Arquivo da categoria: História

Morre o historiador Eric Hobsbawm

Morre o historiador Eric Hobsbawm

fonte: band.com.br
O pensador marxista britânico morreu aos 95 anos no início de hoje, após uma longa doença, de acordo com sua filha, Julia.
O historiador tratou de muitos temas, em sua longa carreira, entre eles a ascensão do Estado-nação e movimentos revolucionários / Tuca Vieira / Folha Press

 Um dos principais historiadores do século 20, Eric Hobsbawm morreu aos 95 anos, informou a família dele nesta segunda-feira, de acordo com o jornal “The Guardian”.

O pensador marxista britânico morreu no início de hoje, no Royal Free Hospital, em Londres, após uma longa doença, de acordo com sua filha, Julia.
Nascido em uma família judia em Alexandria, no Egito, Hobsbawm viveu em Viena, na Áustria, e Berlim, na Alemanha. Com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, sua família seguiu em 1933 para Londres, onde Hobsbawm seguiu seus estudos e se graduou, em Cambridge, além de adotar a cidadania britânica.

O historiador tratou de muitos temas, em sua longa carreira, entre eles a ascensão do Estado-nação, movimentos revolucionários, a história contemporânea em geral e até, em uma de suas obras, fez uma história social do jazz. Entre seus principais livros estão “A era das revoluções”, “A era do capital”, “A era dos extremos” e “Nações e Nacionalismo desde 1780”. Desenvolveu quase toda sua carreira na Birkbeck University, mas também foi, por exemplo, professor-visitante em Stanford, nos EUA, nos anos 1960.

O “Guardian” lembra que o fato de Hobsbawm ter se mantido fiel ao marxismo ao longo do tempo era alvo de polêmica, sobretudo após ficarem claros os vários abusos cometidos por lideranças socialistas em países como a Hungria e na própria União Soviética em relação aos opositores do regime ou a algumas minorias. Em uma declaração lembrada pelo diário britânico, Hobsbawm disse que nunca tentou minimizar as atrocidades cometidas na Rússia, mas acreditara que o sistema soviético poderia representar uma solução melhor para a humanidade que o capitalismo do Ocidente.

Hobsbawm veio ao Brasil em 2003, para a primeira edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Na ocasião, falou, por exemplo, de sua autobiografia, “Tempos interessantes”.

14 de Setembro de 2011 – 10h54

Entrevista com Eric Hobsbawm: Trocando mitos por história

Eric Hobsbawm é um historiador merecedor de todo o respeito. Num tempo em que a atividade central da grande maioria dos historiadores burgueses consiste na reescrita da história de acordo com as conveniências da ideologia dominante, a sua fidelidade à matriz marxista na investigação e no método serve de exemplo, independentemente das discordâncias que este ou aquele aspecto da sua obra suscitem.

Discordâncias que ele próprio assume frontalmente: “O que busco é o entendimento da história, e não concordância, aprovação ou comiseração”. Esta interessante entrevista é um exemplo da importância da reflexão de alguém que conta 94 anos, ou seja, de alguém que nasceu no ano da grande revolução socialista de outubro.

Estadão: No livro Globalização, Democracia e Terrorismo, de 2007, o senhor passa para os leitores certo pessimismo ao lhes colocar uma perspectiva crucial e ao mesmo tempo desconfortante: ”Não sabemos para onde estamos indo”, diz, referindo-se aos rumos mundiais. Olhando as últimas décadas pelo retrovisor da história, esse sentimento parece ter se intensificado. Em que outros momentos a humanidade viveu períodos marcados por essa mesma sensação de falta de rumos?

Eric Hobsbawm: Embora existam diferenças entre os países, e também entre as gerações, sobre a percepção do futuro – por exemplo, hoje há visões mais otimistas na China ou no Brasil do que em países da União Europeia e nos Estados Unidos –, ainda assim acredito que, ao pensar seriamente na situação mundial, muita gente experimente esse pessimismo ao qual você se refere. Porque de fato atravessamos um tempo de rápidas transformações e não sabemos para onde estamos indo, mas isso não constitui um elemento novo em tempos críticos. Tempos que nos remetem ao mundo em ruínas depois de 1914, ou mesmo a vários lugares daquela Europa entre duas grandes guerras ou na expectativa de uma terceira.
Aqueles anos durante e após a 2ª Guerra foram catastróficos, ali ninguém poderia prever que formato o futuro teria ou mesmo se haveria algum futuro. Cruzamos também os anos da Guerra Fria, sempre assustadores pela possibilidade de uma guerra nuclear. E, mais recentemente, notamos a mesma sensação de desorientação ao vermos como os Estados Unidos mergulharam numa crise econômica que até parece ser o breakdown do capitalismo liberal.

Estadão: Nações saíram empobrecidas, arruinadas mesmo, das guerras mundiais, mas é adequado pensar que havia naqueles escombros o desenho de um futuro?

Eric Hobsbawm: Sim. Se de um lado o futuro nos era desconhecido e cada vez mais inesperado, havia por outro lado uma ideia mais nítida sobre as opções que se apresentavam. No entreguerras, a escolha principal de um modelo se dava entre o capitalismo reformado e o socialismo com forte planejamento econômico – supremacia de mercado sem controle era algo impensável. Havia ainda a opção entre uma democracia liberal, o fascismo ultranacionalista e o comunismo.
Depois de 1945, o mundo claramente se dividiu numa zona de democracia liberal e bem-estar social a partir de um capitalismo reformado, sob a égide dos EUA, e uma zona sob orientação comunista. E havia também uma zona de emancipação de colônias, que era algo indefinido e preocupante. Mas veja que os países poderiam encontrar modelos de desenvolvimento importados do Ocidente, do Leste e até mesmo resultante da combinação dos dois. Hoje esses marcos sinalizadores desapareceram e os “pilotos” que guiariam nossos destinos, também.

Estadão: Como o senhor avalia o poder das imagens de destruição nos ataques do 11/9 a Nova York, tão repetidas nos últimos dias? Tornaram-se o símbolo de uma guinada histórica, apontando novas relações entre Ocidente e Oriente? Por que imagens do cenário de morte de Bin Laden surtiram menos impacto?

Eric Hobsbawm: A queda das torres do World Trade Center foi certamente a mais abrangente experiência de catástrofe que se tem na história, inclusive por ter sido acompanhada em cada aparelho de televisão, nos dois hemisférios do planeta. Nunca houve algo assim. E sendo imagens tão dramáticas, não surpreende que ainda causem forte impressão e tenham se convertido em ícones.
Agora, elas representam uma guinada histórica? Não tenho dúvida de que os Estados Unidos tratam o 11/9 dessa forma, como um turning point, mas não vejo as coisas desse modo. A não ser pelo fato de que o ataque deu ao governo norte-americano a ocasião perfeita para o país demonstrar sua supremacia militar ao mundo. E com sucesso bastante discutível, diga-se. Já o retrato de Bin Laden morto (que não foi divulgado) talvez fosse uma imagem menos icônica para nós, mas poderia se converter num ícone para o mundo islâmico. Da maneira deles, porque não é costume nesse mundo dar tanta importância a imagens, diferentemente do que fazemos no Ocidente, com nossas camisetas estampando o rosto de Che Guevara.

Estadão: Mas além da chance de demonstrar poderio militar, os Estados Unidos deram uma guinada na sua política externa a partir de 2001, ajustando o foco naquilo que George W. Bush batizou como “war on terror”. Outro encaminhamento seria possível?

Eric Hobsbawm: Eu diria que a política externa norte-americana, depois de 2001, foi parcialmente orientada para a guerra ao terror, e fundamentalmente orientada pela certeza de que o 11/9 trouxe para os EUA a primeira grande oportunidade, depois do colapso soviético, de estabelecer uma supremacia global, combinando poder político-econômico e poder militar.
Criou-se a situação propícia para espalhar e reforçar bases militares americanas na Ásia central, ainda uma região muito ligada à Rússia. Sob esse aspecto, houve uma confluência de objetivos – combate-se o inimigo ampliando enormemente a presença militar norte-americana. Mas, sob outro aspecto, esses objetivos conflitaram. A guerra no Iraque, que no fundo nada tinha a ver com a Al-Qaida, consumiu atenção e uma enormidade de recursos dos EUA, e ainda permitiu à organização liderada por Bin Laden criar bases não só no Iraque, mas no Paquistão e extensões pelo Oriente Médio.

Estadão: Os Estados Unidos lançaram-se nessa campanha sabendo o tamanho do inimigo?

Eric Hobsbawm: O perigo do terrorismo islâmico ficou exagerado, a meu ver. Ele matou milhares de pessoas, é certo, mas o risco para a vida e a sobrevivência da humanidade que ele possa representar é muito menor do que o que se estima. Exemplo disso são as importantes mudanças que ocorreram neste ano no mundo árabe, mudanças que nada devem ao terrorismo islâmico. E não só: elas o deixaram à margem.
Agora, o mais duradouro efeito da war on terror, aliás, uma expressão que os diplomatas norte-americanos finalmente estão abandonando, terá sido permitir que os Estados Unidos revivessem a prática da tortura, bem como permitir que os cidadãos fossem alvo de vigilância oficial. Isso, claro, sem falar das medidas que fazem com que a vida das pessoas fique mais desconfortável, como ao viajar de avião.

Estadão: Diante dos problemas econômicos que hoje afligem os Estados Unidos, ainda sem um horizonte de recuperação à vista, o senhor diria que seguimos em direção a um tempo de declínio da hegemonia norte-americana?

Eric Hobsbawm: Nós de fato caminhamos em direção à Era do Declínio Americano. As guerras dos últimos dez anos demonstram como vem falhando a tentativa norte-americana de consolidar sua solitária hegemonia mundial. Isso porque o mundo hoje é politicamente pluralista, e não monopolista. Junto com toda a região que alavancou a industrialização na passagem do século 19 para o século 20, hoje a América assiste à mudança do centro de gravidade econômica do Atlântico Norte para o Leste e o Sul.
Enquanto o Ocidente vive sua maior crise desde os anos 1930, a economia global ainda assim continua a crescer, empurrada pela China e também pelos outros Brics. Ainda assim, não devemos subestimar os Estados Unidos. Qualquer que venha a ser a configuração do mundo no futuro, eles ainda se manterão como um grande país e não apenas porque são a terceira população do planeta. Ainda vão desfrutar, por um bom tempo, da notável acumulação científica que conseguiram fazer, além de todo o soft power global representado por sua indústria cultural, seus filmes, sua música, etc.

Estadão: Não só por desdobramentos político-militares do 11/9, mas também pela emergência de novos atores no mundo globalizado, criam-se situações bem desafiadoras. Por exemplo, o que o Ocidente sabe do Islã? E dos países árabes que hoje se levantam contra seus regimes? Qual é o grau de entendimento da China? Enfim, o Ocidente enfrenta dificuldades decorrentes de uma certa superioridade cultural ou arrogância histórica? Eric Hobsbawm: Ao longo de toda uma era de dominação, o Ocidente não só assumiu que seus triunfos são maiores do que os de qualquer outra civilização, e que suas conquistas são superiores, como também que não haveria outro caminho a seguir. Portanto, ao Ocidente restaria unicamente ser imitado. Quando aconteciam falhas nesse processo de imitação, isso só reforçava nosso senso de superioridade cultural e arrogância histórica.
Assim, países consolidados em termos territoriais e políticos, monopolizando autoridade e poder, olharam de cima para baixo para países que aparentemente estavam falhando na busca de uma organização nas mesmas linhas. Países com instituições democráticas liberais também olharam de cima para baixo para países que não as tinham. Políticos do Ocidente passaram a pensar democracia como uma espécie de contabilidade de cidadãos em termos de maiorias e minorias, negando inclusive a essência histórica da democracia.
E os colonizadores europeus também se acharam no direito de olhar populações locais de cima para baixo, subjugando-as ou até erradicando-as, mesmo quando viam que aqueles modos de vida originais eram muito mais adequados ao meio ambiente das colônias do que os modos de vida trazidos de fora. Tudo isso fez com que o Ocidente realmente desenvolvesse essa dificuldade de entender e apreciar avanços que não fossem os próprios.
Estadão: Essa superioridade do Ocidente pode mudar com a emergência de uma potência como a China?

Eric Hobsbawm: Mas mesmo a China, que no passado remoto era tida como uma civilização superior, foi subestimada por longo tempo. Só depois da 2ª Guerra é que seus avanços em ciência e tecnologia começaram a ser reconhecidos. E só recentemente historiadores têm levantado as extraordinárias contribuições chinesas até o século 19.
Veja bem, ainda não sabemos em que medida a cultura, a língua e mesmo as práticas espirituais da Pérsia, hoje Irã, enfim, em que medida aquele fraco e frequentemente conquistado império influenciou uma grande parte da Ásia, do Império Otomano até as fronteiras da China. Sabemos? Temos grande dificuldade em compreender a natureza das sociedades nômades, bem como sua interação com sociedades agrícolas assentadas, e hoje a falta dessa compreensão torna quase impossível traduzir o que se passa em vastas áreas da África e da região do Saara, por exemplo, no Sudão e na Somália.
A política internacional fica completamente perdida quando confrontada por sociedades que rejeitam qualquer tipo de estado territorial ou poder superior ao do clã ou da tribo, como no Afeganistão e nas terras altas do sudoeste asiático. Hoje achamos que já sabemos muito sobre o Islã, sem nem sequer nos darmos conta de que o radicalismo xiita dos aiatolás iranianos e o sonho de restauração do califado por grupos sunitas não são expressões de um Islã tradicional, mas adaptações modernistas, processadas o longo século 20, de uma religião prismática e adaptável.

Estadão: Com todos esses exemplos de ”mundos” que se estranham, o senhor diria que a história corre o risco das distorções?

Eric Hobsbawn: Apesar de todos esses exemplos, sou forçado a admitir que a arrogância histórica ocidental inevitavelmente se enfraquece, exceto em alguns países, entre eles os EUA, cujo senso de identidade coletiva ainda consiste na crença de sua própria superioridade. Nos últimos dez anos, a história tomou outro curso, muito afetada pelas imigrações internacionais que permitem a mulheres e homens de outras culturas virem para os “nossos” países.
Dou um exemplo: hoje a informação municipal na região de Londres onde vivo está disponível não apenas em inglês, mas em albanês, chinês, somali e urdu. A questão preocupante é que, como reação a tudo isso, surge também uma xenofobia de caráter populista, que se propaga até nas camadas mais educadas da população. Mas, inegavelmente, numa cidade como Londres ou Nova York, onde a presença dos imigrantes de várias partes é forte, existe hoje um reconhecimento maior da diversidade do mundo do que se tinha no passado.
Turistas que buscam destinos na Ásia, África ou até mesmo no Caribe costumam não entender a natureza das sociedades que cercam seus hotéis, mas jovens mulheres e homens que hoje viajam, a trabalho ou estudos, para esses lugares, já criam outra compreensão. Em resumo, apesar da expansão de xenofobia, há motivos para otimismo porque a compreensão abrangente do nosso tempo complexo requer mais do que conhecimento ou admiração por outras culturas. Requer conhecimento, estudo e, não menos importante, imaginação.
Estadão: Imaginação?

Eric Hobsbawm: Sim, porque essa compreensão abrangente é frequentemente dificultada pelo persistente hábito de políticos e generais passarem por cima do passado. O Afeganistão é um clamoroso exemplo do que estou dizendo. Temo que não seja o único.
Estadão: Na sua opinião, estaríamos atravessando um momento regressivo da humanidade quando fundamentalismos religiosos impõem visões de mundo e modos de vida?

Eric Hobsbawm: O que vem a ser um momento regressivo? Esta é a pergunta que faço. Não acredito que nossa civilização esteja encarando séculos de regressão como ocorreu na Europa Ocidental depois da queda do Império Romano. Por outro lado, devemos abandonar a antiga crença de que o progresso moral e político seja tão inevitável quanto o progresso científico, técnico e material. Essa crença tinha alguma base no século 19.
Hoje o problema real que se coloca, o maior deles, é que o poder do progresso material e tecnocientífico, baseado em crescente e acelerado crescimento econômico, num sistema capitalista sem controle, gera uma crise global de meio ambiente que coloca a humanidade em risco. E, à falta de uma entidade internacional efetiva no plano da tomada de decisão, nem o conhecimento consolidado do que fazer, nem o desejo político de governos nacionais de fazer alguma coisa estão presentes.
Esse vazio decisório e de ação pode, sim, levar o nosso século para um momento regressivo. E certamente isso tem a ver com aquele “sentido de desorientação” que discutimos no início da entrevista.

Estadão: Apoiado na sua longa trajetória acadêmica, que conselhos o senhor daria aos jovens historiadores de hoje?

Eric Hobsbawn: Hoje pesquisar e escrever a história são atividades fundamentais, e a missão mais importante dos historiadores é combater mitos ideológicos, boa parte deles de feitio nacionalista e religioso. Combater mitos para substituí-los justamente por história, com o apoio e o estímulo de muitos governos, inclusive. Se eu fosse jovem o suficiente, gostaria de participar de um excitante projeto interdisciplinar que recorresse à moderna arqueologia e às técnicas de DNA para compor uma história global do desenvolvimento humano, desde quando os primeiros Homo sapiens tenham aparecido na África oriental e como elas se espalharam pelo globo.
Agora, se eu fosse um jovem historiador latino-americano, daí eu poderia ser tentado a investigar o impacto do meu continente sobre o resto do mundo. Isso, desde 1492, na era dos descobrimentos, passando pela contribuição material desse continente a tantos países, com metais preciosos, alimentos e remédios, até o efeito da América Latina sobre a cultura moderna e a compreensão do mundo, influenciando intelectuais como Montaigne, Humboldt, Darwin. E, evidentemente, eu pesquisaria a riqueza musical do continente, fosse eu um latino-americano. Isso é tudo o que eu quero dizer.
A Roda Bélica da História, por Hobsbawn
1ª Guerra, o banho de sangue
O tempo histórico era outro, avalia Hobsbawm. O mundo ficara quase um século sem um grande conflito e o conceito de “paz” fez-se sinônimo de “antes de 1914”, ano em que Francisco Ferdinando, da Áustria, foi morto. Detonava-se o conflito que iria sangrar a Europa.
2ª Guerra, o mistério
O mundo sabia o que era uma guerra maciça, mas não uma guerra global. Eis a amarga contribuição da 2ª Guerra, conflito sem limites. Hobsbawm indaga: por que Hitler, esgotado na Rússia, declarou guerra aos EUA, permitindo que se associassem à Grã-Bretanha?
Guerra Fria, o absurdo
Como explicar 40 anos de tensão pela crença de que o planeta poderia explodir a qualquer momento e, contra a destruição total, só haveria a chance da dissuasão mútua? Para Hobsbawm, a Guerra Fria dos tempos de Kruchev carregou a inconclusão da Era da Catástrofe.
Guerra do Golfo, o lucro
Ao findar da Guerra Fria, lembra o historiador, a hegemonia econômica norte-americana já estava abalada. E sua superioridade militar teve que ser financiada por apoiadores de Washington. Na guerra contra o Iraque, em 1991, a potência presidida por Bush pai realizou lucros.
Fonte: O Estado de S. Paulo

Entrevista com o autor de A revolução passiva no Brasil, Luiz Werneck Vianna

Compartilho entrevista diponível em http://www.feminismo.org.br/

Ao avaliar o primeiro ano do governo Dilma Rousseff, o sociólogo Luiz Werneck Vianna defende que as questões que importam para a presidente são as de estado e de economia, de gestão, de racionalização. “Ela é muito desatenta em relação a esses problemas de tornar o governo mais poroso, mais próximo dos movimentos sociais, atraindo-os para o Estado e daí exercendo sobre eles uma tutela. A ênfase do governo Dilma é economia de gestão, racionalização”.

Werneck não concebe a ideia de que Dilma traia o mandato de Lula. “Ela procura ser fiel. O problema é que não é fácil ser fiel, pois ela é diferente dele”. Na entrevista a seguir, concedida por telefone para aIHU On-Line, o professor-pesquisador da PUC-Rio aposta no ressurgimento da política nos próximos anos com muita força. “Não há mais possibilidade de segurar a sociedade com esse jogo de manter os contrários em permanente equilíbrio”.

Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor percebe a marca do chamado “coronelismo” na coalizão de governo com ministros oriundos de oligarquias?

Werneck Vianna – Essa não seria uma designação adequada. O que ocorre é que os remanescentes desse sistema de controle político, que teve vigência durante décadas, estão ressurretos entre nós através da coalizão que o governo faz com os setores vinculados a práticas retardatárias e a formas de propriedade, especialmente o latifúndio, que predominaram e ainda predominam em boa parte do país, principalmente no Nordeste.

IHU On-Line – Por que o Brasil não consegue romper com as forças conservadoras e atrasadas? O senhor percebe a necessidade delas?

Werneck Vianna – Não vejo como necessidade para a boa governança do país, mas isso é resultado de um cálculo. Para se dar um passo é preciso recuar dois, especialmente se olharmos para a agenda comportamental. E hoje é um dia especial (dia 8 de março, dia internacional da mulher), para pensar nas questões referentes a comportamento, a mulher mesmo e a questão do aborto. Nisso não se avança, não se discute. Não é a questão de ser ou não a favor do aborto. Pelo contrário, trata-se de uma prática de saúde pública que está levando à morte milhares de mulheres que são mal atendidas.

IHU On-Line – Como conciliar a cobrança de Dilma de postura republicana dos seus ministros num governo com figuras que se formaram politicamente em ambientes onde se pratica o patrimonialismo e o clientelismo como regras do jogo?

Werneck Vianna – Essa é uma contradição. É difícil, porque são atitudes, comportamentos, expectativas republicanas que não são compatíveis com as formas como esses homens foram treinados, socializados e chegaram à política. E eles fazem política da forma mais tradicional. Não obstante, estão sendo mobilizados para realizar agendas modernas. Dilma escolhe apenas por cálculo político, para ter maioria governamental.

IHU On-Line – Há limites para a coalizão de governo?

Werneck Vianna – Devem existir. As coalizões devem ser programáticas e não de oportunidade e instrumentais como são essas nossas. Na verdade, o governo acha que representa o moderno e os interesses gerais da nação e qualquer acordo que ele faça com a tradição, com o atraso, com o patrimonialismo, com o clientelismo não importa.

IHU On-Line – O PT guarda ainda alguma inovação para a política nacional ou rendeu-se ao pragmatismo?

Werneck Vianna – Ele se rendeu. Mas há coisas importantes ainda no PT, que trouxe inovações, arejou e aproximou os movimentos sociais do governo, da administração, além de ter uma política muito atualizada e amável com a vida sindical. Os sindicatos têm uma participação importante ainda, não tanto no governo Dilma como tiveram no governo Lula, mas ainda têm alguns elementos característicos disso. Isso tudo são registros a serem feitos na agenda que o PT tem cumprido até aqui. O que ele perdeu foi o elã, a inspiração, o vínculo com as suas origens, com as suas grandes expectativas de produzir uma transformação no país. Na verdade, o PT se tornou uma força condutora da expansão burguesa no Brasil.

IHU On-Line – Em outras entrevistas o senhor sempre reiterou que o governo Lula havia cooptado os movimentos sociais, trazendo-os para dentro do Estado. Como está a situação levada por Dilma neste primeiro ano de governo?

Werneck Vianna – Isso persiste, mas com uma atenuação, visto que com Lula esse processo avançou muito. As questões que importam para Dilma são as de estado e de economia, de gestão, de racionalização. Ela é muito desatenta em relação a esses problemas de tornar o governo mais poroso, mais próximo dos movimentos sociais, atraindo-os para o Estado e daí exercendo sobre eles uma tutela. É uma questão que existe, que continua, mas não é a ênfase do governo Dilma. A ênfase do governo Dilma é economia de gestão, racionalização.

IHU On-Line – Em que sentido podemos ver a marca da racionalização no governo Dilma?

Werneck Vianna – Nesse sentido, ela vem merecendo o qualificativo de “gerentona”, a gerente do Brasil como empresa, como negócio e não como sociedade. O que traduz de forma mais incisiva é a natureza desse governo tendo como seu sistema fundamental de orientação o aprofundamento e a expansão da ordem burguesa no país. Daí os movimentos sociais estão articulados com o Estado, cooptados, os sindicatos não deixam de estar também jurisdicionados pelas políticas governamentais. A sociedade se deixa levar na medida em que a taxa de emprego está bastante razoável e os negócios prosperam. No entanto, a sociedade está órfã politicamente.

IHU On-Line – Em que medida Dilma difere de Lula em relação aos direitos humanos e aos sindicatos?

Werneck Vianna – Em relação aos direitos humanos, a posição dela difere positivamente. De qualquer forma, o mundo que ela pegou é diferente do mundo de Lula. Esse era anterior à Primavera Árabe e a todos os acontecimentos depois deste grande acontecimento que ainda persiste. Dilma se aproximou de uma agenda de direitos humanos bem mais moderna e atualizada do que a de Lula. O que não quer dizer que ela tenha rompido, mas ponderou algumas ênfases do governo Lula. Em relação aos sindicatos, não é o estilo dela. Ela não veio desse mundo. Ela veio aí do Rio Grande do Sul, da administração pública. A carreira de Dilma é de gestora. Lula fez uma carreira na sociedade civil, de líder sindicalista, que sabe falar e sabe qual é a linguagem própria a ser usada. De qualquer forma, ele tinha uma proximidade forte com os pleitos sindicais e se reunia com eles quase que entre iguais. Já a Dilma delega isso. Não concebo a ideia de que Dilma trai o mandato de Lula. Ela procura ser fiel. O problema é que não é fácil ser fiel, pois ela é diferente dele.

IHU On-Line – Mas por que o senhor afirma que Dilma cada vez mais é constrangida à infidelidade?

Werneck Vianna – Independentemente do sistema de valores dela, as circunstâncias atuais a obrigam a inflexões e mudanças, mesmo que elas não sejam lá muito compatíveis com o espírito e o sentido do que preponderou no governo Lula.

IHU On-Line – Como o senhor define a “cara própria” do governo Dilma?

Werneck Vianna – Dilma é uma grande racionalizadora, uma grande administradora. A política não é o ramo dela.

IHU On-Line – O que marca a guinada introduzida por Dilma no presidencialismo de coalizão brasileiro? Como seria uma coalizão mais programática?

Werneck Vianna – Essa guinada ela não fez e nem ameaça fazer. As marcas visíveis, evidentes até então, são de que ela persiste no modelo anterior. Não é fácil erradicar, é preciso ter coragem política para erradicar. Importaria ter um programa de reformas real. Mas o que vemos é um governo dividido em todas as questões. Por exemplo, a reforma trabalhista: os empresários a querem, os sindicatos não. Tanto empresários como sindicatos estão dentro do governo. Outro exemplo é a reforma do Código Florestal: a oposição entre o agronegócio e os ambientalistas é mortal. Os dois lados estão dentro do governo, assim como está também a estrutura da propriedade familiar. Como resolver isso? É um ministério para um, um ministério para outro, e assim vão se criando essas composições. Vejo que a reforma previdenciária, que parece que Dilma vai fazer, é algo que vai repercutir, por ser uma questão sensível e pelo fato de o PT ser um partido mais “funcionário público” do que qualquer outra coisa. A questão promete ser dolorosa. Não sei o quanto de dor, mas alguma dor isso acarretará.

IHU On-Line – A situação de Dilma também é delicada em relação à bancada evangélica no Congresso…

Werneck Vianna – Isso. De um lado ela é libertária e de outro está comprometida com o que há de mais recessivo em matéria comportamental na sociedade brasileira. Para onde ela vai? Quer aprofundar o moderno ou quer fazer com que o moderno só passe? Imagino daqui para frente um quadro de muita exasperação da política. Na questão dos funcionários públicos, na questão do meio ambiente, na questão militar já há indícios disso, bem como na questão agrária e na questão sindical. A política tende a ressurgir nos próximos anos com muita força. Não há mais possibilidade de segurar a sociedade com esse jogo de manter os contrários em permanente equilíbrio. Uma hora dessas, assim como no número das varetas no circo, isso vai cair, o equilibrista perde o controle. Não estou anunciando agonias. Estou dizendo apenas que a sociedade não vai ficar com essa ausência de movimentação que hoje a tem caracterizado. Isso vai se energizar. Há indicações fortes na vida associativa de robustecimento dela, o que tende a se generalizar de forma autônoma, sem vínculos com o Estado.

IHU On-Line – O senhor aposta em iniciativas como o movimento dos indignados, ou o Ocupe Wall Street, por exemplo?

Werneck Vianna – Cada forma de protesto tem a sociedade que merece. Não sei se vamos chegar a ações desse gênero. Estou falando de coisas mais tópicas, mais localizadas. Por exemplo, está muito difícil manter a força sindical dentro do governo do jeito que as coisas se encontram.

Os intelectuais e o Estado no Brasil

As primeiras décadas do século XX representam um momento de fundamental importância para a análise da conjuntura social e política do Brasil, pois foi a partir desse período que eclodiram no país teorias que visavam projetar o futuro, principalmente no que diz respeito a modernização e a nação.

A abolição, que em termos cronológicos ainda era recente em nossa história, havia deixado resquícios principalmente para aos trabalhadores, que ainda desorganizados enquanto classe, não possuíam mecanismos que possibilitassem a sua inclusão social. Homens livres, porém presos a um passado ainda presente em seus dia a dia. Esse era o quadro do trabalhador até o início do século. O mandonismo e o latifúndio também sobreviveram ao velho sistema, ganhando nova forma na República. A crise do café de 1904 colocou em conflito as oligarquias: a oligarquia do café que estava voltada para o mercado interno e a oligarquia que estava voltada para o consumo interno. O Brasil caminhava cada vez mais visando o desenvolvimento das industrias, e a modernização dos setores era uma tendência inevitável. Gradativamente as oligarquias foram afastadas do controle do Estado, entretanto não houve ruptura entre os interesses, houve sim uma situação em que Luis Werneck Viana caracteriza como clientelismo por parte do Estado.

Não só os trabalhadores estavam desorganizados enquanto classe, como também os mais abastados, que ainda não se categorizavam enquanto burguesia.

Situação favorável para um governo que desejava exercer o poder do Estado sobre as camadas baixas e médias da população em nome da modernização, e que embora possuísse diálogo com as velhas oligarquias, introduziu no Brasil o que hoje chamamos de burguesia.

Interessante observar a burguesia que em outros países se formou a partir de rupturas entre determinadas camadas, e no Brasil esta surge por intermédio do próprio Estado, o que representa uma forte ligação entre os interesses, onde a classe operária fica incapacitada de defender as suas conquistas anteriores.

A República apenas nominalmente tornou-se um sistema democrático, fincando suas raízes em práticas autoritárias. Em tese a cultura passa a ser um direito de todos, entretanto o processo de modernização e os projetos de futuro não incorporaram as massas. Dessa forma é possível dizer que o governo era autoritário em política e conservador em economia (com alguns setores protegidos até 1942).

O Brasil tornou-se uma República com um Estado forte e um povo enfraquecido. O governo inseriu em seus projetos, voltados ao tema “cultura”,  alguns intelectuais que pertenciam a oligarquia e que viam na política um novo campo para reafirmar o prestígio que muitas famílias perderam com a crise do café. O tema “caráter nacional” passou a ser levantado e discutido a fim de denominar o que é ser brasileiro. Como podemos perceber, as denominações que surgiram posteriormente são resultados de um período de aliança entre o Estado e os intelectuais. Diversos livros voltados a este tema foram lançados entre 1920 e 1930, houve também diversas campanhas com o intuito de propagar a idéia de unidade nacional e gradativamente extinguir o conceito de individualidade política.

A Republica autocrática onde o Estado se fortalece através do poder forma a nação de direito no Brasil. O conceito de cidadania, que normativa os sujeitos perante a lei, surge no Brasil de cima para baixo, e estas transformações nos permite dizer que não houve um processo de revolução no país, talvez contra-revolução, ou revolução à passiva como denominam alguns estudiosos do assunto.

O Estado Novo representou no Brasil uma das suas mais perversas ditaduras. As leis trabalhistas, o direito dos trabalhadores e os próprios sindicatos surgiram como concessão do Estado, extinguindo das classes trabalhadoras a possibilidade de diálogo a fim de garantir os seus interesses.

A nação é uma totalidade abstrata, onde os atores principais abdicam do seu protagonismo, e o Estado é o “organizador social”, modernizando setores e intermediando na economia, sem enfraquecer determinadas camadas e o que observo é a triste trajetória de modernização do Brasil, em que em nome do desenvolvimento, o povo e as questões de cunho sociais foram gradativamente sendo anuladas, perdendo força e deixadas a margem dos projetos para o futuro do país.

É fato que houveram algumas manifestações políticas, como também surgiram partidos e intelectuais que levavam as discussões para outras questões, entretanto estes estavam enfraquecidos diante de um sistema criteriosamente criado, com uma elite que surgiu junto ao Estado e que como sempre, defende o que lhe é interessante.

Texto abaixo, extraído do site da FGV

Já nos anos 20 o campo da arte e cultura era dominado por uma discussão sobre a identidade e os rumos da nação. A ideologia revolucionária formulada nos primeiros anos da Era Vargas veio revelar fortes pontos de contato com as propostas antiliberais desde então defendidas por intelectuais como Oliveira Viana, Azevedo Amaral e Francisco Campos, que se tornou o primeiro ministro da Educação.

Para esses autores, os principais responsáveis pela crise brasileira eram as oligarquias rurais que se haviam apoderado do Estado graças às deficiências do modelo de governo liberal-federalista introduzido pela Constituição de 1891, incapaz de resolver os problemas nacionais. A experiência liberal, não só brasileira, mas mundial, esgotara-se, e com ela instrumentos clássicos como os partidos políticos e o Congresso. Caberia ao governo central tomar as rédeas do poder e ditar as diretrizes do desenvolvimento brasileiro. Essas idéias eram compartilhadas pelas lideranças tenentistas, que no início do Governo Provisório ocupavam cargos estratégicos nos estados e na administração central.

Mas Vargas não se cercou apenas de “tenentes”. Sua política cultural envolveu a nomeação de intelectuais para postos de destaque e a criação de diversos órgãos capazes de atraí-los para junto do governo. Assim, em 1930, o arquiteto Lúcio Costa foi indicado para a direção da Escola Nacional de Belas Artes. Manuel Bandeira foi convidado, em 1931, para presidir do Salão Nacional de Belas Artes. Em 1932, o escritor José Américo de Almeida assumiu a pasta da Viação e Obras Públicas. Gustavo Capanema foi nomeado em 1934 ministro da Educação e Saúde Pública, e convidou o poeta Carlos Drummond de Andrade para chefiar seu gabinete. Mário de Andrade iria assumir, em 1935, a direção do Departamento de Cultura da Municipalidade de São Paulo. Foi ele quem indicou,juntamente com Manuel Bandeira, o nome de Rodrigo Melo Franco de Andradepara organizar e dirigir o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, principal instituição de proteção dos bens culturais do país que seria criada logo após o golpe do Estado Novo.

O governo Vargas também tinha um grande projeto universitário. As primeiras iniciativas nessa área, contudo, não couberam ao governo federal: foram a Universidade de São Paulo, criada em 1934 por Armando Sales, e a Universidade do Distrito Federal, criada em 1935 por Pedro Ernesto. Data somente de julho de 1937 a lei de criação da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A participação dos intelectuais na vida nacional respaldava-se na crença de que eles eram uma elite capaz de “salvar” o país, pois estavam sintonizados com as novas tendências do mundo e atentos às diversas manifestações da cultura popular. Os artistas e intelectuais tratavam em suas obras das questões sociais que estavam na ordem do dia e participavam do debate político-ideológico entre a direita e a esquerda que mobilizava o mundo. Nos livros publicados por uma indústria editorial em expansão, aprofundava-se a temática da cultura negra, indígena e caipira. Através da literatura proletária e do romance regionalista fazia-se a crítica dos valores da sociedade patriarcal e oligárquica identificados com o tempo passado. Interessava agora retratar a vida do homem comum das cidades e dos sertões.

Em 1933, Gilberto Freyre publicou Casa Grande e Senzala, obra que modificava o enfoque da questão das raças formadoras do país e fazia a defesa da colonização portuguesa, expressa na idéia da democracia racial. Caio Prado Jr. escreveu Evolução política do Brasil, livro de orientação marxista que enfatizava a participação das camadas populares na história nacional. Em 1936, Sérgio Buarque de Holanda publicou Raízes do Brasil. Nessa obra o autor se contrapunha a Gilberto Freire ao ressaltar a necessidade de o país superar as raízes culturais portuguesas como condição para entrar na modernidade.

Na década de 1930 houve um debate intelectual e político sobre que matriz regional expressaria melhor a nacionalidade. Além da sociedade nordestina retratada por Gilberto Freyre, tinha-se nos textos de Cassiano Ricardo a defesa da sociedade bandeirante como modelo para a democracia brasileira. Alceu Amoroso Lima, por sua vez, apontava na sociedade mineira traços do espírito de família e de religiosidade que seriam os verdadeiros valores da civilização brasileira.

Após a Revolução de 1930 observou-se uma tendência de diversificação cultural e, ao mesmo tempo, de integração política nacional, que permitiu realizar aspirações já formuladas nos anos 20. A cultura se beneficiou das mudanças na educação, na literatura e nos estudos brasileiros, assim como da melhoria da qualidade do livro e do crescimento do mercado editorial.

O Governo Jango ( 1961 /1964)

João Belchior Marques Goulart, popularmente conhecido com Jango foi o vice presidente de Juscelino Kubitschek em 1956 e em 1961 de Jânio Quadros. João Goulart era candidato pelo PTB e tomou posse no Governo após a carta renúncia do então presidente da República Jânio Quadros.

A história conjuntural do Governo Jango, podemos dizer que teve o seu começo e o seu fim de maneiras conturbadas.

O autor Thomas Skidmore ao narrar a renúncia de Jânio Quadros que havia sido democraticamente eleito, afirma que não houve manifestação pública ou no Congresso reivindicando a sua permanência no poder. O Brasil estava fragilizado institucionalmente, e o vice presidente Jango não gozava de prestígio de algumas alas da elite por circular entre a esquerda.

No momento da renúncia de Jânio Quadros, Jango encontrava-se em viagem diplomática  à China comunista, e segundo Skidmore, “surgiu uma luta entre ministros militares, que se opunham a posse de Jango, e os que apoiavam a legalidade. Constituíam estes últimos militares, políticos e homens públicos” (pg.255) .

Jango havia sido também ministro do trabalho do ex presidente Getúlio Vargas, ganhou apoio da classe trabalhadora ao propor o aumentar o salário mínimo em 100% se opondo ao valor negociado pelos empresários que seria um aumento máximo de 42%. Jango como ministro do trabalho assinou uma série de decretos em favor da previdência, tal como o financiamento de casas e a regulação de empréstimos tendo uma aproximação com o movimento sindical. Essa forma utilizada por Jango para negociar conflitos internos era visto com maus olhos pela oposição (UDN) e a sua posse foi possível devido aos conflitos internos existentes nas Forças Armadas e a intervenção da Rede de Legalidade, tendo como uma das figuras principais o governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola que utilizou as rádios como meio de mobilizar a sociedade civil a fim de garantir o direito previsto na Constituição de 1946, onde o vice deve assumir na falta do presidente da república.

Skidmore ressalta em diferentes passagens do texto, o medo da elite que associava a figura de Jango ao retorno de um ideário getulista. Ao assumir o governo, Jango tinha a insatisfação da corporação militar que havia articulado a condição de seu governo como interino, ou seja, somente até sessenta dias e após esse período deveriam ser convocadas novas eleições. Não permitir a posse de Jango seria violar o principio das eleições livres, e talvez temendo um conflito interno, a corporação militar recuou, porém diminuíram os poderes de Jango com o regime parlamentarista que tinha como principal objetivo, segundo Skidmore ““apoiar Jango sob experiência” (pg.259).

Jango assume o governo parlamentarista, onde o maior poder estaria concentrado na figura do primeiro ministro Tancredo Neves.

O historiador Boris Fausto ressalta que o movimento operário merece uma referência especial na historiografia de Jango, pois este ao assumir o governo trazia consigo um ideário populista e “um contexto de mobilizações e pressões sociais muito maiores do que no período Vargas” (pg.446). Boris Fausto enfatiza também que em meio à oposição, Jango e Tancredo seguiam tentando mostrar a inviabilidade do regime parlamentarista. “Seu objetivo era reforçar a campanha por uma volta ao sistema presidencialista” (pg.267).

 No plano econômico, o presidente adotou uma política conservadora, procurando diminuir a participação das empresas internacionais em setores econômicos. Com o fim do parlamentarismo, o presidente lançou o Plano Trienal elaborado pelo economista Celso Furtado que tinha como principal objetivo combater a inflação e proporcionar ao Brasil um crescimento de 7% ao ano e uma política de distribuição de renda.

 Na tabela abaixo, podemos observar os indicadores macroeconômicos do governo de Jango.Fonte: IBGE. Estatísticas históricas do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1990.

       
                       TABELA 1: Indicadores macroeconômicos do governo Jango
       
Ano   (var. %)     PIB (var. %) Inflação
(IGP-DI)

B. Comercial (US$ milhões)

B. de Pagamentos (US$ milhões)

1961                          8,6

47,8

113

115

1962                          6,6

51,6

-89

-346

1963                          0,6

79,9

112

-244

1964                          3,4

92,1

344

4

       
       
 

Boris Fausto afirma que o Plano Trienal era um conjunto coerente de medidas, porém os seus resultados somente poderiam ser mensurados a longo prazo, e para que os resultados fossem positivos, o plano dependia econômico “dependia da colaboração dos setores que dispunham de voz na sociedade. Essa colaboração mais uma vez faltou. Os beneficiários da inflação não tinham interesse no êxito das medidas,; os inimigos de Jango desejavam a ruína do governo e o golpe; o movimento operário se recusava a aceitar restrições de salários; a esquerda via o dedo do imperialismo por todos os lados” (pg.456). Em meados de 1963, como a tabela mostra, ficou claro que o plano havia fracassado e a economia dava sinais de declínio, alguns membros do governo como Almino Afonso abandonaram o Ministério, a radicalização das diferentes posições cresceu e nos meios militares as conspirações contra Jango foram se acentuando.

Ao lançar as Reformas de Base, Jango afastou ainda mais do seu governo o apoio da elite que temia pela reforma agrária e a perda de imóveis de aluguel. As reformas não visavam implantar o socialismo, e sim aumentar a ação do Estado modernizando o capitalismo e diminuindo as desigualdades. Em um comício realizado em frente à estação Central do Brasil (Rio de Janeiro) o presidente anunciou as reformas prometendo com elas tirar o Brasil do caos econômico que, segundo Boris Fausto já era terrível no governo de Jânio Quadros “Houve uma escalada da inflação, cujo índice anual passou de 26,3% em 1960 para 33,3% em 1961 e 54,8% em 1962” (pg.455). Este comício foi visto pela oposição composta pela ala militar como uma provocação e um ato comunista. Considerado por muitos como um ato desastroso, Jango pretendia mobilizar as massas demonstrando a força do governo. O comício reuniu cerca de 15 mil pessoas que estavam protegidas pelas tropas do I Exército para ouvir Jango e Brizola (que segundo Boris Fausto, já não se entendiam). Os dois atos assinados pelo presidente no comício resultaram na inquietação da oposição constituída pelos militares e a elite.

Os passos do presidente já estavam marcados pelos golpistas, quando Jango discursou no Rio de Janeiro em uma assembléia de sargentos , o golpe já estava em marcha.

O período democrático de 1945/1964 teve fim quando os militares, encabeçados pelo general Olímpio Mourão Filho e com o apoio do governador Magalhães Pinto, mobilizou tropas em 31 de Março saindo de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro.

Com uma reação inesperada, Jango não resistiu ao golpe possivelmente temendo pelo derramamento de sangue dos civis. O país recebeu a notícia de que o cargo do presidente estava vago, porém o mesmo foi ocupado pelos militares que instalaram o regime autoritário. Jango exilou-se no Uruguai onde permaneceu até a sua morte (1976) sem poder retornar em vida para o Brasil, que ainda se encontrava sob o regime militar. Seu corpo foi velado em sua fazenda em São Borja e velado por parentes e amigos políticos.

Arquivos do Terror

O Paraguai enfrentou longos anos de terror sob o governo ditador do general anticomunista Alfredo Stroessner, que permaneceu no poder de 1954 a 1989, período que representa a mais longa ditadura militar da América Latina.

Stroessner chegou ao poder com a ajuda dos militares, e pelo partido Colorado após derrubar o governo de Federico Chavez. A ditadura de Stroessner ficou marcada pela corrupção e pela violência.

No total são 35 anos de repressão aos opositores do regime. Repressão em um período de ditadura, significa o fechamento do congresso, a limitação dos direitos individuais e coletivos, a intervenção do Estado na comunicação de massa,  fim da liberdade de expressão e agressão muitas vezes seguidas de mortes. Muitas mortes.   Os historiadores estimam que mais de 3 mil pessoas desapareceram.

Stroessner morreu na manhã de 16 de Agosto de 2006 exilado no Brasil, com problemas pulmonares.

Em 1992 foram encontrados no Paraguai os arquivos que comprovam  os crimes cotetidos em seu governo, e os documentos foram disponibilizados para a população civil. A polícia que até então negava seu envolvimento com o desaparecimento de pessoas, ficou em uma situação bastante delicada, pois foram localizadas diversas fichas com nomes, sobrenomes e fotos de muitos destes desaparecidos.

Os “Arquivos do Terror”, contém 320 mil documentos, fotos e registros recolhidos e foram colocados à disposição dos usuários da internet. São 60 mil fichas de pessoas e 246 versões digitais dos papéis mais requisitados do conjunto, os últimos com enfoque na chamada “Operação Condor”.


Os endereço do site é  www.nsarchive.org/CDyA

Enquanto isso, no Brasil as famílias continuam lutando pelo direito de saber para onde foram levados os corpos de seus parentes e amigos.

Políticos como José Sarney e Fernando Collor defendem que os documentos secretos do governo devem continuar inacessíveis.

O que desencadeou a vinda da família real para o Brasil, e quais as consequências para a sociedade desta colônia?



Conforme orientações acadêmicas, seguem itens que serão abordados para a elaboração da questão:

História estrutural: População no Brasil e/ou nas províncias – Urbanização.

História conjuntural dos acontecimentos:Brasil e Portugal na era Napoleônica.

História de acontecimentos individuais: Dom João VI.

Uma Análise após ler Boris Fausto (História do Brasil)

Boris Fausto ao abordar o tema sobre a vinda da família real para o Brasil (1808), enfatiza as condições da Europa, que naquele período encontrava-se em guerra devido aos constantes ataques das tropas francesas sob o comando de Napoleão Bonaparte à Inglaterra.

Portugal mantinha relações comerciais com a Inglaterra e por isso estava sofrendo represálias com o bloqueio marítimo imposto por Napoleão à ilha impedindo-a de negociar com o resto do Continente. Portugal possuía grandes interesses em manter relações comerciais com a Inglaterra, pois dependia muito dela para manter seus negócios, e sabia que este vínculo embora vantajoso poderia trazer consequências ao Império português. O então rei Dom João decidiu transferir a Coroa para a maior colônia portuguesa sob a proteção da frota inglesa.

Durante algum tempo a Colônia brasileira se vestiu de Metrópole, e considero este ser um aspecto muito interessante na história do Brasil, pois não ocorreu situação parecida com nenhuma outra colônia. Para analisarmos as consequências sociais e urbanas desse acontecimento, é necessário sempre lembramos dos aspectos políticos que motivaram a vinda da família real portuguesa para o Brasil.

Dom João trouxe consigo todo o aparelho burocrático de Portugal, o tesouro real, os arquivos do governo e bibliotecas e somado com a abertura dos portos às nações amigas resultou em grandes alterações no quadro social daqueles que viviam na colônia. Com a instalação da Corte portuguesa no Brasil, a política externa de Portugal passou a ser decidida no Rio de Janeiro, mudando toda a conjectura social da cidade. Boris Fausto nos tras dados sobre o acesso aos livros, o lançamento do primeiro jornal editado na colônia, a abertura de teatros, bibliotecas e academias literárias e científicas. A população na capital brasileira dobrou e entre estes novos habitantes muitos eram imigrantes portugueses, ingleses, franceses e holandeses que formavam uma classe média de profissionais (artesãos qualificados).

As regiões brasileiras que se encontravam distantes do Rio de Janeiro, estavam insatisfeitas com as decisões da Coroa (como no caso dos impostos), pois sentiam que havia nelas o caráter de beneficiar somente portugueses e a cidade onde estava estabelecida. Isso acarretou na Revolução Pernambucana que eclodiu do Recife para o sertão, estendendo-se a Alagoas e Rio Grande do Norte. É certo que o problema da desigualdade regional tenha sido um dos principais motivos da revolta, porém, embora a população nordestina encontrava-se mobilizada contra o Império português, não possuíam uma homogeneidade em suas reivindicações.

  Não sabemos ao certo quando sentimento de identidade nacional surgiu no Brasil, porém estes levantes de caráter regional nos trás indícios de que em certos momentos da nossa história podemos observar a percepção da população  quanto ao pertencer a um determinado grupo em um determinado espaço geográfico .

  Como a análise desta questão busca observar as consequências na sociedade resultantes da vinda da família real para o Brasil, devo acrescentar que faltou subsídios teóricos baseados nesta obra para abordar a questão das relações sociais as quais não estavam diretamente ligadas ao quadro político. A população pertencente a minoria pobre (escravos e não escravos) mulheres (brancas, negras ou mestiças) não são apresentadas como pertencentes a uma população nacional ou regional, tal como suas relações e reações perante os acontecimentos do período.