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Sociedade civil, participação e cidadania: do que estamos falando?

Considerações sobre o texto de Evelina Dagnino

O neoliberalismo trouxe profundas consequências  para as sociedades latino-americanas, e o texto se propõem a analisar os impactos causados ao Brasil e sugere uma “confluência perversa” entre um projeto político democratizante e participativo e o projeto neoliberal que marcaria hoje, desde nosso ponto de vista, o cenário de luta pelo aprofundamento da democracia na sociedade brasileira. Examina a disputa político-cultural e os deslocamentos de sentido que ela opera em três noções: Sociedade Civil, Participação e Cidadania”. (p.1).

A Constituição de 1988 trouxe alguns avanços democráticos para o Brasil, tendo para este alcance, a forte participação da sociedade civil no processo de redemocratização do país. As eleições livres e a reorganização partidária são avanços dessa ordem. Os anos 1990 apresentam alguns desses avanços já interiorizados na sociedade e nas esferas de poder do Estado ( no nível dos executivos municipais e estaduais e dos parlamentares, e mais recentemente no executivo federal).

A relação entre sociedade civil e Estado que outrora se apresentara conflitante, nos últimos, aparentemente o clonflito cedeu lugar para a possibilidade de uma ação conjunta em um aprofundamento democrático. Entretanto, Dagnino aponta para este fenômeno chamando atenção para uma possível tensão entre os atores, tensão essa que não aparente, e perversa por “consequências que contrariam o efeito de sua aparência” e seus efeitos “ se revelam mais distintos do que se podia esperar”.

Pode-se dizer que a participação da sociedade civil na política é uma conquista das diversas formas de manifestações, assim como a sua instrumentalização na Constituição de 1998. Entretanto, o cenário político é, segunda a autora, um campo minado, onde os espaços são delimitados. Embora a primeira vista a participação política da sociedade civil,seja de forma individual ou através de grupos específicos e ONG’s possa parecer um avanço democrático, pode-se observar que existe uma confluência perversa em que prevalece a disputa política velada.

“O processo de encolhimento do Estado e da progressiva transferência de suas responsabilidades sociais para a sociedade civil, que tem caracterizado os último anos, estaria conferindo uma dimensão perversa a essas jovens experiências (p.97).

O antagonismo é vivenciado pelas organizações não governamentais e movimentos sociais que se questionam sobre o seu papel político. Na realidade elas passam a exercer um papel que lhes é antagônico, servindo aos interesses do Estado na disputa política.

O projeto político democratizante no Brasil passa pelo processo semelhante ao dos demais países da América Latina, porém com suas singularidades. “O projeto neoliberal encontra no Brasil um contendor e dessa disputa determina, na nossa perspectiva, direções específicas às estratégias e formas de atuação das forças vinculadas ao projeto neoliberal em nosso país” (p.99).

A participação conjunta entre a sociedade civil e o Estado caracterizam a “confluência perversa” que segundo a autora, determina o obscurecimento dessas distinções e divergências fundamentais, por meio de um vocabulário comum e de procedimentos e mecanismos institucionais que guardam uma similaridade significativa.

As noções de sociedade civil, participação e cidadania mantém uma estreita relação e por isso foi escolhido para análise desse processo em que ocorre o deslocamento dos sentidos. A política neoliberal mudou a cultura do pensamento social no Brasil no projeto participativo que minimiza o Estado. A redefinição dos sentidos reconfigura a relação entre sociedade civil e Estado.

As ONGs por exemplo dialogam com o Estado falando em nome de minorias, entretanto o Estado possui conhecimento dessas organizações que são instrumentalizadas para promover serviços que antes eram papel do Estado. As organizações sociais,  assim definidas pela Reforma Administrativa do Estado implementada pelo Ministro Luis Carlos Bresser Pereira, para designar  a forma de participação da sociedade civil nas políticas públicas, instituída pela Constituição de 1988, reduzem a participação e a administração do Estado que torna-se o gestor das demandas e das suas representações sociais. A noção de cidadania também sofreu um processo de deslocamento de significado. A nova cidadania, ou cidadania ampliada formulada pelos movimentos sociais, expressa não somente uma estratégia política, mas também uma política cultural, implicando na noção do direito  que se limita a provisões legais e abstratas. As reivindicações associadas à cidadania se caracterizam pela necessidade de inserção em um projeto político já dado. (Associar esse processo à Piramide Marshall invertida no Brasil, exemplifica o que a autora está dizendo).

A Constituição de 1988, conhecida também por “Constituição Cidadã” possibilitou uma nova interpretação de cidadania, não se limitando mais a um conjunto de sujeitos, estando agora nitidamente associada à política.

O mercado, também regulado pelo Estado, é legitimado pela concepção neoliberal individualista, tendo a cidadania um papel relevante neste processo, na medida em que o mercado se torna a encarnação das virtudes modernas e o único caminho para o “sonho latino-americano de inclusão no Primeiro-mundo”.

A pobreza passa a ser administrada por organizações e torna-se também o hobby da classe média (dramático),  sedo a cidadania uma reduzida solidariedade aos pobres. Reduzidos pois exercem o papel de caridade, e por excluírem do debate as causas da desigualdade e questões políticas. O Primeiro Setor seria o mercado, o Segundo o Estado, e o Terceiro Setor a sociedade civil, agora representada por organizações específicas, tal como apresentadas anteriormente.

Os alvos das políticas publicas não são mais vistos como cidadãos com direitos a terem direitos e sim como sujeitos carentes que precisam ser acolhidos por esse processo legitimado pelas instâncias constitucionais.

Belo texto!

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Morre o historiador Eric Hobsbawm

Morre o historiador Eric Hobsbawm

fonte: band.com.br
O pensador marxista britânico morreu aos 95 anos no início de hoje, após uma longa doença, de acordo com sua filha, Julia.
O historiador tratou de muitos temas, em sua longa carreira, entre eles a ascensão do Estado-nação e movimentos revolucionários / Tuca Vieira / Folha Press

 Um dos principais historiadores do século 20, Eric Hobsbawm morreu aos 95 anos, informou a família dele nesta segunda-feira, de acordo com o jornal “The Guardian”.

O pensador marxista britânico morreu no início de hoje, no Royal Free Hospital, em Londres, após uma longa doença, de acordo com sua filha, Julia.
Nascido em uma família judia em Alexandria, no Egito, Hobsbawm viveu em Viena, na Áustria, e Berlim, na Alemanha. Com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, sua família seguiu em 1933 para Londres, onde Hobsbawm seguiu seus estudos e se graduou, em Cambridge, além de adotar a cidadania britânica.

O historiador tratou de muitos temas, em sua longa carreira, entre eles a ascensão do Estado-nação, movimentos revolucionários, a história contemporânea em geral e até, em uma de suas obras, fez uma história social do jazz. Entre seus principais livros estão “A era das revoluções”, “A era do capital”, “A era dos extremos” e “Nações e Nacionalismo desde 1780”. Desenvolveu quase toda sua carreira na Birkbeck University, mas também foi, por exemplo, professor-visitante em Stanford, nos EUA, nos anos 1960.

O “Guardian” lembra que o fato de Hobsbawm ter se mantido fiel ao marxismo ao longo do tempo era alvo de polêmica, sobretudo após ficarem claros os vários abusos cometidos por lideranças socialistas em países como a Hungria e na própria União Soviética em relação aos opositores do regime ou a algumas minorias. Em uma declaração lembrada pelo diário britânico, Hobsbawm disse que nunca tentou minimizar as atrocidades cometidas na Rússia, mas acreditara que o sistema soviético poderia representar uma solução melhor para a humanidade que o capitalismo do Ocidente.

Hobsbawm veio ao Brasil em 2003, para a primeira edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Na ocasião, falou, por exemplo, de sua autobiografia, “Tempos interessantes”.

14 de Setembro de 2011 – 10h54

Entrevista com Eric Hobsbawm: Trocando mitos por história

Eric Hobsbawm é um historiador merecedor de todo o respeito. Num tempo em que a atividade central da grande maioria dos historiadores burgueses consiste na reescrita da história de acordo com as conveniências da ideologia dominante, a sua fidelidade à matriz marxista na investigação e no método serve de exemplo, independentemente das discordâncias que este ou aquele aspecto da sua obra suscitem.

Discordâncias que ele próprio assume frontalmente: “O que busco é o entendimento da história, e não concordância, aprovação ou comiseração”. Esta interessante entrevista é um exemplo da importância da reflexão de alguém que conta 94 anos, ou seja, de alguém que nasceu no ano da grande revolução socialista de outubro.

Estadão: No livro Globalização, Democracia e Terrorismo, de 2007, o senhor passa para os leitores certo pessimismo ao lhes colocar uma perspectiva crucial e ao mesmo tempo desconfortante: ”Não sabemos para onde estamos indo”, diz, referindo-se aos rumos mundiais. Olhando as últimas décadas pelo retrovisor da história, esse sentimento parece ter se intensificado. Em que outros momentos a humanidade viveu períodos marcados por essa mesma sensação de falta de rumos?

Eric Hobsbawm: Embora existam diferenças entre os países, e também entre as gerações, sobre a percepção do futuro – por exemplo, hoje há visões mais otimistas na China ou no Brasil do que em países da União Europeia e nos Estados Unidos –, ainda assim acredito que, ao pensar seriamente na situação mundial, muita gente experimente esse pessimismo ao qual você se refere. Porque de fato atravessamos um tempo de rápidas transformações e não sabemos para onde estamos indo, mas isso não constitui um elemento novo em tempos críticos. Tempos que nos remetem ao mundo em ruínas depois de 1914, ou mesmo a vários lugares daquela Europa entre duas grandes guerras ou na expectativa de uma terceira.
Aqueles anos durante e após a 2ª Guerra foram catastróficos, ali ninguém poderia prever que formato o futuro teria ou mesmo se haveria algum futuro. Cruzamos também os anos da Guerra Fria, sempre assustadores pela possibilidade de uma guerra nuclear. E, mais recentemente, notamos a mesma sensação de desorientação ao vermos como os Estados Unidos mergulharam numa crise econômica que até parece ser o breakdown do capitalismo liberal.

Estadão: Nações saíram empobrecidas, arruinadas mesmo, das guerras mundiais, mas é adequado pensar que havia naqueles escombros o desenho de um futuro?

Eric Hobsbawm: Sim. Se de um lado o futuro nos era desconhecido e cada vez mais inesperado, havia por outro lado uma ideia mais nítida sobre as opções que se apresentavam. No entreguerras, a escolha principal de um modelo se dava entre o capitalismo reformado e o socialismo com forte planejamento econômico – supremacia de mercado sem controle era algo impensável. Havia ainda a opção entre uma democracia liberal, o fascismo ultranacionalista e o comunismo.
Depois de 1945, o mundo claramente se dividiu numa zona de democracia liberal e bem-estar social a partir de um capitalismo reformado, sob a égide dos EUA, e uma zona sob orientação comunista. E havia também uma zona de emancipação de colônias, que era algo indefinido e preocupante. Mas veja que os países poderiam encontrar modelos de desenvolvimento importados do Ocidente, do Leste e até mesmo resultante da combinação dos dois. Hoje esses marcos sinalizadores desapareceram e os “pilotos” que guiariam nossos destinos, também.

Estadão: Como o senhor avalia o poder das imagens de destruição nos ataques do 11/9 a Nova York, tão repetidas nos últimos dias? Tornaram-se o símbolo de uma guinada histórica, apontando novas relações entre Ocidente e Oriente? Por que imagens do cenário de morte de Bin Laden surtiram menos impacto?

Eric Hobsbawm: A queda das torres do World Trade Center foi certamente a mais abrangente experiência de catástrofe que se tem na história, inclusive por ter sido acompanhada em cada aparelho de televisão, nos dois hemisférios do planeta. Nunca houve algo assim. E sendo imagens tão dramáticas, não surpreende que ainda causem forte impressão e tenham se convertido em ícones.
Agora, elas representam uma guinada histórica? Não tenho dúvida de que os Estados Unidos tratam o 11/9 dessa forma, como um turning point, mas não vejo as coisas desse modo. A não ser pelo fato de que o ataque deu ao governo norte-americano a ocasião perfeita para o país demonstrar sua supremacia militar ao mundo. E com sucesso bastante discutível, diga-se. Já o retrato de Bin Laden morto (que não foi divulgado) talvez fosse uma imagem menos icônica para nós, mas poderia se converter num ícone para o mundo islâmico. Da maneira deles, porque não é costume nesse mundo dar tanta importância a imagens, diferentemente do que fazemos no Ocidente, com nossas camisetas estampando o rosto de Che Guevara.

Estadão: Mas além da chance de demonstrar poderio militar, os Estados Unidos deram uma guinada na sua política externa a partir de 2001, ajustando o foco naquilo que George W. Bush batizou como “war on terror”. Outro encaminhamento seria possível?

Eric Hobsbawm: Eu diria que a política externa norte-americana, depois de 2001, foi parcialmente orientada para a guerra ao terror, e fundamentalmente orientada pela certeza de que o 11/9 trouxe para os EUA a primeira grande oportunidade, depois do colapso soviético, de estabelecer uma supremacia global, combinando poder político-econômico e poder militar.
Criou-se a situação propícia para espalhar e reforçar bases militares americanas na Ásia central, ainda uma região muito ligada à Rússia. Sob esse aspecto, houve uma confluência de objetivos – combate-se o inimigo ampliando enormemente a presença militar norte-americana. Mas, sob outro aspecto, esses objetivos conflitaram. A guerra no Iraque, que no fundo nada tinha a ver com a Al-Qaida, consumiu atenção e uma enormidade de recursos dos EUA, e ainda permitiu à organização liderada por Bin Laden criar bases não só no Iraque, mas no Paquistão e extensões pelo Oriente Médio.

Estadão: Os Estados Unidos lançaram-se nessa campanha sabendo o tamanho do inimigo?

Eric Hobsbawm: O perigo do terrorismo islâmico ficou exagerado, a meu ver. Ele matou milhares de pessoas, é certo, mas o risco para a vida e a sobrevivência da humanidade que ele possa representar é muito menor do que o que se estima. Exemplo disso são as importantes mudanças que ocorreram neste ano no mundo árabe, mudanças que nada devem ao terrorismo islâmico. E não só: elas o deixaram à margem.
Agora, o mais duradouro efeito da war on terror, aliás, uma expressão que os diplomatas norte-americanos finalmente estão abandonando, terá sido permitir que os Estados Unidos revivessem a prática da tortura, bem como permitir que os cidadãos fossem alvo de vigilância oficial. Isso, claro, sem falar das medidas que fazem com que a vida das pessoas fique mais desconfortável, como ao viajar de avião.

Estadão: Diante dos problemas econômicos que hoje afligem os Estados Unidos, ainda sem um horizonte de recuperação à vista, o senhor diria que seguimos em direção a um tempo de declínio da hegemonia norte-americana?

Eric Hobsbawm: Nós de fato caminhamos em direção à Era do Declínio Americano. As guerras dos últimos dez anos demonstram como vem falhando a tentativa norte-americana de consolidar sua solitária hegemonia mundial. Isso porque o mundo hoje é politicamente pluralista, e não monopolista. Junto com toda a região que alavancou a industrialização na passagem do século 19 para o século 20, hoje a América assiste à mudança do centro de gravidade econômica do Atlântico Norte para o Leste e o Sul.
Enquanto o Ocidente vive sua maior crise desde os anos 1930, a economia global ainda assim continua a crescer, empurrada pela China e também pelos outros Brics. Ainda assim, não devemos subestimar os Estados Unidos. Qualquer que venha a ser a configuração do mundo no futuro, eles ainda se manterão como um grande país e não apenas porque são a terceira população do planeta. Ainda vão desfrutar, por um bom tempo, da notável acumulação científica que conseguiram fazer, além de todo o soft power global representado por sua indústria cultural, seus filmes, sua música, etc.

Estadão: Não só por desdobramentos político-militares do 11/9, mas também pela emergência de novos atores no mundo globalizado, criam-se situações bem desafiadoras. Por exemplo, o que o Ocidente sabe do Islã? E dos países árabes que hoje se levantam contra seus regimes? Qual é o grau de entendimento da China? Enfim, o Ocidente enfrenta dificuldades decorrentes de uma certa superioridade cultural ou arrogância histórica? Eric Hobsbawm: Ao longo de toda uma era de dominação, o Ocidente não só assumiu que seus triunfos são maiores do que os de qualquer outra civilização, e que suas conquistas são superiores, como também que não haveria outro caminho a seguir. Portanto, ao Ocidente restaria unicamente ser imitado. Quando aconteciam falhas nesse processo de imitação, isso só reforçava nosso senso de superioridade cultural e arrogância histórica.
Assim, países consolidados em termos territoriais e políticos, monopolizando autoridade e poder, olharam de cima para baixo para países que aparentemente estavam falhando na busca de uma organização nas mesmas linhas. Países com instituições democráticas liberais também olharam de cima para baixo para países que não as tinham. Políticos do Ocidente passaram a pensar democracia como uma espécie de contabilidade de cidadãos em termos de maiorias e minorias, negando inclusive a essência histórica da democracia.
E os colonizadores europeus também se acharam no direito de olhar populações locais de cima para baixo, subjugando-as ou até erradicando-as, mesmo quando viam que aqueles modos de vida originais eram muito mais adequados ao meio ambiente das colônias do que os modos de vida trazidos de fora. Tudo isso fez com que o Ocidente realmente desenvolvesse essa dificuldade de entender e apreciar avanços que não fossem os próprios.
Estadão: Essa superioridade do Ocidente pode mudar com a emergência de uma potência como a China?

Eric Hobsbawm: Mas mesmo a China, que no passado remoto era tida como uma civilização superior, foi subestimada por longo tempo. Só depois da 2ª Guerra é que seus avanços em ciência e tecnologia começaram a ser reconhecidos. E só recentemente historiadores têm levantado as extraordinárias contribuições chinesas até o século 19.
Veja bem, ainda não sabemos em que medida a cultura, a língua e mesmo as práticas espirituais da Pérsia, hoje Irã, enfim, em que medida aquele fraco e frequentemente conquistado império influenciou uma grande parte da Ásia, do Império Otomano até as fronteiras da China. Sabemos? Temos grande dificuldade em compreender a natureza das sociedades nômades, bem como sua interação com sociedades agrícolas assentadas, e hoje a falta dessa compreensão torna quase impossível traduzir o que se passa em vastas áreas da África e da região do Saara, por exemplo, no Sudão e na Somália.
A política internacional fica completamente perdida quando confrontada por sociedades que rejeitam qualquer tipo de estado territorial ou poder superior ao do clã ou da tribo, como no Afeganistão e nas terras altas do sudoeste asiático. Hoje achamos que já sabemos muito sobre o Islã, sem nem sequer nos darmos conta de que o radicalismo xiita dos aiatolás iranianos e o sonho de restauração do califado por grupos sunitas não são expressões de um Islã tradicional, mas adaptações modernistas, processadas o longo século 20, de uma religião prismática e adaptável.

Estadão: Com todos esses exemplos de ”mundos” que se estranham, o senhor diria que a história corre o risco das distorções?

Eric Hobsbawn: Apesar de todos esses exemplos, sou forçado a admitir que a arrogância histórica ocidental inevitavelmente se enfraquece, exceto em alguns países, entre eles os EUA, cujo senso de identidade coletiva ainda consiste na crença de sua própria superioridade. Nos últimos dez anos, a história tomou outro curso, muito afetada pelas imigrações internacionais que permitem a mulheres e homens de outras culturas virem para os “nossos” países.
Dou um exemplo: hoje a informação municipal na região de Londres onde vivo está disponível não apenas em inglês, mas em albanês, chinês, somali e urdu. A questão preocupante é que, como reação a tudo isso, surge também uma xenofobia de caráter populista, que se propaga até nas camadas mais educadas da população. Mas, inegavelmente, numa cidade como Londres ou Nova York, onde a presença dos imigrantes de várias partes é forte, existe hoje um reconhecimento maior da diversidade do mundo do que se tinha no passado.
Turistas que buscam destinos na Ásia, África ou até mesmo no Caribe costumam não entender a natureza das sociedades que cercam seus hotéis, mas jovens mulheres e homens que hoje viajam, a trabalho ou estudos, para esses lugares, já criam outra compreensão. Em resumo, apesar da expansão de xenofobia, há motivos para otimismo porque a compreensão abrangente do nosso tempo complexo requer mais do que conhecimento ou admiração por outras culturas. Requer conhecimento, estudo e, não menos importante, imaginação.
Estadão: Imaginação?

Eric Hobsbawm: Sim, porque essa compreensão abrangente é frequentemente dificultada pelo persistente hábito de políticos e generais passarem por cima do passado. O Afeganistão é um clamoroso exemplo do que estou dizendo. Temo que não seja o único.
Estadão: Na sua opinião, estaríamos atravessando um momento regressivo da humanidade quando fundamentalismos religiosos impõem visões de mundo e modos de vida?

Eric Hobsbawm: O que vem a ser um momento regressivo? Esta é a pergunta que faço. Não acredito que nossa civilização esteja encarando séculos de regressão como ocorreu na Europa Ocidental depois da queda do Império Romano. Por outro lado, devemos abandonar a antiga crença de que o progresso moral e político seja tão inevitável quanto o progresso científico, técnico e material. Essa crença tinha alguma base no século 19.
Hoje o problema real que se coloca, o maior deles, é que o poder do progresso material e tecnocientífico, baseado em crescente e acelerado crescimento econômico, num sistema capitalista sem controle, gera uma crise global de meio ambiente que coloca a humanidade em risco. E, à falta de uma entidade internacional efetiva no plano da tomada de decisão, nem o conhecimento consolidado do que fazer, nem o desejo político de governos nacionais de fazer alguma coisa estão presentes.
Esse vazio decisório e de ação pode, sim, levar o nosso século para um momento regressivo. E certamente isso tem a ver com aquele “sentido de desorientação” que discutimos no início da entrevista.

Estadão: Apoiado na sua longa trajetória acadêmica, que conselhos o senhor daria aos jovens historiadores de hoje?

Eric Hobsbawn: Hoje pesquisar e escrever a história são atividades fundamentais, e a missão mais importante dos historiadores é combater mitos ideológicos, boa parte deles de feitio nacionalista e religioso. Combater mitos para substituí-los justamente por história, com o apoio e o estímulo de muitos governos, inclusive. Se eu fosse jovem o suficiente, gostaria de participar de um excitante projeto interdisciplinar que recorresse à moderna arqueologia e às técnicas de DNA para compor uma história global do desenvolvimento humano, desde quando os primeiros Homo sapiens tenham aparecido na África oriental e como elas se espalharam pelo globo.
Agora, se eu fosse um jovem historiador latino-americano, daí eu poderia ser tentado a investigar o impacto do meu continente sobre o resto do mundo. Isso, desde 1492, na era dos descobrimentos, passando pela contribuição material desse continente a tantos países, com metais preciosos, alimentos e remédios, até o efeito da América Latina sobre a cultura moderna e a compreensão do mundo, influenciando intelectuais como Montaigne, Humboldt, Darwin. E, evidentemente, eu pesquisaria a riqueza musical do continente, fosse eu um latino-americano. Isso é tudo o que eu quero dizer.
A Roda Bélica da História, por Hobsbawn
1ª Guerra, o banho de sangue
O tempo histórico era outro, avalia Hobsbawm. O mundo ficara quase um século sem um grande conflito e o conceito de “paz” fez-se sinônimo de “antes de 1914”, ano em que Francisco Ferdinando, da Áustria, foi morto. Detonava-se o conflito que iria sangrar a Europa.
2ª Guerra, o mistério
O mundo sabia o que era uma guerra maciça, mas não uma guerra global. Eis a amarga contribuição da 2ª Guerra, conflito sem limites. Hobsbawm indaga: por que Hitler, esgotado na Rússia, declarou guerra aos EUA, permitindo que se associassem à Grã-Bretanha?
Guerra Fria, o absurdo
Como explicar 40 anos de tensão pela crença de que o planeta poderia explodir a qualquer momento e, contra a destruição total, só haveria a chance da dissuasão mútua? Para Hobsbawm, a Guerra Fria dos tempos de Kruchev carregou a inconclusão da Era da Catástrofe.
Guerra do Golfo, o lucro
Ao findar da Guerra Fria, lembra o historiador, a hegemonia econômica norte-americana já estava abalada. E sua superioridade militar teve que ser financiada por apoiadores de Washington. Na guerra contra o Iraque, em 1991, a potência presidida por Bush pai realizou lucros.
Fonte: O Estado de S. Paulo

A nova classe média está consumindo mais ou sendo mais consumida?

Na última década o termo “ascensão” tem sido constantemente empregado para descrever o perfil daqueles que compõe a famosa classe C, também conhecida por nova classe média. Sociólogos de gabinete tem se ocupado na elaboração de teorias que possam explicar esse fenômeno, enquanto os marqueteiros de plantão estão empenhados para traçar o perfil desses novos consumidores disponibilizando diversos produtos em diferentes nichos de mercado.

Segundo o Governo Federal 94,9 milhões de brasileiros (50,5 da população) pertence a nova classe média o que a torna dominante do ponto de vista eleitoral e econômico

O lema do momento é afirmar que a classe C segura a economia do país, e eu me pergunto se de fato não foi sempre assim, afinal quem é essa enigmática classe C, se não a massa composta por trabalhadores ocupados na produção do capital que recebe em troca algum valor em espécie que possibilita o seu acesso ao consumo? Qual a novidade que sejam esses que seguram a economia do país, pagando os impostos mais caros para sobreviver e dispensando toda a sua renda em consumo básico para suas necessidades cotidianas?

Se analisarmos o processo da construção econômica do Brasil em contraposição ao processo de regulamentação do trabalho, podemos obter resultados precisos sobre o papel do trabalhador no desenvolvimento econômico do país. O trabalhador desenvolve a mão de obra e por outro lado devolve sua renda em consumo, no exemplo mais clássico da relação da mais valia no processo capitalista.

O trabalho sempre foi o principal alicerce para as transformações econômicas que por sua vez desencadearam uma série de transformações na ordem social no Brasil. O trabalhador é o ator fundamental para tais processos, pois é ele que compõe a massa ativa da população, que não só faz parte na história, como faz parte ativamente da história do país.

Segundo o Instituto de pesquisa Data Popular, a classe C é responsável por 78% do que é comprado em supermercados, 60% das mulheres vão a salões de beleza, 70% dos cartões de crédito no país e 80% acessam a internet.

Empresas que até então segmentavam o atendimento à classe rica da população estão criando linhas específicas para disponibilizar produtos acessíveis, visando seduzir a classe ativa que mais oferece chance de consumo. Até as imponentes cias. aéreas estão buscando parcerias com lojas populares como “Casas Bahia” para atender esse novo publico.

É fato que uma parcela da população está tendo acesso a produtos e serviços que até então eram considerados supérfluos e luxuosos, entretanto esse cenário não significa que a ascensão social no Brasil é possível diante desse fenômeno, pois ainda existe uma parcela muito grande de pessoas que se encontram à margem desse processo, impossibilitadas inclusive de se tornarem números de pesquisas.

A nova política de classes, segundo Klaus Eder

Capítulo I – reintroduzindo as classes na teoria da sociedade: a cultura como elo perdido entre classes e ação coletiva.

Desconectando classes e ação coletiva

 

Na era moderna é possível ainda falar de classes?

Sim, pois elas não desapareceram, estão apenas sobre outras configurações em um processo em que a cultura apresenta um papel importante: como elo que liga a classe e a ação coletiva, entretanto ela  é também o motivo da sua desconexão.

* definição de cultura utilizada pelo autor: qualquer tipo de expressão simbólica que dê sentido ao mundo.

O autor desconstrói a hipótese da não existência das classes na sociedade moderna, pois essa hipótese pressupõe que as expressões culturais não estão mais bem definidas. Para Klaus Eder, o que mudou foram as expressões culturais e não necessariamente as classes. Entretanto partir da análise das classes para dar partida ao contexto moderno da sociedade é inadequado para o contexto atual.

Analise da cultura, como mediadora dos conflitos de classe, liga diretamente classe de ação coletiva. A classe determina como a cultura é usada no cotidiano. A cultura é um meio de comunicação, e quanto mais as pessoas se relacionam, mas elas produzem diferenças sociais nos processos de comunicação em curso” (p.19). Dessa forma, as dinâmicas culturais divergem da dinâmica de classes.

O autor explica que o termo “crise política de classe” não aponta para o desaparecimento das classes, e sim para uma nova análise das classes, partindo do princípio que a ação coletiva não pode mais encontrar uma base legítima para a posição de classe. A nova teoria deve considerar o valor moral da classe como uma variável,e não como a essência da classe, pois as classes tornaram-se livres de valores. Entretanto as ações de classes ainda existem, e podem inclusive aumentar.

A classe não deve mais ser entendida como ator que age em um movimento definido, deve-se observar que os indivíduos são os novos atores e que agem conforme seu espaço de ação de classe estruturante. A estrutura assume uma abordagem importante para Klaus Eder, e por isso ele julga importante explicar as determinações acionalistas e culturalistas, para posteriormente o leitor compreender a importância da sua abordagem para a análise das classes na teoria das sociedades.

Ação coletiva e movimentos sociais

A interpretação acionalista, será situada o interior da teoria e da pesquisa sobre movimentos sociais. Para Klaus Eder, os movimentos sociais têm sido observados por uma ótica equivocada e simplista, devido a abordagem da microssociologia, que muitas vezes estudam os movimentos sociais a partir de suas reivindicações ou pela estrutura semelhante a de uma empresa. Dessa forma as abordagens  se distanciam da  macrossociologia e deixa passar o papel importante dos movimentos sociais, como  macro atores responsáveis pela produção e reprodução do contexto sociocultural.

O espaço público é o espaço onde os movimentos sociais se representam e são representados pelos por seus membros ou oponentes, Nessa perspectiva, pode-se entender os movimentos sociais são construídos no espaço publico e sua função pode ser entendida dentro do processo. Porém existe um limite nessa análise construtivista, que permite observar a interação entre os atores, porém não diz nada do que acontece quando eles começam a agir. “os atores são parte de um sistema que define a função social que eles desempenham” (p.22). Levando em consideração   a pluralidade de atores coletivo, torna-se importante uma análise funcionalista, empregando os termos do autor. Os atores sociais interagem com determinados contextos sociais, e e são elementos construtivo da sociedade, criando um diálogo com os problemas, através da sua forma de mobilização. Essa perspectiva sobre os movimentos sociais, difere da macrossociologia (que não os considera como portadores da mudança social), e vai além das microanálises (que se limitam a observar as movimentações em termos de reivindicações).

A análise proposta por Klaus Eder foi construída a partir dessas duas tradições, entretanto adiciona um novo elemento: a independência dos atores em um contexto institucional, ou seja,leva em consideração a comunicação entre os atores e não conduz diretamente para a análise de classe.

O importante neste caso é observar o contexto em que essas relações se produzem e reproduzem, pois as ações coletivas estão inseridas num contexto cultural significativo. Os movimentos sociais não são compostos por aglomerados de atores sociais com características em comum. A cultura assume um papel central para análise da ação coletiva, pois ela de fato está no centro das relações.

Por que discutir sobre classes?

 

Porque ela assume um papel macroestruturante do contexto social, porém não deve assumir uma abordagem explicativa do contexto social. Diante de diversos conflitos (étnicos, religiosos e etc.) faz-se necessário retomarmos a questão das classes, porém estando atento a estas premissas na abordagem sociológica.

O autor faz uma reflexão interessante sobre a classe trabalhadora. Ela copta interesses diversos, não necessariamente ligado aos interesses da classe, como o autoritarismo e o nacionalismo. Seguindo a reflexão, lembrei da tese de doutorado do André Singer, onde ele apresenta dados sobre a posição conservadora da classe trabalhadora pertencente a camada mais pobre da população. Nos indicadores, André Singer mostra que muitos são a favor da repressão política aos movimentos sociais e preferem o conservadorismo político, e não uma revolução da classe trabalhadora como propunha o ex-presidente Lula quando ainda candidato em 1988. Fazendo o candidato assumir a conhecida postura “lulinha paz e amor” para atingir esse eleitorado. Klaus Eder explica que na medida em que cultura (como variável intermitente) desenvolveu a sua própria dinâmica, no interior das sociedades modernas, a mediação das classes foi se tornando mais complexa e “menos óbvio o elo entre as classes e o seu efeito”.

Mesmo com esta importância da cultura, uma redução culturalista na análise deve ser questionada. Seguindo a lógica do pensamento do autor, devemos olhar para a classe (como estrutura estruturante) e para a cultura (como mediação entre o contexto social e os atores sociais) e a ação coletiva com a mesma intensidade, pois assim não deixamos passar objetos importantes para a análise da constituição da sociedade moderna.

A textura como ele perdido

Classes e ações sociais: como milhares de posições e comportamentos individuais são transformados em num evento coletivo que chamamos de movimento social? Pergunta tradicional.

A pergunta atual é: como a ação coletiva constitui um espaço de ação simbolicamente definido que é tanto uma condição quanto o resultado desta ação? (p.28).O autor responde que a ação coletiva está inserida numa textura cultural específica, num discurso organizado “anterior às motivações dos atores para agir juntos e que até os ultrapassa”  (p.29).Estas texturas são explicadas não pelas classes, mas pelas formas culturais, pois elas se referem as formas de vida cultural que permitem os indivíduos agirem coletivamente. As formas de vida são espaços de ação simbolicamente organizadas que acontecem através da lógica cultural.

“ A textura de classe medeia o efeito da classe sobre a ação coletiva” (p.30), ela incorpora as formas de vida que constituem e reproduzem um espaço de ação, constituindo o universo do discurso quando os símbolos são comunicados.

Anotações feitas a partir da leitura do texto “A nova política de classe” Klaus Eder.

Capítulo I. “Reintroduzindo as classes na teoria da sociedade: a cultura como elo perdido entre classes e ação coletiva“.

Vitória democrática e laica para o Brasil

Por Kauara Rodrigues e Vanda Regina Albuquerque

Com oito votos a favor e dois contra a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 54, o Plenário da Corte aprovou, nesta quinta-feira (12), a descriminalização da antecipação do parto em caso de gravidez de feto anencéfalo. O Supremo Tribunal Federal (STF) protege assim as mulheres da tortura e indignidade de ter de levar a cabo a gravidez que deseja interromper, porque o feto não tem chance de vida extra-uterina.

Talvez desde a aprovação da Lei Maria da Penha, em 2006, as mulheres brasileiras não tenham tido reconhecimento de direito tão relevante para a garantia dos direitos humanos no país. Lutar e conquistar a dispensa de autorização judicial para interromper a gestação de feto anencéfalo representa um passo crucial no respeito à autonomia, à dignidade e aos direitos reprodutivos das mulheres.

Os dois longos dias de julgamento não se aproximam da dor das mulheres que foram obrigadas a levar a gravidez de um feto anencéfalo até o final ou percorrer uma verdadeira via crucis, por uma autorização judicial para interrompê-la. Sofrimento narrado no brilhante documentário biográfico “Uma História Severina”, disponibilizado no youtube.

Nesse sentido, garantir o direito à antecipação do parto é permitir que a mulher tenha a opção de “escolha pela menor dor”, como defendeu a ministra Carmem Lúcia em seu voto. Isso representa reconhecer as mulheres como sujeitos autônomos, com direito de optar pelo melhor caminho a seguir em um momento doloroso.

O longo discurso do ministro relator Marco Aurélio relembrou, por via da História, que há tempos o Estado Brasileiro é laico e deveria tomar suas decisões baseado nos princípios de direito. O Estado deve defender a liberdade religiosa, o direito de credo de cada pessoa e, por isso mesmo, pautar o debate e as decisões do poder público no direito, e não em princípios ou dogmas de qualquer religião.

Por fim, descriminalizar a mulher que opta por interromper uma gestação de feto anencéfalo representa um avanço democrático para avgarantia dos direitos reprodutivos. Trata-se do “direito da mulher de não ser um útero à disposição da sociedade”, como defendeu Luís Roberto Barroso, advogado da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Saúde – CNTS, em sua sustentação oral de defesa da ADPF no Supremo.

Essa é uma conquista democrática e laica histórica que a cidadania brasileira deve sublinhar e reconhecer publicamente à Severina e a todas as mulheres que, apesar da dor, decidiram enfrentar a longa batalha judicial; à CNTS e à Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero que moveram e articularam toda essa ADPF no STF; aos movimentos feministas e de mulheres e a tod@s @s defensor@s dos direitos humanos que sustentaram sem tréguas a autonomia das mulheres para decidir sobre manter ou interromper a gravidez e pelas mudanças profundas que produziram para a efetivação da Justiça no nosso país.

Kauara Rodrigues – Centro Feminista de Estudos e Assessoria/CFEMEA (Brasília/DF) Vanda Regina Albuquerque – Coletivo Leila Diniz (Natal/RN)

Entrevista com o autor de A revolução passiva no Brasil, Luiz Werneck Vianna

Compartilho entrevista diponível em http://www.feminismo.org.br/

Ao avaliar o primeiro ano do governo Dilma Rousseff, o sociólogo Luiz Werneck Vianna defende que as questões que importam para a presidente são as de estado e de economia, de gestão, de racionalização. “Ela é muito desatenta em relação a esses problemas de tornar o governo mais poroso, mais próximo dos movimentos sociais, atraindo-os para o Estado e daí exercendo sobre eles uma tutela. A ênfase do governo Dilma é economia de gestão, racionalização”.

Werneck não concebe a ideia de que Dilma traia o mandato de Lula. “Ela procura ser fiel. O problema é que não é fácil ser fiel, pois ela é diferente dele”. Na entrevista a seguir, concedida por telefone para aIHU On-Line, o professor-pesquisador da PUC-Rio aposta no ressurgimento da política nos próximos anos com muita força. “Não há mais possibilidade de segurar a sociedade com esse jogo de manter os contrários em permanente equilíbrio”.

Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor percebe a marca do chamado “coronelismo” na coalizão de governo com ministros oriundos de oligarquias?

Werneck Vianna – Essa não seria uma designação adequada. O que ocorre é que os remanescentes desse sistema de controle político, que teve vigência durante décadas, estão ressurretos entre nós através da coalizão que o governo faz com os setores vinculados a práticas retardatárias e a formas de propriedade, especialmente o latifúndio, que predominaram e ainda predominam em boa parte do país, principalmente no Nordeste.

IHU On-Line – Por que o Brasil não consegue romper com as forças conservadoras e atrasadas? O senhor percebe a necessidade delas?

Werneck Vianna – Não vejo como necessidade para a boa governança do país, mas isso é resultado de um cálculo. Para se dar um passo é preciso recuar dois, especialmente se olharmos para a agenda comportamental. E hoje é um dia especial (dia 8 de março, dia internacional da mulher), para pensar nas questões referentes a comportamento, a mulher mesmo e a questão do aborto. Nisso não se avança, não se discute. Não é a questão de ser ou não a favor do aborto. Pelo contrário, trata-se de uma prática de saúde pública que está levando à morte milhares de mulheres que são mal atendidas.

IHU On-Line – Como conciliar a cobrança de Dilma de postura republicana dos seus ministros num governo com figuras que se formaram politicamente em ambientes onde se pratica o patrimonialismo e o clientelismo como regras do jogo?

Werneck Vianna – Essa é uma contradição. É difícil, porque são atitudes, comportamentos, expectativas republicanas que não são compatíveis com as formas como esses homens foram treinados, socializados e chegaram à política. E eles fazem política da forma mais tradicional. Não obstante, estão sendo mobilizados para realizar agendas modernas. Dilma escolhe apenas por cálculo político, para ter maioria governamental.

IHU On-Line – Há limites para a coalizão de governo?

Werneck Vianna – Devem existir. As coalizões devem ser programáticas e não de oportunidade e instrumentais como são essas nossas. Na verdade, o governo acha que representa o moderno e os interesses gerais da nação e qualquer acordo que ele faça com a tradição, com o atraso, com o patrimonialismo, com o clientelismo não importa.

IHU On-Line – O PT guarda ainda alguma inovação para a política nacional ou rendeu-se ao pragmatismo?

Werneck Vianna – Ele se rendeu. Mas há coisas importantes ainda no PT, que trouxe inovações, arejou e aproximou os movimentos sociais do governo, da administração, além de ter uma política muito atualizada e amável com a vida sindical. Os sindicatos têm uma participação importante ainda, não tanto no governo Dilma como tiveram no governo Lula, mas ainda têm alguns elementos característicos disso. Isso tudo são registros a serem feitos na agenda que o PT tem cumprido até aqui. O que ele perdeu foi o elã, a inspiração, o vínculo com as suas origens, com as suas grandes expectativas de produzir uma transformação no país. Na verdade, o PT se tornou uma força condutora da expansão burguesa no Brasil.

IHU On-Line – Em outras entrevistas o senhor sempre reiterou que o governo Lula havia cooptado os movimentos sociais, trazendo-os para dentro do Estado. Como está a situação levada por Dilma neste primeiro ano de governo?

Werneck Vianna – Isso persiste, mas com uma atenuação, visto que com Lula esse processo avançou muito. As questões que importam para Dilma são as de estado e de economia, de gestão, de racionalização. Ela é muito desatenta em relação a esses problemas de tornar o governo mais poroso, mais próximo dos movimentos sociais, atraindo-os para o Estado e daí exercendo sobre eles uma tutela. É uma questão que existe, que continua, mas não é a ênfase do governo Dilma. A ênfase do governo Dilma é economia de gestão, racionalização.

IHU On-Line – Em que sentido podemos ver a marca da racionalização no governo Dilma?

Werneck Vianna – Nesse sentido, ela vem merecendo o qualificativo de “gerentona”, a gerente do Brasil como empresa, como negócio e não como sociedade. O que traduz de forma mais incisiva é a natureza desse governo tendo como seu sistema fundamental de orientação o aprofundamento e a expansão da ordem burguesa no país. Daí os movimentos sociais estão articulados com o Estado, cooptados, os sindicatos não deixam de estar também jurisdicionados pelas políticas governamentais. A sociedade se deixa levar na medida em que a taxa de emprego está bastante razoável e os negócios prosperam. No entanto, a sociedade está órfã politicamente.

IHU On-Line – Em que medida Dilma difere de Lula em relação aos direitos humanos e aos sindicatos?

Werneck Vianna – Em relação aos direitos humanos, a posição dela difere positivamente. De qualquer forma, o mundo que ela pegou é diferente do mundo de Lula. Esse era anterior à Primavera Árabe e a todos os acontecimentos depois deste grande acontecimento que ainda persiste. Dilma se aproximou de uma agenda de direitos humanos bem mais moderna e atualizada do que a de Lula. O que não quer dizer que ela tenha rompido, mas ponderou algumas ênfases do governo Lula. Em relação aos sindicatos, não é o estilo dela. Ela não veio desse mundo. Ela veio aí do Rio Grande do Sul, da administração pública. A carreira de Dilma é de gestora. Lula fez uma carreira na sociedade civil, de líder sindicalista, que sabe falar e sabe qual é a linguagem própria a ser usada. De qualquer forma, ele tinha uma proximidade forte com os pleitos sindicais e se reunia com eles quase que entre iguais. Já a Dilma delega isso. Não concebo a ideia de que Dilma trai o mandato de Lula. Ela procura ser fiel. O problema é que não é fácil ser fiel, pois ela é diferente dele.

IHU On-Line – Mas por que o senhor afirma que Dilma cada vez mais é constrangida à infidelidade?

Werneck Vianna – Independentemente do sistema de valores dela, as circunstâncias atuais a obrigam a inflexões e mudanças, mesmo que elas não sejam lá muito compatíveis com o espírito e o sentido do que preponderou no governo Lula.

IHU On-Line – Como o senhor define a “cara própria” do governo Dilma?

Werneck Vianna – Dilma é uma grande racionalizadora, uma grande administradora. A política não é o ramo dela.

IHU On-Line – O que marca a guinada introduzida por Dilma no presidencialismo de coalizão brasileiro? Como seria uma coalizão mais programática?

Werneck Vianna – Essa guinada ela não fez e nem ameaça fazer. As marcas visíveis, evidentes até então, são de que ela persiste no modelo anterior. Não é fácil erradicar, é preciso ter coragem política para erradicar. Importaria ter um programa de reformas real. Mas o que vemos é um governo dividido em todas as questões. Por exemplo, a reforma trabalhista: os empresários a querem, os sindicatos não. Tanto empresários como sindicatos estão dentro do governo. Outro exemplo é a reforma do Código Florestal: a oposição entre o agronegócio e os ambientalistas é mortal. Os dois lados estão dentro do governo, assim como está também a estrutura da propriedade familiar. Como resolver isso? É um ministério para um, um ministério para outro, e assim vão se criando essas composições. Vejo que a reforma previdenciária, que parece que Dilma vai fazer, é algo que vai repercutir, por ser uma questão sensível e pelo fato de o PT ser um partido mais “funcionário público” do que qualquer outra coisa. A questão promete ser dolorosa. Não sei o quanto de dor, mas alguma dor isso acarretará.

IHU On-Line – A situação de Dilma também é delicada em relação à bancada evangélica no Congresso…

Werneck Vianna – Isso. De um lado ela é libertária e de outro está comprometida com o que há de mais recessivo em matéria comportamental na sociedade brasileira. Para onde ela vai? Quer aprofundar o moderno ou quer fazer com que o moderno só passe? Imagino daqui para frente um quadro de muita exasperação da política. Na questão dos funcionários públicos, na questão do meio ambiente, na questão militar já há indícios disso, bem como na questão agrária e na questão sindical. A política tende a ressurgir nos próximos anos com muita força. Não há mais possibilidade de segurar a sociedade com esse jogo de manter os contrários em permanente equilíbrio. Uma hora dessas, assim como no número das varetas no circo, isso vai cair, o equilibrista perde o controle. Não estou anunciando agonias. Estou dizendo apenas que a sociedade não vai ficar com essa ausência de movimentação que hoje a tem caracterizado. Isso vai se energizar. Há indicações fortes na vida associativa de robustecimento dela, o que tende a se generalizar de forma autônoma, sem vínculos com o Estado.

IHU On-Line – O senhor aposta em iniciativas como o movimento dos indignados, ou o Ocupe Wall Street, por exemplo?

Werneck Vianna – Cada forma de protesto tem a sociedade que merece. Não sei se vamos chegar a ações desse gênero. Estou falando de coisas mais tópicas, mais localizadas. Por exemplo, está muito difícil manter a força sindical dentro do governo do jeito que as coisas se encontram.

Parte 3 – Continuando a análise sobre partidos …

Agora que compreendemos um pouco de Duverger, vou tentar, dentro da minha insignificância intelectual desconstruir alguns pontos da sua teoria com a ajuda de Angelo Panebianco.

 

Texto:Partidos  e democracias: transformações e crises in Modelos de Partidos

Organização e poder nos partidos políticos, Martins Fontes 2005

A. Panebianco afirma que os partidos devem ser estudados na sua fisionomia e nas suas dinâmicas organizativas.

Sistema Partidário x Sistema Político

Para ele, houve um grande passo nas ciências políticas com o estudo de Duverger, que põe em questão a estrutura organizativa.

As organizações em geral diferem-se, porém a organização do controle interno visa perpetuar ou aumentar o poder de seus dirigentes e este é um importante componente para os conflitos que surgirão a seguir. Cita Michels “partido como instrumento de ampliação ou manutenção de poder de alguns homens sobre outros”.

O autor observa que para examinar as transformações dos partidos europeus, existem dois ângulos diferentes:

I)                  Questionar sobre o seu grau de vitalidade nos módulos organizativos, sinais de declínio, avaliar modalidades e direções.

II)               Observar as atividades, mudanças ou crise

A primeira forma de examinar, oferece um campo delimitado que privilegia a análise, enquanto a  segunda proporciona um campo mais amplo e mais traiçoeiro.

Partido burocrático de massa e partido profissional-eleitoral

Segundo a tese de Duverger, o partido de massa está presente no interior do regime burocrático, e esta tese serviu como hino às virtudes dos partidos de massa.

Panebianco, recorre a Otto Kirchheimer que inverte a posição:

O partido de massa era apenas a etapa historicamente superada ou em via de superação, de um desenvolvimento organizativo que estava transformando os partidos de “integração”, de classe e confessionais (os partidos de massa por excelência) em escritórios eleitorais cada vez mais semelhantes aos partidos norte-americanos” pg 51O.

 Ocorrem mudanças nas dimensões organizativas, mudanças estas que causam tensões entre as partes.

Na medida em que o ambiente muda, os partidos sofrem pressões externas para se transformar também e “quanto menos fragmentado é o sistema de partidos, quanto mais é dominado por poucas organizações grandes, mais cedo e com maior velocidade intervém a mudança. Por outro lado, uma fragmentação excessiva do sistema de partidos tende a frear, a retardar a transformação”.

Portanto, a análise da proporção do eleitorado operário que um determinado partido comunista ou socialista mantém associado, não é precisa. Uma vez que a configuração ou fisionomia das classes Ocidentais mudou profundamente, o aspecto político do eleitorado também muda. Da mesma forma que, segundo Panebianco, faz pouco sentido medir o eleitorado de outras classes com os mesmos princípios metodológicos, pois as transformações sociais inevitavelmente repercutem nos partidos.

A propaganda eleitoral que é cada vez mais articulada, também altera a relação entre as partes (eleitores e partidos).

O partido de massa é uma instituição forte, enquanto o partido profissional eleitoral é uma instituição fraca. No processo de “transição” (termo aplicado por mim com sério risco de ser mal interpretado, mas me foge melhor denominação) ocorrem algumas alterações na estrutura dos partidos, como: desinstitucionalização e redução de autonomia partidária em relação ao ambiente.

No capítulo “ A crise dos partidos”, Panebianco observa “que algumas das principais funções exercidas pelos partidos em sua velha estrutura burocrática de massa, não devem ser denominadas como caráter de monopólio, pois existem outras instituições que exercem a mesma influência, como a igreja, a família e etc.

Dentre essas influências, exemplifico a doutrina, para melhor compreensão do leitor, porém A. Panebianco discorre melhor sobre isso exemplificando 03 funções na página 522.

O partido eleitoral profissional sofre dois efeitos do vazio das entidades coletivas:

I –  Difusão de comportamentos políticos

II – Ativo processo de multiplicação das estruturas de representação dos interesses

“ (…) os grupos de interesse vão a campo em número ainda maior que no passado, patrocinando diretamente os próprios representantes políticos) pg 524.

Como consequência ocorre a oposição ao partido, que se enfraquece como organização em todas as ocasiões, ou seja, mudanças nas divisões políticas.

As rupturas históricas: centro-periferia, Estado-Igreja, Cidade- Campo e as rupturas de classes nem sempre deram origem a partidos políticos, com exceção das rupturas entre as classes. 

“Os partidos de classe operária surgiram em todos os países europeus na esteira das primeiras ondas de industrialização. As massas em expansão de assalariados nos cultivos em larga escala, nas obras de desmatamento ou na indústria se ressentiam das condições de trabalho e insegurança dos contratos, e muitos deles foram se tornando cada vez mais alienados social e culturalmente em relação aos proprietários e aos empregados. O resultado foi a formação de uma variedade de sindicatos e o desenvolvimento de partidos socialistas nacionais”.

S. Lipset, S. Rokkan “ Cleavage, Structure, Party Systems and Voter Alignments: An Introduction”

Como a ruptura entre classes foi uma exceção formando novos partidos, a dimensão “esquerda-direita” prevaleceu no cenário político, se firmando em quase todos os lugares, condicionando os posicionamentos relativos a política.

E o espaço político de disputa?

O cenário muda quando não está mais claro quais são as classes protegidas ou privilegiadas pelas diferentes escolhas.

O espaço político muda, transformando-se em bidimensional. A dimensão tradicional “esquerda-direita” sobrepõe-se firmemente uma nova dimensão que está na origem de comportamentos “não dimensionais”

O cientista político Ronald Inglehart polemiza, apontando para novas divisões que sobrepõe a “direita-esquerda”. Trata-se de uma divisão que separa grupos de interesses dos cidadãos.

O espaço político muda a medida em que surgem novas rupturas com os movimentos coletivos, voto de protesto através de listas como ocorreram no início dos anos 60/70. Podem ocorrer também rupturas negativas, como o afastamento total da política.

Essas rupturas talvez representem de modo significativo os conflitos causados na estrutura do processo industrial em transição para o sistema pós-industrial. Cada sociedade tende a reagir com particularidades diferentes, e os empresários.  Políticos surgidos em decorrência dessa divisão irão atuar dentro dos diferentes contextos nacionais.

A firmação do partido profissional-eleitoral cria um vazio na identidade coletiva, e enfraquece o internamente as estruturas das subculturas políticas tradicionais, e por outro lado acentua as condições de ingovernabilidades já agravadas pelas tensões corporativas.

A reestruturação no sentido multidimensional do espaço “desorienta os atores políticos, torna mais caótica a disputa e acentua a turbulência e a imprevisibilidade das arenas políticas”.

Segundo A. Panebianco ao partido eleitoral-profissional é um produto da modernidade que cria mais problemas do que se pode resolver.

Seria esta uma fase de transição das estruturas partidárias, e a fase terminal seria a completa dissolução dos partidos como organização, onde estes perdem a sua própria identidade com bandeiras puramente convencionais?

Esta é uma possibilidade para o autor, porém ele acrescenta que pode haver também o retorno da chama ideológica, ou uma terceira possibilidade que represnetaria uma inovação política.