as postagens por capítulos até findar a obra. Algumas frases permanecerão iguais ao texto original por serem difíceis de sintetizar sem alterar o conteúdo, porém esse texto que não é uma resenha, deixa isso claro desde já. Esta é a forma que utilizo para divulgar livros e trazer considerações que possibilitem novos acessos às obras originais. Cabe ao leitor recorrer a fonte e fazer suas próprias considerações.

            I

            Prelúdio Goiano

            Sexta-feira 13, 1964. Duzentas mil pessoas assistem o comício na Praça da República, entre a estação ferroviária da Central do Brasil  e o Ministério da Guerra. O autor lembra que foi esta a primeira vez que viu Astrogildo Pereira, fundador do PCB. Logo, viajou para Goiânia, se ausentando do Rio de Janeiro para ministrar o curso de filosofia e o ciclo de conferências para expor O Marxismo Como Filosofia Humanista. Presença assídua nas conferências, o coronel Clementino Gomes comparecia sempre a paisana. Chefe do Gabinete Militar do Governador Mauro Borges, convidou Jacob Gorender para uma visita ao Palácio das Esmeraldas. Aceitando o convite, no dia seguinte Jacob conversou com o coronel Mauro Borges, único governador que acompanhou Leonel Brizola na oposição aberta aos ministros militares que tentaram impedir a posse de Jango à presidência da República após a renúncia de Jânio Quadros em 1961. O governador, embora assumisse uma posição moderada (diferente da radicalização de Leonel Brizola), apoiava o presidente à assumir o governo em sua plenitude. Nesta conversa, notou-se certa hostilidade de Mauro Borges em relação a Jango, porém a princípio, Gorender atribuiu este fato à rivalidade provinciana entre PSD e PTB. Entretanto os reais motivos ficariam claros somente após o levante de Minas Gerais, onde o Governador Afonso Arinos, Milton Campos e José Maria Alkimim indicavam a intenção de erigir em Belo Horizonte o centro de um poder contrário ao de Brasília, e Mauro Borges assumiria posição contrária a de 1961, tendo recebido um convite pessoal de Carlos Lacerda para fazer parte de um restrito grupo de governadores para deliberar a sucessão presidencial.

Iniciava nesta data um período de seis anos de clandestinidade para Jacob Gorender, e com a ajuda de alguns companheiros, conseguiu chegar a São Paulo de carro após trinta horas de viagem.

Mauro Borges, apesar de aderir o golpe, provocava desconfiança no General Castelo Branco, novo ocupante de Palácio do Planalto. Ernesto Geisel tramou falsas acusações sobre o governador e em 1964 em ato ditatorial, Mauro Borges foi deposto. Em 1965 publicou o livro O golpe em  Goiás, a história de uma grande traição.

            2

            O Contencioso da Industrialização e do Populismo

            Desde os anos 1930, industrialização e populismo caminharam juntas, potencializando-se reciprocamente mudando a face do país. Entretanto as contradições acumuladas nos últimos trinta anos se acentuavam e a Constituição liberal de 1946 deixava claro que deveria haver uma ruptura nessa combinação. E foi nesse cenário que Jango assumira a Presidência da República, em meio a  uma tempestade que pronunciava outras ainda piores.

A questão dada pelo autor; “Poderia a industrialização prosseguir acasalada ao populismo? Ou já era caso de divórcio?

No cenário interno, findava o período republicano da cafeicultura e a burguesia industrial ascendia, criando mercado interno apoiada por Getúlio Vargas. Os investimentos do Estado e do capital estrangeiro são a alavanca principal do salto industrializante do quinquênio de Juscelino Kubistchek. O endividamento  externo e as altas taxas de juros caracterizam esse período, causando conflitos sociais. O conceito de populismo tratado nesta obra se dá da seguinte maneira:

(…) o conceito de populismo não se reduz a demagogia e manipulação, aspectos secundários no contexto. O populismo inaugurado por Getúlio Vargas se definiu pela associação íntima entre trabalhismo e projeto de industrialização. O trabalhismo como promessa de proteção dos trabalhadores por um Estado paternalista no terreno litigioso entre patrões e empregados. O projeto de industrialização como interesse comum entre burgueses e operários. O populismo foi a forma da hegemonia ideológica por meio da qual a burguesia tentou – e obteve um elevado grau – o consenso da classe operária para a construção da nação burguesa” (p.16).

            Jânio Quadros, eleito em 1960, renunciou o Congresso em Agosto de 1961 com o objetivo de obrigar o Congresso a castrar suas prerrogativas constitucionais e fortalecer as atribuições do Presidente da Republica. A manobra fracassou, diante de muitos conflitos Jango assume a Presidência.

  3

O PCB –  Das ilusões da Legalidade à Retórica da Luta Armada 

             No período de 1946 a 1964 o PCB representava a maior força da esquerda brasileira, que dispunha de forte atuação partidária com os estudantes, com ramificações no meio camponês,  e no cenário político com campanhas antiimperialistas. A legalidade havia sido conquistada em 1945, Gorender observa que o partido se deixou iludir pela concórdia internacional entre o Eixo nazifascista na Guerra Fria, sem perceber as alterações na disposição das forças de classe dentro do país. Luis Carlos Prestes a essa altura era o secretário-geral do partido e havia conquistado prestígio biográfico. Prestes e outros dos principais dirigentes saídos da Conferência da Mantiquiera demonstravam acreditar nos “bons propósitos” da burguesia “progressista” e aderiram discursos pacifistas, orientando os trabalhadores a se entenderem com seus patrões em nome do desenvolvimento nacional. A “burguesia progressista” ao contrário, não demonstrou confiança nas intenções do partido comunista, inspirada nos primeiros acontecimentos da Guerra Fria, abriu-se processo judicial para cassação do registro do partido. Em 07 de Maio de 1947, com três votos a dois, o PCB teve seu registro cassado, e houve um corre-corre para queimar papéis e arquivos, uma vez que o partido estava novamente na ilegalidade e no dia seguinte a ordem judicial se cumpriria.

Em Janeiro de 1948 começou a cassação dos parlamentares comunistas. Jacob Gorender atribui esta calamidade, de certa forma, à segurança que Prestes depositou na “burguesia progressista”, e afirma que a repetição dos prognósticos calamitosos se revelou uma especialidade de Prestes. No dia 1ª de Agosto, foi assinado na clandestinidade pelo Quarto Congresso o Manifesto  do Programa que trazia modificação teórica significativa. A revolução, a princípio, não teria um caráter socialista, mas antiimperialista e antifeudal, e oferecia o privilégio à burguesia nacional na participação da industrialização intensiva a ser promovida pelo futuro regime revolucionário, sofrendo expropriação somente os grandes empresários à serviço do imperialismo norte-americano.

A proposta da luta armada caiu no vazio, sendo aderia apenas em alguns Estados como Paraná e Goías, se caracterizando por conflitos locais. Por outro lado, o segundo governo Vargas aderia ainda uma postura populista, e embora estivesse em uma fase de colisão com os Estados Unidos, permanecia inflexível em relação ao PCB, que já se encontrava em situação calamitosa  no que se refere a sua organização. Esta situação pode ser percebida, quando o PCB se coloca ao lado da UDN para derrubar o Presidente da Republica e em seguida, Prestes vem a publico se posicionando contra o golpe. Importante observar nessa passagem que o PCB durante o Governo Dutra,  se aproxima da esquerda trabalhadora (inclusive aqueles que simpatizavam pelo regime varguista) nas fábricas. O jornal Notícias de Hoje chegou a atingir a vendagem diária de 25 mil exemplares durante a greve dos 300 mil que durou de março-abril de 1953.