Arquivo da categoria: Saindo das prateleiras – leituras e reflexões

Dica de leitura: O Túnel, Ernesto Sábato.

sabatoAutor de O Túnel, 1948 , Sobre Heróis e Tumbas, 1958 e Abadon, 1974 . Ernesto Sábato é um físico nascido em Rojas, província de Buenos Aires, em 1911.

O túnel

 Narrado na primeira pessoa, o estilo literário me fez lembrar a princípio, Machado de Assis, logo gostei muito. Machado possuía uma forma peculiar de conduzir o leitor, passando por altos e baixos, jogando comentários soltos entre uma observação e outra, o que sempre me fez sentir próximo do narrador.

 Quanto a obra em sí, considerei a princípio o sarcasmo do personagem ao discorrer seus pensamentos mais íntimos sobre a vida humana. Um assassino em liberdade, que ousa na primeira página admitir que no mundo existem pessoas horríveis e que os assassinos embora sejam a princípio repugnantes, são muitas vezes limpos e inofensivos, pois tratam de eliminar alguns maus tipos da sociedade, de uma vez por todas. Em seguida, lamenta-se por não ter usado sua liberdade para eliminar mais uns seis ou sete tipos destes.

De pronto, percebemos que o que virá pela frente é uma novela ousada, que permitirá o leitor questionar-se sobre certos conceitos fundamentados em nossa cultura machista.

             Juan Pablo Castel havia matado Maria Iribarne Hunter, e se propõem a escrever a história do seu crime. Os aspectos humanos são colocados em pauta a todo o momento. As lembranças seletivas que exclamam sentir “saudades dos velhos tempos”, mesmo sendo a vida sempre repleta de infelicidades. A vaidade humana, presente até mesmo na bondade e na modéstia, que pode ser percebida inclusive na figura simbólica de Jesus Cristo que passara a vida servindo indivíduos que ajoelhavam aos seus pés. Segundo Juan Pablo, embora ele não tenha motivos para sentir-se superior aos demais humanos, ou a néscia de sentir-se perfeito, esforça-se em afirmar que não contará a história do seu crime por vaidade, talvez por soberba e orgulho, ou por achar que mesmo com a curiosidade daqueles que buscam explicações para tudo, e que automaticamente fará com que muitos leiam a história até o fim, talvez ninguém possa entendê-lo. “Existiu uma única pessoa que poderia entender-me. Mas foi, precisamente esta que matei”.(p.5).

           Juan Pablo Castel era um pintor famoso, mas repudiava os críticos de arte. Nverdade repudiava toda espécie de agrupamento de pessoas que compartilham entre sí comportamentos semelhantes, caracterizados pela repetição do tipo.  “Que quero dizer repetição do tipo?Já terão observado quão desagradável é encontrar-se com alguém que a todo instante pisca um olho ou torce a boca? Imagem, então todos esses indivíduos reunidos em um clube! Não há necessidade de se chegar a esses extremos; no entanto, basta observar as famílias numerosas onde se repetem certos rasgos, certos gestos, certas entonações de voz”. Essa repetição do tipo, aparece também em grupos específicos como na forma de empregar o artigo definido “a sociedade, por Sociedade da psicanálise, o partido, por Partido Comunista; a sétima, pela Sétima sinfonia de Beethoven”. No campo das ações, essa repetição fica nítida, como em certa ocasião que teve de enfrentar com ingenuidade o olhar do psicanalista

(…) olhando-me com aqueles olhos penetrantes que os freudianos julgam obrigatórios para a profissão, e como se também se perguntasse: que outra maluquice estará atacando esse cara ”.

            Juan Pablo Castel evitava reuniões e discussões sobre arte, tal como, repudiava a repetição dos seguidores de obras famosas, como as de Picasso. Eis que em uma exposição, uma mulher lhe chama a atenção por debruçar os olhos sobre sua tela, mas diferente dos outros que ele próprio se distanciava, ela pareceu a única a observar um detalhe na pintura. Havia no canto superior do quadro, uma janela. Uma janela que não dialogava com o resto da tela e parecia que somente ela compreendia o sentido daquela janela ali, propositalmente posta. Sentido este, que nem o pintor saberia explicar qual era. E foi este o dia que Juan Pablo Castel viu pela primeira vez Maria Iribarne  Hunter e desde então ela estaria em seus pensamentos. Durante meses Juan Pablo ensaiou como se comportaria diante dela, caso a encontrasse novamente. Sabia que encontros casuais não eram sempre possíveis, então pensava na hipótese de a encontrar pela rua, ou próximo a curadoria. Ela não parecia uma crítica de arte, e isso também fazia com que o interesse por ela aumentasse. Desde então Juan Pablo só pintava para ela. Seis meses se passaram nesta agonia, até que ele a reencontrou e ao se aproximarem, os reencontros tornaram-se frequentes.

            As páginas que se seguem, são de insegurança e desconfiança. Juan Pablo Castel deseja cada vez mais possuir Maria, conhecer seus mais íntimos pensamentos. O ciúmes e o sentimento de posse move o personagem num drama que sofistica a equação machista “honra manchada=castigo de morte”. O teor psicológico do personagem em O Túnel apresenta características literárias inusitadas, transcendendo a ordem do real e do irreal, apresentando o conflito e a decadência do sujeito. A mulher, narrada pelo assassino muitas vezes é associada à um um vidro que ele não consegue atravessar, e se  assemelha à muitas Marias que vítimas do sentimento de posse, encontram o mesmo fim que Maria Iribarne Hunter.

Fica registrada mais uma dica de leitura.

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Dica de leitura: A morte de Ivan Ilitch, Leon Tolstói

Sempre defendo a importância da literatura, por proporcionar uma aproximação com as relações sociais em determinado período histórico, aproximação esta, muitas vezes impossível de ocorrer somente pelo viés tradicional, ou seja, pelos livros de história.

Considerações após a leitura.

Em a Morte de Ivan Ilitch é possível uma rápida viagem à Russia czarista, 1880. Mais precisamente, à vida instável daqueles que ocupavam algum posto em cargos públicos no regime do czár.

Na compainha de Tolstói, o leitor poderá mergulhar numa obra que coloca as angústias da vida imprecisa daquele que um dia foi o jovem  le phenix de la famille (o orgulho, o tesouro da família).

Diferente do filho mais velho que era frio e meticuloso, e do mais jovem que era o temerário e esquecido pela família, Ivan Ilitch já na faculdade de direito apresentava características que comporiam sua personalidade para o resto de seus dias “um homem capaz, alegre, bonachão, comunicativo, mas um severo cumpridor daquilo que considerava seu dever, e considerava seu dever tudo aquilo que consideravam como tal as pessoas mais altamente colocadas” (p.18).

É possível observar as características também do autor, que ao aproximar-se de tal condição social, apresenta um cenário de aparências, onde os indivíduos se relacionam com o objetivo de extrair algum benefício próprio, seja no trabalho ou na própria relação doméstica. As expectativas que o trabalho oferece no que se refere ao status do sujeito, faz com que este torne-se o alicerce para a projeção do eu, e o matrimônio um símbolo social que de alguma forma reflete a estabilidade do indivíduo. Dessa forma um bom trabalho e um casamento acertado seria sinônimo de uma vida leve, agradável e decente. E este era o objetivo de vida de Ivan Ilitch, ter uma vida leve, agradável e decente.

Após concluir o curso de direito e conquistar um cargo publico em uma nova cidade, Ivan Ilitch sempre rodeado de boas companhias (pessoas que ocupavam cargos semelhantes ou melhores que o seu), conhece aquela que se tornaria sua esposa, Prascóvia Fiódorovna Michel. Uma jovem bela e agradável a qual carregava um nome tradicional e por conveniência de todos os fatores, mesmo sem a amar, casou-se com ela.

Os primeiros anos do casamento foram iguais aos de muitos jovens casais, com carinhos, mobília nova e gravidez. Com o tempo, algumas mudanças ocorrem no trabalho de Ivan Ilitch, sendo transferido diversas vezes. A mulher fragilizada com a morte de alguns de seus filhos e o ordenado apertado faz com que o casal enfrente cada vez mais problemas conjugais, guardando no íntimo mágoas e rancores, agindo e se distanciando como inimigos velados. A mulher se torna rude, fria e grosseira. Para que a vida mesmo assim continue sendo pelo menos minimamente leve, agradável e decente, Ivan Ilitch se entrega cada vez mais ao trabalho e ao uíste (carteado), se distanciando cada vez mais da relação doméstica.

Entretanto uma doença faz com que Ivan Ilitch repense com amargura toda a sua trajetória. Uma doença que o consome e o corrói por dentro, faz com que os últimos momentos da vida Ivan Ilitch apresente a face cruel da vida. As relações sociais quando despidas , observadas pelos olhos de um enfermo são superficiais, mentirosas e repugnantes.

A enfermidade e a dor faz com que Ivan Ilitch repense diversas vezes sobre a condição frágil do ser humano, a qual nunca havia pensado quando jovem e repleto de saúde. O silogismo da lógica de Kiesewetter aprendido na faculdade, nunca fizera tanto sentido para ele “Caio é um homem, mas os homens são mortais. Logo, Caio é mortal”. Caio seria um homem em geral, mas não Ivan Ilitch, esse tinha lembranças de quando criança, havia sido um jovem admirável na faculdade, e no presente havia constituído uma relação social sólida, sendo respeitado enquanto juiz. Seria ele também um mortal?

A vida e a morte, seria apenas uma passagem?

Todos gozavam de boa saúde, mas a morte para eles que não compreendiam as angústias do enfermo, também seria uma realidade. O fim estava previsto, mas como enfrentá-lo? Como aguentar arrastar-se pela vida lutando contra a morte e contra as mentiras vividas nas relações sociais? Por pior que tudo se apresente neste estágio da vida, ela ainda é a melhor opção diante da morte.

Ivan Ilitch é o que homem buscou viver leve, agradável e decentemente. Para tal, mentiu muitas vezes para sí e para os outros. Buscou conquistar aquilo que muitos homens buscam, que é o respeito através da imagem que uma vida composta por relações sólidas no trabalho e em casa pode oferecer. Ivan Ilitch diante da doença torna-se frágil, chorou algumas vezes sozinho no escuro como uma criança que precisa de um abraço para dormir. Lamentou como um homem que diante da enfermidade torna-se um problema para aqueles que gozam de boa saúde. Morreu, como todos que estão vivos ainda hão de morrer.

Embora o fim trágico de Ivan Ilitch esteva dado desde o título da obra, a narrativa precisa e objetiva de Tolstói faz com que a novela seja consagrada como uma preciosidade da literatura russa. Nas palavras do tradutor, ninguém consegue narra com tanta dignidade os pensamentos humanos como Tolstói.

Fica aí, mais uma dica de leitura.

Dica de leitura: O Quinze de Raquel de Queiroz

O QUINZEBreves considerações

O Quinze trata-se de um conto regionalista publicado em 1930. Raquel de Queiroz retrata as angústias provocada pela seca no interior do nordeste no ano de 1915.

Dentre todas as perspectivas de reflexão que a leitura possibilita, observo aqui a relação dos indivíduos com o espaço, pois um dos fenômenos resultantes dessa relação nesse caso é a miséria.

A morte dos animais e a escassez de alimentos provoca a falta de emprego e fome.

O clima torna-se o principal inimigo dos homens e dos animais, que quando sobrevivem, buscam qualquer tipo de sorte no abandono dos seus lares em busca de água e terra fértil. Retirantes de todos os tipos caminham pelas estradas de terra com a esperança de um destino melhor. Alguns ficam pelo caminho reduzidos a carne morta. A amargura dos nordestinos pode ser sentia pelos leitores, e a obra apresenta um problema social ainda presente na vida de muitos brasileiros.

O livro foi inspirado em fatos vividos pela própria autora.

Fica aí, mais uma dica de leitura.

Sociedade civil, participação e cidadania: do que estamos falando?

Considerações sobre o texto de Evelina Dagnino

O neoliberalismo trouxe profundas consequências  para as sociedades latino-americanas, e o texto se propõem a analisar os impactos causados ao Brasil e sugere uma “confluência perversa” entre um projeto político democratizante e participativo e o projeto neoliberal que marcaria hoje, desde nosso ponto de vista, o cenário de luta pelo aprofundamento da democracia na sociedade brasileira. Examina a disputa político-cultural e os deslocamentos de sentido que ela opera em três noções: Sociedade Civil, Participação e Cidadania”. (p.1).

A Constituição de 1988 trouxe alguns avanços democráticos para o Brasil, tendo para este alcance, a forte participação da sociedade civil no processo de redemocratização do país. As eleições livres e a reorganização partidária são avanços dessa ordem. Os anos 1990 apresentam alguns desses avanços já interiorizados na sociedade e nas esferas de poder do Estado ( no nível dos executivos municipais e estaduais e dos parlamentares, e mais recentemente no executivo federal).

A relação entre sociedade civil e Estado que outrora se apresentara conflitante, nos últimos, aparentemente o clonflito cedeu lugar para a possibilidade de uma ação conjunta em um aprofundamento democrático. Entretanto, Dagnino aponta para este fenômeno chamando atenção para uma possível tensão entre os atores, tensão essa que não aparente, e perversa por “consequências que contrariam o efeito de sua aparência” e seus efeitos “ se revelam mais distintos do que se podia esperar”.

Pode-se dizer que a participação da sociedade civil na política é uma conquista das diversas formas de manifestações, assim como a sua instrumentalização na Constituição de 1998. Entretanto, o cenário político é, segunda a autora, um campo minado, onde os espaços são delimitados. Embora a primeira vista a participação política da sociedade civil,seja de forma individual ou através de grupos específicos e ONG’s possa parecer um avanço democrático, pode-se observar que existe uma confluência perversa em que prevalece a disputa política velada.

“O processo de encolhimento do Estado e da progressiva transferência de suas responsabilidades sociais para a sociedade civil, que tem caracterizado os último anos, estaria conferindo uma dimensão perversa a essas jovens experiências (p.97).

O antagonismo é vivenciado pelas organizações não governamentais e movimentos sociais que se questionam sobre o seu papel político. Na realidade elas passam a exercer um papel que lhes é antagônico, servindo aos interesses do Estado na disputa política.

O projeto político democratizante no Brasil passa pelo processo semelhante ao dos demais países da América Latina, porém com suas singularidades. “O projeto neoliberal encontra no Brasil um contendor e dessa disputa determina, na nossa perspectiva, direções específicas às estratégias e formas de atuação das forças vinculadas ao projeto neoliberal em nosso país” (p.99).

A participação conjunta entre a sociedade civil e o Estado caracterizam a “confluência perversa” que segundo a autora, determina o obscurecimento dessas distinções e divergências fundamentais, por meio de um vocabulário comum e de procedimentos e mecanismos institucionais que guardam uma similaridade significativa.

As noções de sociedade civil, participação e cidadania mantém uma estreita relação e por isso foi escolhido para análise desse processo em que ocorre o deslocamento dos sentidos. A política neoliberal mudou a cultura do pensamento social no Brasil no projeto participativo que minimiza o Estado. A redefinição dos sentidos reconfigura a relação entre sociedade civil e Estado.

As ONGs por exemplo dialogam com o Estado falando em nome de minorias, entretanto o Estado possui conhecimento dessas organizações que são instrumentalizadas para promover serviços que antes eram papel do Estado. As organizações sociais,  assim definidas pela Reforma Administrativa do Estado implementada pelo Ministro Luis Carlos Bresser Pereira, para designar  a forma de participação da sociedade civil nas políticas públicas, instituída pela Constituição de 1988, reduzem a participação e a administração do Estado que torna-se o gestor das demandas e das suas representações sociais. A noção de cidadania também sofreu um processo de deslocamento de significado. A nova cidadania, ou cidadania ampliada formulada pelos movimentos sociais, expressa não somente uma estratégia política, mas também uma política cultural, implicando na noção do direito  que se limita a provisões legais e abstratas. As reivindicações associadas à cidadania se caracterizam pela necessidade de inserção em um projeto político já dado. (Associar esse processo à Piramide Marshall invertida no Brasil, exemplifica o que a autora está dizendo).

A Constituição de 1988, conhecida também por “Constituição Cidadã” possibilitou uma nova interpretação de cidadania, não se limitando mais a um conjunto de sujeitos, estando agora nitidamente associada à política.

O mercado, também regulado pelo Estado, é legitimado pela concepção neoliberal individualista, tendo a cidadania um papel relevante neste processo, na medida em que o mercado se torna a encarnação das virtudes modernas e o único caminho para o “sonho latino-americano de inclusão no Primeiro-mundo”.

A pobreza passa a ser administrada por organizações e torna-se também o hobby da classe média (dramático),  sedo a cidadania uma reduzida solidariedade aos pobres. Reduzidos pois exercem o papel de caridade, e por excluírem do debate as causas da desigualdade e questões políticas. O Primeiro Setor seria o mercado, o Segundo o Estado, e o Terceiro Setor a sociedade civil, agora representada por organizações específicas, tal como apresentadas anteriormente.

Os alvos das políticas publicas não são mais vistos como cidadãos com direitos a terem direitos e sim como sujeitos carentes que precisam ser acolhidos por esse processo legitimado pelas instâncias constitucionais.

Belo texto!

Considerações sobre o Plano Diretor de Reforma do Aparelho do Estado

Plano Diretor de Reforma de Aparelho de Estado – Presidência da República, 1995.

A crise brasileira das últimas décadas (texto publicado em 1995) foi também uma crise de Estado. Associada à gestão anterior e seu modelo de desenvolvimento com forte presença dos setores produtivos, a crise acarretou na “deterioração” dos serviços públicos, o agravamento da crise fiscal e por fim, a inflação. A reforma surge como um novo modelo estratégico no governo FHC a fim de promover a correção das desigualdades sociais e regionais.

O Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado, segundo o autor, definiu objetivos e diretrizes para a reforma da administração publica brasileira. Dentre as diretrizes, pode-se citar o fortalecimento do Estado como agente regulador e compromisso com a agenda de cunho social.

O modelo gerencial surge como uma saída para os resultados e resquícios de um passado caracterizado pelo clientelismo, patrimonialismo e nepotismo. Com referências em países desenvolvidos e em desenvolvimento, o Plano Diretor pretende reorganizar a máquina estatal, interferindo em esferas publicas e privadas. No que se refere à esfera publica, o governo interferiu no plano de definição de tetos únicos para servidores, na Emenda da Área da Previdência Social, objetivando assegurar aposentadorias em idades razoáveis, tendo em vista o tempo de contribuição.

Em resumo, é assim apresentado o Plano Diretor pelo ex presidente da Republica, Fernando Henrique Cardoso. Ademais, o Plano será discorrido nos próximos capítulos direcionados à população brasileira. Os comentários abaixo e grifos são meus, feitos durante a leitura.

Introdução

Os desafios enfrentados pelo governo são pautados em temas como Estado e Sociedade, levando em consideração seu caráter democrático, Estado e mercado, por representar um elemento central da economia. Caso um dos dois venha a falhar, haverá crise. Observando a conjuntura global que apresentava discussão dessa ordem num estágio do capitalismo em que a intervenção e não-intervenção do Estado tornava-se cada vez mais debatido, o Plano diretor leva considera que o Brasil necessita de um Estado regulador que interaja entre as partes exercendo um caráter gerenciador.

As crises dos anos 1920 e 1980 são apresentadas como problemas resultantes de processos como o acima citados. A primeira nos anos 1920 pelo mal funcionamento do Estado, e nos anos 1980  pelo mau funcionamento financeiro. Essa última teve início nos anos 1970, porém somente na década seguinte se tornou visível.

O Brasil passou por duas crises, uma em 1920 e outra em 1980. A crise de 1920 teria sido uma crise financeira e a de 1980 uma crise de Estado, tendo iniciado em 1970, porém ficando nítida somente dez anos depois devido as consequências desembocadas, como a crise fiscal e o esgotamento da estratégia de substituição de importações. Diante da crise, o governo teve duas reações, e ambas adversas. A primeira foi desconsiderar esse cenário subestimando os impactos da crisa, e a segunda de caráter neoliberal minimizando a intervenção do Estado.

Estes casos teriam sido os responsáveis pela necessidade de se implantar o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. O aparelho do Estado é composto pela administração pública em sentido amplo, ou seja  “a estrutura organizacional do Estado em seus três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e três níveis (União, Estados- membros e municípios), enquanto o Estado abrange o sistema constitucional-legal, que regula a população nos limites do território nacional”. (p.12). A reforma do Aparelho do Estado se define pelo aumento na administração pública gerencial com rígidos critérios meritocráticos e a reestruturação dos cargos e salários através de pisos e treinamentos, inspirada no gerenciamento empresarial, entretanto a semelhança existe somente no que se refere ao gerenciamento dos processos administrativos, pois a administração pública está voltada para o interesse público, vendo o cidadão como contribuinte de impostos e cliente, sendo que esse modelo exige flexibilidade e descentralização.

O Decreto-lei 200/67 havia proposto uma reforma na administração burocrática central, entretanto o regime militar tratou de enfraquecer esse processo através de contratações não especializadas para cargos públicos. Em1970 houve uma nova tentativa de implantar esse modelo, onde foram contratados profissionais especializados para cargos públicos, entretanto esses rumos foram parasitados na transição democrática de 1985, que mesmo com todos os méritos, apresentou também resultados negativos como a indicação para cargos públicos de políticos pertencentes aos partidos vitoriosos, tendo nesse processo o clientelismo como resultado.

Alguns fatos fizeram com que o processo de gerenciamento no Brasil fosse estagnado, como por exemplo as acusações “injustas’”da sociedade civil. O retrocesso burocrático teria ocasionado o encarecimento do Estado.

Os anos que sucederam o Plano Diretor da Reforma do Estado não abriram novos concursos públicos, pois houve um cálculo que haviam mais servidores inativos do que ativos. “A rigidez da estabilidade assegurada aos seguidores públicos civis impede a adequação dos quadros de funcionários às reais necessidades do serviço, e dificulta a cobrança do trabalho”.A legislação brasileira por outro lado, ausente de recursos humanos deixa o Estado vulnerável aos efeitos da crise fiscal.

Os moldes weberianos da administração pública regida pelo mérito profissional não chegou a se consolidar nos modelos anteriores. Os gastos públicos com a contratação de profissionais se apresenta como um dos elementos responsáveis pela crise fiscal devido os gastos com ativos e inativos pensionistas.  Os cálculos apresentados observam o número de aposentados inativos em contraponto com as novas contratações, os afastamentos e décimos terceiros salários, o que “tornará a situação insustentável” no que se refere aos gastos públicos “explosivo do ponto fiscal”. Um sistema injusto “que aposenta o servidor quando ele ainda possui plena capacidade de trabalhar e paga uma aposentadoria ao funcionário muito acima no setor privado” (p.32). (O período de contribuição do funcionário público é analisado, e o autor quando apresenta os cálculos afirma enfaticamente que “tudo pago com o dinheiro do contribuinte).

O sistema monetário da União é marcada pelo desiquilíbrio, pois no Brasil não há um sistema universal e padronizado de remuneração.

Os objetivos globais definidos pelo Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado se define por objetivos específicos: aumentar a governança do Estado, limitar a ação do Estado àquelas funções que lhe são próprias, transferir da União para os municípios as ações de caráter local, e transferir parcialmente da União para os Estados as ações de caráter regional. Quanto aos objetivos para o Núcleo Estratégicos, deve-se modernizar a administração burocrática, aumentar a efetividade do núcleo estratégicos e dotar um núcleo estratégico de capacidade gerencial para definir e supervisionar os contratos de gestão com as agências. (p.47).

Em relação aos objetivos para as atividades exclusivas, define-se que deve-se transformar as autarquias e fundações que possuem poder de Estado em agências autônomas, administrada segundo um controle de gestão, substituindo a administração pública burocrática pela administração pública gerencial e fortalecer as práticas de adoção de mecanismos que privilegiam a participação popular tanto na formulação quanto na avaliação de políticas públicas. (p. 46).

Para a produção de mercado, define-se os seguintes objetivos: dar continuidade ao processo de privatização através do Conselho de Desestatização; reorganizar e fortalecer os órgãos de regulação dos monopólios naturais que forem privatizados e implantar contratos de gestão nas empresas que não puderem ser privatizadas.

Para obtenção dos êxitos esperados na implantação do Reforma, é necessário o comprometimento de todos os ministérios e da Casa Civil e do Planejamento todas sendo instanciadas com suas respectivas atribuições.

Evolução da exclusão social ao longo do tempo

Considerações sobre o texto de Márcio Pochmann, in Atlas da exclusão social no Brasil.

A exclusão é um todo que se constitui a partir de um amplo processo histórico determinado que acompanha, em maios ou menor grau, a evolução da humanidade” (p.27).

No séc.XVIII Jean-Jacques Rousseau buscou compreender o que desencadeava o processo de desigualdade entre os homens. Havendo dois tipos de desigualdades: a natural (vinculada as diferenças físicas, como cor, sexo e idade, saúde e etc.)  e a desigualdade moral ou política, relacionada a estruturação social (moral ou política) que desencadearia uma série de outras desigualdades como ser rico ou pobre. “O direito da propriedade privada e a divisão do trabalho eclodiram não apenas o sistema de desigualdade política entre poderosos e fracos, como disseminaram a progressão de um sistema de diferenciação entre homens, que não mais se manifestava naturalmente, mas por razões politicas, econômicas, sociais e culturais. (p.28).

As sociedades modernas se relacionam de forma diferente de outras com a questão da desigualdade. O autor recorre ao trabalho antropológico de Claude Lévis-Strauss para ilustrar. O selvagem do Tristes Trópicos eliminava o desigual através da antropofagia, e o devorado tornava-se parte da sociedade dominante. Com o tempo, as sociedades passaram a expelir tudo que é considerado desviante. E a sociedade moderna tornaram-se bulímicas que tem capacidade de devorar (incluir)  assimilando culturalmente as massas da população por intermédio da educação, da mpidia e da lógica do consumismo individualista no interior do mercado, ao mesmo tempo que tem a capacidade de expelir (excluir) deslocando segmentos da população.

Dessa forma as sociedade modernas acabam combinando de maneira cada vez mais instável a inclusão cultural e a exclusão social, sendo potencializadas pela  noção de ter, através da lógica do consumo, e ser pela lógica da desigualdade e da baixa geração de oportunidades.

Corpos cívicos, Richard Sennett

Considerações após a leitura do texto de um autor que particularmente gosto muito.

Nova York multicultural – Greenwich Village in Carne e Pedra, Richad Sennett.

Diferença e indiferença

Richard Sennett narra sua experiência em Greenwich Village, vinte anos após a leitura de The Death and life of Great American Citties, de Jane Jacobs. Nessa leitura, Greenwich se apresenta como “a quintessência do centro urbano”, misturando grupos e estimulando os indivíduos através da diversidade. Entretanto em sua visita, em 1970, Richard Sennett observa um cenário completamente diferente.

A primeira vista, o cenário de fato é semelhante ao apresentado por Jane, comunidades de imigrantes transitam em meio aos turistas que encantados com a urbanização da região passam despercebidos entre os moradores. Entretanto, um olhar mais atento possibilita identificar a existência da indiferença em meio a variação. Os grupos que teoricamente interagem de maneira harmoniosa, na verdade ocupam lugares diferentes e em geral, interagem com a sua própria comunidade.

A venda de drogas ocupa lugares a céu aberto, e o seu consumo está associado ao alto índice de HIV que tornou-se um problema crescente em meio aos jovens e a prostituição. Os sem-teto também fazem parte do cenário, causando pouca estranheza. A cada duzentas pessoas, estima-se uma sem-teto, índice superior a Calcutá e a baixo de Cairo. Entretanto os moradores de rua optam pela região, pois há uma certa paz para se viver nestas ruas.

Richard Sennett atribuí essa paz ao modo de vida moderno, onde a individualidade nas cidades não deixa espaço para o relacionar-se com o outro. “Centelha de vida não merecem mais que um lampejo de atenção”.

As diferenças são toleradas, não há um sentimento de pertencimento a um todo.

Greenwich Village está localizada na cidade de Nova York, e sua geometria está associada ao padrão capitalista de urbanização ressurgente do séc. XII, que tratou terrenos, quarteirões, ruas e avenidas por simples unidades abstratas destinadas à compra e venda, desconsiderando dessa forma, qualquer relevância em termos de história. Segundo Richard Sennett esse modelo de urbanização carece de um centro, embora os turistas acreditem que o centro de Nova York seja o Central Park.

As construções são feitas para durarem em média cinquenta anos, e nesse ritmo  prédios são demolidos e reerguidos com a mesma velocidade, financiados por seus compradores levando em consideração inclusive o prazo de “validade” das construção. Esse fenômeno é característico de uma forma específica de interagir com o espaço, que aparentemente não está mais associado ao senso de pertencimento dos indivíduos com o meio.

Após a Segunda Guerra, Nova York teve um crescimento considerável, entretanto os responsáveis por esse crescimento encaravam a malha urbana desconsiderando seu aspecto histórico. Dessa forma, foram construídas pontes, parques, auto-estradas, praias e portos. Robert Moses foi um dos principais planejadores da cidade, e há relatos de que ele gostava do publico, porém não do povo. Tratou de excluí-los, deixando-os à margem da urbanização. Essas informações constam no Quadrador de Poder, biografia de Moses escrita por Robert Caro.

Diante das diversidades e do desconhecido, os indivíduos tendem a compreender o outro através de imagens estereotipadas. Roland Barths foi o primeiro a chamar atenção para esse “repertório de imagens” atribuída no contato com o outro. “Um branco que depara com um negro ou um árabe na rua registra a ameaça e desvia os olhos”. Kevin Lynch se apropriou desse olhar sobre os símbolos para estudar as cidades.

Hoje, metade da população de Nova York se resume a imigrantes de diversos lugares do mundo, entre eles Caribe, América Central, Oriente Médio e Coréia. Novas etnias tem possibilitado o repovoamento de velhas regiões empobrecidas da cidade.

O argumento central de Richard Sennett (conforme afirmado por ele mesmo), é de que em geral a forma dos espaços urbanos deriva de vivências corporais específicas a cada povo. Dessa forma o entendimento sobre o corpo deve-se ser reelaborados para que as pessoas se importem umas com as outras. O indivíduo cívico tornou-se indiferente para com os sofrimentos alheios, isso consequência da maneira individualista de se sobreviver na cidade.