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Como começou?

Fonte G1.com
No dia 14 de novembro, uma operação militar israelense matou o chefe do braço militar do grupo Hamas na Faixa de Gaza, Ahmed Jaabali. Segundo testemunhas, ele dirigia seu carro quando o veículo explodiu. Seu guarda-costas também morreu.

Israel afirma que Jaabali era o responsável pela atividade “terrorista” do Hamas – movimento islâmico que controla Gaza – durante a última década. Após a morte, pedidos imediatos por vingança foram transmitidos na rádio do Hamas e grupos militantes menores alertaram que iriam retaliar. “Israel declarou guerra em Gaza e eles irão carregar a responsabilidade pelas consequências”, disse a Jihad Islâmica.

No dia seguinte à morte de Jaabali, foguetes disparados de Gaza mataram três civis israelenses, aumentando a tensão e ampliando o revide aéreo de Israel – que não descarta uma operação por terra. Os bombardeios dos últimos dias, que já atingiram a sede do governo do Hamas na operação chamada de “Pilar defensivo”, são a mais intensa ofensiva contra Gaza desde a invasão realizada há quatro anos na região, que deixou 1.400 palestinos mortos e 13 israelenses.

Acredita-se que a metade dos mortos sejam civis, o que desperta críticas à ação de Israel. O país alega que os membros do Hamas se escondem entre a população civil.

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O outro lado de onde tudo começou

Não há clichê jornalístico que esconda a realidade
19/11/2012, Robert Fisk [de Independent], em Information Clearing House
http://www.informationclearinghouse.info/article33087.htm

Terror, terror, terror, terror, terror. Lá nos vamos, outra vez. Israel vai “extirpar o terror palestino” – o que, vale lembrar, Israel tenta, sem sucesso, há 64 anos – e o Hamás (…) anuncia que Israel “abriu as portas do inferno”, quando assassinou seu comandante militar, Ahmed al-Jabari.

O Hezbollah anunciou várias vezes que Israel abrira “as portas do inferno” ao atacar o Líbano. Yasser Arafat, que foi super-terrorista e, depois, super-estadista – quando capitulou nos jardins da Casa Branca – e depois voltou a ser outra vez super-terrorista, quando se deu conta de que fora enganado em Camp David, Arafat também falou de “portas do inferno” em 1982.

E nós, jornalistas, estamos escrevendo como ursos de circo, repetindo todos os clichês que usamos, sem parar, há 40 anos. O assassinato do comandante Jabari foi “assassinato predefinido”, foi “ataque aéreo cirúrgico” – como outros “ataques cirúrgicos israelenses” que mataram quase 17 mil civis no Líbano em 1982; 1.200 libaneses, a maioria dos quais civis, em 2006; ou os 1.300 palestinos, a maioria dos quais civis, em Gaza em 2008-9, ou a mulher grávida e o bebê, assassinados também por “ataque aéreo cirúrgico” em Gaza semana passada – e os 11 civis assassinados numa casa em Gaza ontem. O Hamás, pelo menos, com seus rojões Godzilla, não se pretende atacante “cirúrgico”. (…)

Os ataques israelenses também visam a matar mulher, criança, qualquer coisa viva, em Gaza. Mas não se atreva a dizer tal coisa, ou você será nazista antissemita perigoso, praticamente o demônio, o mal, a perversão, tão assassino quanto o Hamás, com o qual (mas, por favor, nem pense em dizer tal coisa) Israel negociou muito, alegremente, nos anos 80s, sim, quando Israel encorajava o Hamás e seus homens a assumir o poder em Gaza, porque esse movimento decapitaria Arafat, o super terrorista exilado. A bolsa de mortes em Gaza está hoje em 16 mortos palestinos por israelense morto. E a proporção aumentará, é claro. Em 2008-9, a cotação foi 100 palestinos, para 1 israelense.

E os jornalistas estamos também ajudando a construir mitos. A última guerra de Israel contra Gaza foi fiasco tão completo – sempre “erradicando o terror”, claro – que as afamadas unidades de elite do exército de Israel não conseguiram sequer achar um soldado, um, capturado, Gilad Shalit, cuja libertação, são e salvo, foi trabalho, ano passado, não de Israel, mas do comandante Jabari em pessoa.

Para a Associated Press, o comandante Jabari seria “líder n. 1 na clandestinidade” do Hamás. Mas que diabo de “lider na clandestinidade” seria alguém perfeitamente conhecido, nome, endereço, data de nascimento, detalhes da família, anos de prisão em Israel, período durante o qual mudou de lado, do Fatah, para o Hamás?! Como?! Tantos anos de prisão em Israel não converteram ao pacifismo o comandante Jabari, certo? Nada de lágrimas: homem que viveu pela espada morreu pela espada, destino que, claro, não preocupa os guerreiros do ar de Israel, enquanto matam civis, de longe, em Gaza.

Washington apoia o direito de Israel “autodefender-se”, em seguida, fala de uma neutralidade espúria – como se as bombas que Israel lança contra Gaza não viessem dos EUA, tão certo quanto os foguetes Fajr-5 vêm do Irã.

Enquanto isso, o lastimável, lamentável William Hague decide que o Hamás seria “principal responsável” pela mais recente guerra. Mas… de onde tirou essa ideia? Segundo o The Atlantic Monthly, o assassinato, por israelenses, de um palestino “mentalmente desequilibrado” que caminhou em direção à fronteira, pode ter sido o estopim da mais recente guerra. Há também quem suspeite que tudo tenha começado com o assassinato de um menino palestino, que seria ato deliberado de provocação. E há quem diga que o menino foi morto por israelenses quando um grupo de palestinos armados tentava cruzar a fronteira e foi impedido por tanques israelenses. Nesse caso, pistoleiros palestinos – talvez não do Hamás – podem ter sido o estopim de tudo.

E não há meio para deter essa loucura, esse lixo de guerra? É verdade que centenas de foguetes são lançados contra Israel. É verdade também que milhares de acres de terra são roubadas dos árabes, por Israel – para judeus e só para judeus – na Cisjordânia. Hoje, já não resta terra suficiente, sequer, para um Estado palestino.

Apaguem o parágrafo acima, por favor. Só há os mocinhos e os bandidos nesse conflito horrendo, no qual os israelenses dizem que são os mocinhos, para os aplausos dos países ocidentais (os quais, imediatamente, passam a perguntar-se por que tantos muçulmanos não gostam muito de ocidentais).

O problema, por estranho que pareça, é que as ações de Israel na Cisjordânia e o sítio de Gaza trazem cada dia para mais perto o evento que Israel diz temer todos os dias: Israel talvez se veja face à face com a própria destruição.

Na batalha dos foguetes – com os Fajr-5 iranianos e os drones do Hezbollah – os dois lados avançam por uma nova trilha de guerra. Já não se trata de tanques israelenses que cruzam a fronteira do Líbano ou a fronteira de Gaza. Começamos a falar de foguetes e drones de alta tecnologia e de ataques cibernéticos – ou, “ciberterrorismo” quando a iniciativa é dos muçulmanos – e,  cada dia que passa, a escória humana deixada aos pedaços à margem do caminho será ainda mais irrelevante do que é hoje e ao longo dos últimos três dias.

O despertar árabe começa a trilhar caminho próprio: os líderes terão de ouvir a voz das ruas. Desconfio que acontecerá também ao pobre velho rei Abdullah da Jordânia. A papagaiada dos EUA sobre “paz” ao lado de Israel, já não vale uma vela queimada, entre os árabes. E se Benjamin Netanyahu crê que a chegada dos primeiros foguetes Fajr do Irã exigirá um Big Bang israelense contra o Irã, e depois o Irã devolve os tiros – e, talvez, também os norte-americanos – e, no pacote, logo virá também o Hezbollah – e Obama acaba engolido em mais uma guerra ocidente-muçulmanos… Sim, mas… então… o que acontecerá?

Ora… Israel pedirá um cessar-fogo, o que Israel sempre pede, contra o Hezbollah. E pedirá outra vez o imorredouro apoio do ocidente em sua luta contra o mal do mundo, o Irã incluído.

E o assassinato do comandante Jabari? Por favor, esqueçam que os israelenses estavam negociando com o próprio Jabari, usando como intermediário o serviço secreto alemão, há menos de um ano. Não se negocia com terroristas, certo? Israel negocia.

Israel batizou o mais recente banho de sangue que promove em Gaza, de Operação Pilar da Defesa. Está mais para Pilar da Hipocrisia.

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Fonte: Euronews

Multiplicam-se os esforços diplomáticos para pôr fim ao conflito israelo-palestiniano.

Euronews (http://pt.euronews.com/2012/11/19/ofensiva-diplomatica-para-travar-conflito).

O líder do Hamas no exílio, Khaled Meshaal, reuniu-se, hoje, com presidente egípcio no Cairo. Em cima da mesa: a situação em Gaza.

O correspondente da Euronews explica que o chefe de Estado, Mohammed Morsi, não tem poupado esforços para travar o conflito na Faixa de Gaza e que uma delegação egípcia composta por figuras religiosas e políticas se prepara para entrar no enclave palestiniano já esta terça-feira. O presidente do Egito, adianta, tem feito de tudo para conseguir um cessar-fogo, mas a maioria dos observadores palestinianos não acredita que tal venha a acontecer. Desde logo, devido à escalada de violência fomentada por Israel e pelas diferentes organizações palestinianas. Razão pela qual poucos acreditam na possibilidade de um cessar-fogo a curto prazo.

Israel já fez saber que prefere uma solução diplomática a um ataque terrestre a Gaza, mas garante que se não houver consenso, a ofensiva por terra será inevitável.

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BBC Brasil

Em meio à indefinição sobre cessar-fogo, Gaza é bombardeada novamente

Atualizado em  20 de novembro, 2012 – 22:00 (Brasília) 00:00 GMT

Conflito Israel-Palestina / Getty

Com novo bombardeio a Gaza, possível trégua deve ser adiada

Em meio à indefinição sobre um cessar-fogo que segundo o Hamas seria anunciado oficialmente ainda na noite desta terça-feira, a faixa de Gaza foi bombardeada novamente por forças de Israel.

Para especialistas, a nova ofensiva adia uma possível trégua no conflito.

Pelo menos 20 palestinos foram mortos nesta terça-feira. Dois israelenses – um soldado e um civil – também morreram, vítimas de ataques de foguetes lançados da faixa de Gaza.

Mais cedo, autoridades egípcias e palestinas afirmaram que o cessar-fogo seria anunciado ao fim de conversas realizadas na capital do Egito, Cairo.

No entanto, o porta-voz do governo israelense, Mark Regev, disse à BBC que o acordo ainda não havia sido finalizado.

“Não tenho dúvida de que o Hamas queira uma trégua temporária para que possa descansar e rearmar-se de forma a atacar Israel novamente na semana que vem ou no próximo mês. Não estamos interessados nessa proposta”, afirmou.

Ainda na noite desta terça-feira, um funcionário do alto escalão do Hamas, Izzat Risheq, avaliou que a trégua não seria firmada até a manhã desta quarta-feira.

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BBC Brasil

Atualizado em  20 de novembro, 2012 – 14:51 (Brasília) 16:51 GMT

Aviões da Força Aérea de Israel lançaram nesta terça-feira centenas de milhares de folhetos sobre regiões da Faixa de Gaza, exortando moradores a deixarem suas casas e rumarem ao centro da Cidade de Gaza, o que reforçou os temores de uma invasão por terra.

Correspondentes da BBC em Gaza afirmam que embora centenas de palestinos já estejam abandonando seus lares, muitos dizem que não é prático ou que é tarde demais para sair.

Os folhetos lançaram ainda mais dúvidas sobre a evolução do conflito, já que autoridades egípcias e palestinas afirmaram, horas antes, que o anúncio de um cessar-fogo com Israel seria iminente.

O presidente do Egito, Mohammed Mursi, que lidera as negociações, disse esperar que Israel ponha fim a ataques aéreos na noite desta terça-feira. Um porta-voz do grupo radical palestino Hamas disse à BBC que uma trégua era iminente.

No entanto, o porta-voz do governo israelense, Mark Regev, negou que um acordo com o Hamas tenha sido finalizado. “Ainda não chegamos lá”, disse o porta-voz, em entrevista à BBC. Ele afirmou que as operações israelenses em Gaza continuarão até que se chegue a uma “solução diplomática de longo prazo” quanto ao disparo de foguetes palestinos no sul de Israel.

Ao mesmo tempo, Israel afirmou que havia colocado os planos de uma incursão terrestre em modo de espera.

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ONU pede cessar fogo entre Israel e Hamas

20 de novembro de 2012 | 7h 56
AE – Agência Estado

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, pediu que todos os lados do conflito na Faixa de Gaza cessem fogo imediatamente, alertando em uma entrevista à imprensa no Cairo, capital do Egito, que uma escalada da violência colocaria toda a região em risco.

“Todos os lados precisam cessar fogo imediatamente”, disse a autoridade. A operação militar de Israel contra militantes do Hamas em Gaza já deixou 109 palestinos e três israelenses mortos. As informações são da Dow Jones.

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Número de mortos
BBC Brasil

1/3 de mortos não estava envolvido em conflito

Equipes de resgate retiram homem de escombros de casa destruída em Gaza

Exército israelense disse investigar mortes acidentais de civis em ataque a casa em Gaza

No sexto dia de bombardeios de Israel contra a Faixa de Gaza, e com o total de mortos se aproximando de cem, o Exército israelense afirmou nesta segunda-feira que trinta e três porcento dos mortos não estavam envolvidos no conflito.

Ao menos 18 pessoas foram mortas nos ataques nesta segunda-feira, elevando a 95 os palestinos mortos na atual onda de confrontos entre Israel e o Hamas, grupo que controla a Faixa de Gaza. Um míssil palestino matou 3 israelenses na quinta-feira.

O número de mortos aumentou nos últimos dias, com mais de 50 vítimas, segundo autoridades palestinas. No domingo, 12 pessoas de uma mesma família, incluindo quatro crianças, foram mortas em um ataque israelense que destruiu uma casa de dois andares em Gaza.

O Exército israelense afirmou nesta segunda-feira que outros nove palestinos foram mortos acidentalmente em um ataque que visava um comandante do Hamas responsável pelo programa de foguetes do grupo.

Segundo as autoridades militares israelenses, o incidente está sendo investigado.

Foguetes interceptados

O Exército israelense afirmou ter atacado 80 locais durante a madrugada deste domingo, incluindo casas de militantes do Hamas, depósitos de armamentos e delegacias de polícia, elevando a 1.350 o total de locais bombardeados desde quarta-feira. Fontes palestinas afirmaram que 18 pessoas morreram na última onda de ataques.

Houve também disparos esporádicos de Gaza em direção ao território israelense, mas não há relatos de danos materiais ou vítimas.

Segundo o Exército de Israel, centenas de foguetes foram disparados pelos militantes palestinos nos últimos dias em direção ao território israelense, e cerca de um terço deles foi interceptado pelo sistema israelense de defesa antimísseis.

A violência na região se intensificou na quarta-feira, após a morte do comandante militar do Hamas, Ahmed Jabari, em um ataque aéreo israelense.

Israel afirma que a morte de Jabari e o bombardeio a Gaza são respostas aos disparos de foguetes por militantes palestinos contra seu território.

Na quinta-feira, um míssil disparado de Gaza atingiu um edifício na cidade de Kiriat Malachi, no sul de Israel, matando três israelenses.

Pressão

Soldados israelenses checam armamentos perto da fronteira com Gaza

Israel começou a incorporação de 31 mil reservistas ao Exército, alimentando rumores de invasão por terra

A intensificação dos bombardeios israelenses no fim de semana aumenta a pressão internacional por um acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, anunciou sua ida ao Cairo, no Egito, para participar de negociações lideradas pelo governo egípcio para um possível acordo.

Na noite do domingo, Ban pediu que os dois lados interrompam imediatamente a violência.

O premiê israelense, Biniyamin Netanyahu, afirmou no domingo que Israel estava pronto para “expandir” a operação em Gaza.

Israel aprovou no fim de semana a convocação de até 75 mil reservistas, aumentando os rumores sobre uma possível invasão terrestre a Gaza. Até esta segunda-feira, 31 mil reservistas já haviam sido efetivamente convocados – quase o triplo do número de reservistas incorporados ao Exército durante o conflito de 2008-2009, quando o Exército israelense invadiu a Faixa de Gaza.

O presidente do Egito, Mohammed Mursi, afirmou que uma eventual invasão israelense a Gaza teria “repercussões graves” e afirmou que isso não seria aceito pelo Egito “nem pelo mundo livre”.

A Liga Árabe, que realizou uma reunião de emergência no domingo para discutir a violência na região, anunciou o envio de uma delegação ao território palestino nesta terça-feira.

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E – Agência Estado

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, pediu que todos os lados do conflito na Faixa de Gaza cessem fogo imediatamente, alertando em uma entrevista à imprensa no Cairo, capital do Egito, que uma escalada da violência colocaria toda a região em risco.

“Todos os lados precisam cessar fogo imediatamente”, disse a autoridade. A operação militar de Israel contra militantes do Hamas em Gaza já deixou 109 palestinos e três israelenses mortos. As informações são da Dow Jones.

O FIM DA GUERRA ÀS DROGAS

Compartilhando matéria > Carta Capital > http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-fim-da-guerra-as-drogas/

Polêmica

14.11.2012 09:05
por Eugene Jarecki

A semana passada foi extremamente importante, talvez o começo do fim de uma degeneração nacional — a “guerra às drogas”. Os eleitores de Colorado e Washington aprovaram medidas para legalizar a maconha que representam mudanças locais, por enquanto. Por isso não devemos nos iludir de que o país será transformado da noite para o dia, mas o pensamento público, o espírito público está sendo transformado. Finalmente existe uma crescente percepção de que esta “guerra” não produziu nada além de um legado de fracasso. E quem quer ser associado ao fracasso?

Ativista durante evento no Colorado, estado que aprovou medida para liberar o consumo da maconha. FREDERIC J. BROWN / AFP

Sejamos claros sobre o que estamos discutindo aqui. Não está em questão o impacto devastador que as drogas podem ter sobre os indivíduos — muitos de nós conhecemos pessoas que sofreram dessa maneira. Mas precisamos ver a dependência pelo que ela é — não uma questão criminal, mas sim de saúde pública, e uma enorme questão social, especialmente para os jovens. Na verdade, em vez de “guerra às drogas”, é melhor chamá-la de guerra às crianças.

Em muitas áreas de nosso país uma criança se desvia um pouco aos 14 anos; experimenta uma droga, não consegue encontrar uma maneira de pagar por ela e então mergulha na economia subterrânea. Em pouco tempo tem um registro em sua ficha, que permanecerá com ele para o resto de sua vida. Então tem um ciclo de degradação, que começa aos 13 ou 14, e nunca sai dele. Hoje sabemos tanto sobre desenvolvimento infantil, a importância dos primeiros anos, como as comunidades se desenvolvem. Em vez disso, evisceramos os bairros, destripamos a infraestrutura que antes fornecia recursos às cidades.

E com essa “guerra” estamos falando sobre a eliminação de uma população — que um dia foi a América negra, hoje apenas América pobre. São pessoas removidas da história oficial dos EUA — somente na semana passada os milhões delas que estão trancadas, muitas vezes por crimes não violentos relacionados a drogas, não participaram de nossa democracia. Por isso, no mínimo, estamos retirando dos pobres as alavancas de poder.

Existe um novo consenso de que a visão econômica está se tornando mais influente na mudança de atitude sobre as drogas do que a quantia de dinheiro economizada com o policiamento e a quantia obtida através da taxação de drogas legalizadas estão influenciando a opinião pública. Obviamente, todos estremeceríamos ao pensar que vivemos em um país onde somente o colapso econômico de uma degeneração como esta poderia provocar seu fim. Mas eu acho que também é verdade que o que está acontecendo é mais complexo — cálculos econômicos encontrando-se com preocupações humanitárias. Assim, você tem pessoas como Grover Norquist, o cofundador conservador da Americanos pela Reforma Fiscal, e Chris Christie, o governador republicano de Nova Jersey, encontrando companheiros improváveis em Russell Simmons e Danny Glover, produtores do meu filme. Todos veem uma abordagem fracassada.

O cineasta Eugene Jarecki. Galeria de rasdourian/Flickr

Quando eu comecei a fazer o filme, queria falar para pessoas afetadas pelas drogas em todo o país. Os usuários, traficantes e parentes; mas também os juízes, policiais e carcereiros. Eu esperava ser uma espécie de repórter de tribunal, captando uma discussão entre esses dois lados.

Na verdade, todo mundo parecia uma vítima. As pessoas que trabalham no sistema penal querem esses empregos tanto quanto querem um buraco na cabeça; elas fazem um trabalho do qual não se orgulham. Em última instância, muito poucas pessoas querem trabalhar em um sistema cujo sucesso depende de um bando de seres humanos para ser trancados. E, é claro — em termos de classe –, existe muito mais em comum. Os guardas de prisão me diziam que tinham parentes presos, amigos de colégio. E, assustadoramente, todo mundo tinha uma história sobre como o sistema estava quebrado.

Mas há um fatalismo chocante em jogo. O que eu descobri foram muitas pessoas dizendo: “Eugene, eu sei que o sistema está quebrado e lhe desejo sorte. Mas continue sonhando, a coisa é tão vasta e há tanta força burocrática que você está se enganando se pensa que pode ser consertada”. Mas depois os carcereiros diziam: “Mas até que você faça isso eu tenho de fazer meu trabalho e, por Deus, sou um americano e vou fazê-lo melhor que os outros”.

Admirável em certo sentido, mas engraxa as engrenagens para que a máquina continue em operação. Assim, um juiz lhe dirá muito sinceramente que não tem alternativa senão prender uma pessoa não violenta durante 20 anos porque é a pena mínima — e ele tem razão –, mas então durante o almoço ele lhe diz que lamenta ter de fazer isso. Para um país fundado na revolução, tornamo-nos espetacularmente desligados da noção de comportamento revolucionário. Em vez disso, mantemos os corpos em movimento pelo sistema.

Não vou fingir que o colapso da “guerra às drogas” transformaria as chances de vida da noite para o dia para os que nasceram pobres nos EUA. Mas se parássemos de mutilar muitas comunidades as libertaríamos para pelo menos pôr os pés no chão das maneiras normais. Também poderíamos poupar uma enorme quantidade de dinheiro e nos perguntar: o que poderíamos fazer que plantaria uma árvore? O que eu poderia fazer nos bairros que realmente promovesse os valores que construíram a civilização e ajudasse os jovens a encontrar caminhos além dos que terminam na dependência de drogas?

O progresso não vai ocorrer imediatamente no cenário nacional. Tenho certeza de que Obama reconheceria a lógica do filme e então faria o que fez nos últimos quatro anos — ele acorda com a máquina de Washington. Quatro anos atrás eu me reuni com sua equipe; todos disseram as coisas certas. Não fale sobre uma guerra às drogas, eles diziam. Você não faz uma guerra contra sua própria gente. Mas eles continuaram a guerra do mesmo modo.

O que provocará a mudança é a exigência do público. O público tem de vaiar os políticos que manipulam dessa maneira — dizem que estão sendo duros com o crime, mas estão destruindo comunidades. Precisamos dizer a eles que não vamos deixá-los difamar nosso bairro para manter o sistema penal em movimento. Faremos isso se reconhecermos que a venda de drogas não é mais substancial que a venda de armas de destruição em massa. E sabemos a que isso levou. Nós americanos temos sido muito impressionáveis, mas estamos ficando menos. Pouco a pouco estamos percebendo que a “guerra às drogas” não tem sentido. E se fizermos os políticos saberem disso eles não terão opção além de se tornar mais inteligentes e responder às nossas demandas.

Direcionado aos conservadores de São Paulo

Os jornais virtuais abrem espaço aos leitores para publicar comentários, e me chama a atenção o conservadorismo radical dos paulistas que atribuem a responsabilidade das mazelas sociais a “falta de vontade de trabalhar” dos pobres, aos nordestinos e seus descendentes e ao bolsa família.

Todos os discursos são impregnados de ódio gratuito direcionado ao que eles consideram diferente, e isso vai desde os pobres aos homossexuais. Eles se escondem por tras de pseudônimos virtuais para clamar todas as suas mais íntimas revoltas. Muitos inclusive falam em nome de Deus, pois o Deus deles certamente não é preto, nordestino e pobre. Esse Deus europeu nascido em Jerusalém a cem mil anos atrás dizem quem “está em todos os lugares”, porém ele não deve ter acesso à internet onde seus “filhos” andam pregando o ódio e por mais irônico que pareça, em nome da paz. Paz para outros iguais a eles, brancos paulistas descendentes de qualquer coisa, menos de nordestino.

“Ode ao Burguês”, disse Mário de Andrade na Semana da Arte Moderna em 1922. Mal sabia ele que o burguês paulista de 1922 casou e teve filhos idênticos a ele, e hoje acessam a internet e comentam em páginas de notícias. Os comentários são quase todos idênticos. Seja qual for o tema da notícia, eis que surgem eles pregando o apartheid de São Paulo com o resto do país. Aliás, mais precisamente a região localizada no norte e nordeste do país. Eles realmente acreditam que o paulista trabalha mais que todo o resto da população brasileira, mesmo tendo em casa uma empregada doméstica que por míseros réis faze todo o trabalho sujo que eles são incapazes de fazer, como lavar e passar suas cuecas por exemplo. A empregada doméstica que veio do nordeste quando menina, sofreu o diabo nessa cidade desumana, e que enquanto o padrão dorme ela já está de pé na fila do ônibus depois de ter levado o leite pras crianças. A empregada doméstica que recebe um salário de fome e que com o bolsa família consegue melhorar um pouco a renda da família, e quem sabe garantir que sua menina quando crescer tenha um futuro um pouco melhor, já que a profissão de empregada doméstica até hoje não possui direitos trabalhistas no Brasil.

O burguês paulista bestializado com o seu “ouro de tolo” que se sente feliz por ser um cidadão respeitável porque tem um emprego, paga seus impostos e ganha quatro mil cruzeiros por mês. O burgues medíocre que lê a Folha e assiste o Jabor, não come caviar, mas já consegue fazer compras em Miami uma vez por ano e ainda pensa como o século passado, que ser “viajado” é sinônimo de ser culto (mesmo o percurso da viagem iniciando no aeroporto internacional de Guarulhos e terminando em Orlando, paraíso das crianças grandes que vão à Disneylândia ver outras crianças grandes imigrantes fantasiadas de princesas).

Eles almejam uma vida dentro dos bons costumes, e se lamentam pelo Brasil não ter a mesma cultura norte americana, e até afirmam que no Brasil não há cultura. Quando leio essas pérolas compreendo bem o que é sentir “vergonha alheia”.

Pobres criaturas, se divertem lendo Cinquenta Tons de Cinza (depois do livro A Cabana, esse é o que mais me incomoda), e desconhecem Raquel de Queiroz, romancista brasileira e nordestina.

Me pergunto se os comentários são induzidos pelo contexto das matérias, e admito que costumo acompanhar certo pasquim por oferecer notícia em tempo real, e na maioria das vezes o jornal induz os leitores a terem uma percepção conservadora sobre os fenômenos, porém percebe-se que os leitores leem, não para refletir sobre o que leem, e sim para buscar qualquer evidência de que suas opiniões sobre pobre, preto, nordestino e beneficiário do bolsa família estavam corretas.

Vou deixar as palavras para quem tem melhor domínio sobre elas do que eu.

Mario de Andrade

Ode ao Burgues

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
“–Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
–Um colar… –Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”

Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burgês!…

De Paulicéia desvairada (1922)

Eleições 2012, “ao vencedor as batatas”

Antes fosse um conto machadiano e o que estivesse em questão: um campo de batatas. Tratando-se de São Paulo, ao vencido coligação, e  ao vencedor a prefeitura da cidade.

Acompanhando as pesquisas:

O Datafolha divulgou, nesta quinta-feira (27), uma nova pesquisa de intenção de voto sobre a disputa pela Prefeitura de São Paulo neste ano.

A pesquisa foi encomendada pela TV Globo e pelo jornal “Folha de S.Paulo”.

Em relação à pesquisa anterior, Russomanno foi de 35% para 30%, Serra, de 21% para 22%, e Haddad, de 15% para 18%. Segundo o Datafolha, tucano e petista estão em empate técnico no limite da margem de erro, de 2 pontos.

Veja os números do Datafolha para a pesquisa estimulada: Celso Russomanno (PRB) – 30% das intenções de voto José Serra (PSDB) – 22% Fernando Haddad (PT) – 18% Gabriel Chalita (PMDB) – 9% Soninha (PPS) – 4% Ana Luiza – (PSTU) 1% Carlos Giannazi (PSOL) – 1% Paulinho da Força (PDT) – 1% Em branco/nulo – 8% Não sabe – 6%

Os candidatos Levy Fidelix (PRTB), Anaí Caproni (PCO), Eymael (PSDC) e Miguel (PPL) foram citados mas não atingiram 1%.

A pesquisa foi realizada nos dias 26 e 27 de setembro. Foram entrevistadas 1.799 pessoas na cidade de São Paulo. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

A pesquisa está registrada no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SP), sob o número SP-01182/2012.

Veja os números do Datafolha, considerando os votos válidos: Celso Russomanno (PRB) – 34% dos votos válidos José Serra (PSDB) – 25% Fernando Haddad (PT) – 21% Gabriel Chalita (PMDB) – 10% Soninha (PPS) – 5% Ana Luiza (PSTU) – 1% Carlos Giannazi (PSOL) – 1% Paulinho da Força (PDT) – 1%

Para calcular esses votos, são excluídos da amostra os votos brancos, os nulos e os eleitores que se declaram indecisos. O procedimento é o mesmo utilizado pela Justiça Eleitoral para divulgar o resultado oficial da eleição. Para vencer no primeiro turno, um candidato precisa de 50% dos votos válidos mais um voto.

Pesquisas estimuladas anteriores A primeira pesquisa do Datafolha foi divulgada em 21 de julho e registrou os seguintes resultados: José Serra com 30%; Celso Russomanno (26%); Fernando Haddad e Soninha (7%); Gabriel Chalita (6%); Paulinho da Força (5%); Ana Luiza (1%); Carlos Giannazi (1%); Levy Fidelix (1%), Miguel, Eymael e Anaí Caproni não pontuaram.

Na segunda pesquisa, divulgada em 21 de agosto, o resultado foi: Celso Russomanno (31%), José Serra (27%), Fernando Haddad (8%), Gabriel Chalita (6%), Soninha (5%), Paulinho da Força (4%) e Ana Luiza (1%); Carlos Giannazi, Levy Fidelix, Miguel, Eymael e Anaí Caproni não pontuaram.

Na terceira pesquisa, divulgada em 31 de agosto, o resultado foi: Celso Russomanno (31%), José Serra (22%), Fernando Haddad (14%), Gabriel Chalita (7%), Soninha (4%), Paulinho da Força (2%) e Ana Luiza(1%) e Carlos Giannazi (1%); Miguel, Eymael, Anaí Caproni e Levy Fidelix não pontuaram.

Na quarta pesquisa, divulgada em 5 de setembro, o resultado foi: Celso Russomanno (35%), José Serra (21%), Fernando Haddad (16%), Gabriel Chalita (7%), Soninha (5%), Paulinho da Força (1%). A intenção de voto nos demais candidatos e o número de eleitores que declararam voto branco ou nulo ou não responderam não foram divulgados.
Na quinta pesquisa, divulgada em 12 de setembro, o resultado foi: Celso Russomanno (32%), José Serra (20%), Fernando Haddad (17%), Gabriel Chalita (8%), Soninha (5%), Paulinho da Força (1%) e Carlos Giannazi (1%); Levy Fidelix, Anaí Caproni, Eymael, Miguel e Ana Luiza foram citados mas não atingiram 1%.

Na sexta pesquisa, divulgada em 20 de setembro, o resultado foi: Celso Russomanno (35%), José Serra (21%), Fernando Haddad (15%), Gabriel Chalita (8%), Soninha (4%), Paulinho da Força (1%), Carlos Giannazi (1%) e Ana Luiza (1%); Levy Fidelix, Anaí Caproni, Eymael, Miguel foram citados mas não atingiram 1%.

Segundo turno O Datafolha também simulou o segundo turno com os nomes dos três primeiros colocados na pesquisa. Russomanno venceria se disputasse contra Serra ou Haddad, e Haddad venceria Serra. Os resultados dos três cenários foram:

– Russomanno 50% x 34% Serra – Russomanno 49 % x 34% Haddad – Haddad 48% x 38% Serra

Rejeição O Datafolha perguntou ainda em quem os entrevistados não votariam de jeito nenhum. Serra foi o mais citado, com índice de rejeição de 45%. Haddad tem 24%. Na sequência aparecem Paulinho da Força (22%), Soninha (22%), Russomanno (22%), Levy Fidelix (21%), , Eymael (17%), Ana Luiza (13%), Miguel (14%), Chalita (14%), Anaí Caproni   (13%)  e Carlos Giannazi (10%).

Fonte: G1.com

Morre o historiador Eric Hobsbawm

Morre o historiador Eric Hobsbawm

fonte: band.com.br
O pensador marxista britânico morreu aos 95 anos no início de hoje, após uma longa doença, de acordo com sua filha, Julia.
O historiador tratou de muitos temas, em sua longa carreira, entre eles a ascensão do Estado-nação e movimentos revolucionários / Tuca Vieira / Folha Press

 Um dos principais historiadores do século 20, Eric Hobsbawm morreu aos 95 anos, informou a família dele nesta segunda-feira, de acordo com o jornal “The Guardian”.

O pensador marxista britânico morreu no início de hoje, no Royal Free Hospital, em Londres, após uma longa doença, de acordo com sua filha, Julia.
Nascido em uma família judia em Alexandria, no Egito, Hobsbawm viveu em Viena, na Áustria, e Berlim, na Alemanha. Com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, sua família seguiu em 1933 para Londres, onde Hobsbawm seguiu seus estudos e se graduou, em Cambridge, além de adotar a cidadania britânica.

O historiador tratou de muitos temas, em sua longa carreira, entre eles a ascensão do Estado-nação, movimentos revolucionários, a história contemporânea em geral e até, em uma de suas obras, fez uma história social do jazz. Entre seus principais livros estão “A era das revoluções”, “A era do capital”, “A era dos extremos” e “Nações e Nacionalismo desde 1780”. Desenvolveu quase toda sua carreira na Birkbeck University, mas também foi, por exemplo, professor-visitante em Stanford, nos EUA, nos anos 1960.

O “Guardian” lembra que o fato de Hobsbawm ter se mantido fiel ao marxismo ao longo do tempo era alvo de polêmica, sobretudo após ficarem claros os vários abusos cometidos por lideranças socialistas em países como a Hungria e na própria União Soviética em relação aos opositores do regime ou a algumas minorias. Em uma declaração lembrada pelo diário britânico, Hobsbawm disse que nunca tentou minimizar as atrocidades cometidas na Rússia, mas acreditara que o sistema soviético poderia representar uma solução melhor para a humanidade que o capitalismo do Ocidente.

Hobsbawm veio ao Brasil em 2003, para a primeira edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Na ocasião, falou, por exemplo, de sua autobiografia, “Tempos interessantes”.

14 de Setembro de 2011 – 10h54

Entrevista com Eric Hobsbawm: Trocando mitos por história

Eric Hobsbawm é um historiador merecedor de todo o respeito. Num tempo em que a atividade central da grande maioria dos historiadores burgueses consiste na reescrita da história de acordo com as conveniências da ideologia dominante, a sua fidelidade à matriz marxista na investigação e no método serve de exemplo, independentemente das discordâncias que este ou aquele aspecto da sua obra suscitem.

Discordâncias que ele próprio assume frontalmente: “O que busco é o entendimento da história, e não concordância, aprovação ou comiseração”. Esta interessante entrevista é um exemplo da importância da reflexão de alguém que conta 94 anos, ou seja, de alguém que nasceu no ano da grande revolução socialista de outubro.

Estadão: No livro Globalização, Democracia e Terrorismo, de 2007, o senhor passa para os leitores certo pessimismo ao lhes colocar uma perspectiva crucial e ao mesmo tempo desconfortante: ”Não sabemos para onde estamos indo”, diz, referindo-se aos rumos mundiais. Olhando as últimas décadas pelo retrovisor da história, esse sentimento parece ter se intensificado. Em que outros momentos a humanidade viveu períodos marcados por essa mesma sensação de falta de rumos?

Eric Hobsbawm: Embora existam diferenças entre os países, e também entre as gerações, sobre a percepção do futuro – por exemplo, hoje há visões mais otimistas na China ou no Brasil do que em países da União Europeia e nos Estados Unidos –, ainda assim acredito que, ao pensar seriamente na situação mundial, muita gente experimente esse pessimismo ao qual você se refere. Porque de fato atravessamos um tempo de rápidas transformações e não sabemos para onde estamos indo, mas isso não constitui um elemento novo em tempos críticos. Tempos que nos remetem ao mundo em ruínas depois de 1914, ou mesmo a vários lugares daquela Europa entre duas grandes guerras ou na expectativa de uma terceira.
Aqueles anos durante e após a 2ª Guerra foram catastróficos, ali ninguém poderia prever que formato o futuro teria ou mesmo se haveria algum futuro. Cruzamos também os anos da Guerra Fria, sempre assustadores pela possibilidade de uma guerra nuclear. E, mais recentemente, notamos a mesma sensação de desorientação ao vermos como os Estados Unidos mergulharam numa crise econômica que até parece ser o breakdown do capitalismo liberal.

Estadão: Nações saíram empobrecidas, arruinadas mesmo, das guerras mundiais, mas é adequado pensar que havia naqueles escombros o desenho de um futuro?

Eric Hobsbawm: Sim. Se de um lado o futuro nos era desconhecido e cada vez mais inesperado, havia por outro lado uma ideia mais nítida sobre as opções que se apresentavam. No entreguerras, a escolha principal de um modelo se dava entre o capitalismo reformado e o socialismo com forte planejamento econômico – supremacia de mercado sem controle era algo impensável. Havia ainda a opção entre uma democracia liberal, o fascismo ultranacionalista e o comunismo.
Depois de 1945, o mundo claramente se dividiu numa zona de democracia liberal e bem-estar social a partir de um capitalismo reformado, sob a égide dos EUA, e uma zona sob orientação comunista. E havia também uma zona de emancipação de colônias, que era algo indefinido e preocupante. Mas veja que os países poderiam encontrar modelos de desenvolvimento importados do Ocidente, do Leste e até mesmo resultante da combinação dos dois. Hoje esses marcos sinalizadores desapareceram e os “pilotos” que guiariam nossos destinos, também.

Estadão: Como o senhor avalia o poder das imagens de destruição nos ataques do 11/9 a Nova York, tão repetidas nos últimos dias? Tornaram-se o símbolo de uma guinada histórica, apontando novas relações entre Ocidente e Oriente? Por que imagens do cenário de morte de Bin Laden surtiram menos impacto?

Eric Hobsbawm: A queda das torres do World Trade Center foi certamente a mais abrangente experiência de catástrofe que se tem na história, inclusive por ter sido acompanhada em cada aparelho de televisão, nos dois hemisférios do planeta. Nunca houve algo assim. E sendo imagens tão dramáticas, não surpreende que ainda causem forte impressão e tenham se convertido em ícones.
Agora, elas representam uma guinada histórica? Não tenho dúvida de que os Estados Unidos tratam o 11/9 dessa forma, como um turning point, mas não vejo as coisas desse modo. A não ser pelo fato de que o ataque deu ao governo norte-americano a ocasião perfeita para o país demonstrar sua supremacia militar ao mundo. E com sucesso bastante discutível, diga-se. Já o retrato de Bin Laden morto (que não foi divulgado) talvez fosse uma imagem menos icônica para nós, mas poderia se converter num ícone para o mundo islâmico. Da maneira deles, porque não é costume nesse mundo dar tanta importância a imagens, diferentemente do que fazemos no Ocidente, com nossas camisetas estampando o rosto de Che Guevara.

Estadão: Mas além da chance de demonstrar poderio militar, os Estados Unidos deram uma guinada na sua política externa a partir de 2001, ajustando o foco naquilo que George W. Bush batizou como “war on terror”. Outro encaminhamento seria possível?

Eric Hobsbawm: Eu diria que a política externa norte-americana, depois de 2001, foi parcialmente orientada para a guerra ao terror, e fundamentalmente orientada pela certeza de que o 11/9 trouxe para os EUA a primeira grande oportunidade, depois do colapso soviético, de estabelecer uma supremacia global, combinando poder político-econômico e poder militar.
Criou-se a situação propícia para espalhar e reforçar bases militares americanas na Ásia central, ainda uma região muito ligada à Rússia. Sob esse aspecto, houve uma confluência de objetivos – combate-se o inimigo ampliando enormemente a presença militar norte-americana. Mas, sob outro aspecto, esses objetivos conflitaram. A guerra no Iraque, que no fundo nada tinha a ver com a Al-Qaida, consumiu atenção e uma enormidade de recursos dos EUA, e ainda permitiu à organização liderada por Bin Laden criar bases não só no Iraque, mas no Paquistão e extensões pelo Oriente Médio.

Estadão: Os Estados Unidos lançaram-se nessa campanha sabendo o tamanho do inimigo?

Eric Hobsbawm: O perigo do terrorismo islâmico ficou exagerado, a meu ver. Ele matou milhares de pessoas, é certo, mas o risco para a vida e a sobrevivência da humanidade que ele possa representar é muito menor do que o que se estima. Exemplo disso são as importantes mudanças que ocorreram neste ano no mundo árabe, mudanças que nada devem ao terrorismo islâmico. E não só: elas o deixaram à margem.
Agora, o mais duradouro efeito da war on terror, aliás, uma expressão que os diplomatas norte-americanos finalmente estão abandonando, terá sido permitir que os Estados Unidos revivessem a prática da tortura, bem como permitir que os cidadãos fossem alvo de vigilância oficial. Isso, claro, sem falar das medidas que fazem com que a vida das pessoas fique mais desconfortável, como ao viajar de avião.

Estadão: Diante dos problemas econômicos que hoje afligem os Estados Unidos, ainda sem um horizonte de recuperação à vista, o senhor diria que seguimos em direção a um tempo de declínio da hegemonia norte-americana?

Eric Hobsbawm: Nós de fato caminhamos em direção à Era do Declínio Americano. As guerras dos últimos dez anos demonstram como vem falhando a tentativa norte-americana de consolidar sua solitária hegemonia mundial. Isso porque o mundo hoje é politicamente pluralista, e não monopolista. Junto com toda a região que alavancou a industrialização na passagem do século 19 para o século 20, hoje a América assiste à mudança do centro de gravidade econômica do Atlântico Norte para o Leste e o Sul.
Enquanto o Ocidente vive sua maior crise desde os anos 1930, a economia global ainda assim continua a crescer, empurrada pela China e também pelos outros Brics. Ainda assim, não devemos subestimar os Estados Unidos. Qualquer que venha a ser a configuração do mundo no futuro, eles ainda se manterão como um grande país e não apenas porque são a terceira população do planeta. Ainda vão desfrutar, por um bom tempo, da notável acumulação científica que conseguiram fazer, além de todo o soft power global representado por sua indústria cultural, seus filmes, sua música, etc.

Estadão: Não só por desdobramentos político-militares do 11/9, mas também pela emergência de novos atores no mundo globalizado, criam-se situações bem desafiadoras. Por exemplo, o que o Ocidente sabe do Islã? E dos países árabes que hoje se levantam contra seus regimes? Qual é o grau de entendimento da China? Enfim, o Ocidente enfrenta dificuldades decorrentes de uma certa superioridade cultural ou arrogância histórica? Eric Hobsbawm: Ao longo de toda uma era de dominação, o Ocidente não só assumiu que seus triunfos são maiores do que os de qualquer outra civilização, e que suas conquistas são superiores, como também que não haveria outro caminho a seguir. Portanto, ao Ocidente restaria unicamente ser imitado. Quando aconteciam falhas nesse processo de imitação, isso só reforçava nosso senso de superioridade cultural e arrogância histórica.
Assim, países consolidados em termos territoriais e políticos, monopolizando autoridade e poder, olharam de cima para baixo para países que aparentemente estavam falhando na busca de uma organização nas mesmas linhas. Países com instituições democráticas liberais também olharam de cima para baixo para países que não as tinham. Políticos do Ocidente passaram a pensar democracia como uma espécie de contabilidade de cidadãos em termos de maiorias e minorias, negando inclusive a essência histórica da democracia.
E os colonizadores europeus também se acharam no direito de olhar populações locais de cima para baixo, subjugando-as ou até erradicando-as, mesmo quando viam que aqueles modos de vida originais eram muito mais adequados ao meio ambiente das colônias do que os modos de vida trazidos de fora. Tudo isso fez com que o Ocidente realmente desenvolvesse essa dificuldade de entender e apreciar avanços que não fossem os próprios.
Estadão: Essa superioridade do Ocidente pode mudar com a emergência de uma potência como a China?

Eric Hobsbawm: Mas mesmo a China, que no passado remoto era tida como uma civilização superior, foi subestimada por longo tempo. Só depois da 2ª Guerra é que seus avanços em ciência e tecnologia começaram a ser reconhecidos. E só recentemente historiadores têm levantado as extraordinárias contribuições chinesas até o século 19.
Veja bem, ainda não sabemos em que medida a cultura, a língua e mesmo as práticas espirituais da Pérsia, hoje Irã, enfim, em que medida aquele fraco e frequentemente conquistado império influenciou uma grande parte da Ásia, do Império Otomano até as fronteiras da China. Sabemos? Temos grande dificuldade em compreender a natureza das sociedades nômades, bem como sua interação com sociedades agrícolas assentadas, e hoje a falta dessa compreensão torna quase impossível traduzir o que se passa em vastas áreas da África e da região do Saara, por exemplo, no Sudão e na Somália.
A política internacional fica completamente perdida quando confrontada por sociedades que rejeitam qualquer tipo de estado territorial ou poder superior ao do clã ou da tribo, como no Afeganistão e nas terras altas do sudoeste asiático. Hoje achamos que já sabemos muito sobre o Islã, sem nem sequer nos darmos conta de que o radicalismo xiita dos aiatolás iranianos e o sonho de restauração do califado por grupos sunitas não são expressões de um Islã tradicional, mas adaptações modernistas, processadas o longo século 20, de uma religião prismática e adaptável.

Estadão: Com todos esses exemplos de ”mundos” que se estranham, o senhor diria que a história corre o risco das distorções?

Eric Hobsbawn: Apesar de todos esses exemplos, sou forçado a admitir que a arrogância histórica ocidental inevitavelmente se enfraquece, exceto em alguns países, entre eles os EUA, cujo senso de identidade coletiva ainda consiste na crença de sua própria superioridade. Nos últimos dez anos, a história tomou outro curso, muito afetada pelas imigrações internacionais que permitem a mulheres e homens de outras culturas virem para os “nossos” países.
Dou um exemplo: hoje a informação municipal na região de Londres onde vivo está disponível não apenas em inglês, mas em albanês, chinês, somali e urdu. A questão preocupante é que, como reação a tudo isso, surge também uma xenofobia de caráter populista, que se propaga até nas camadas mais educadas da população. Mas, inegavelmente, numa cidade como Londres ou Nova York, onde a presença dos imigrantes de várias partes é forte, existe hoje um reconhecimento maior da diversidade do mundo do que se tinha no passado.
Turistas que buscam destinos na Ásia, África ou até mesmo no Caribe costumam não entender a natureza das sociedades que cercam seus hotéis, mas jovens mulheres e homens que hoje viajam, a trabalho ou estudos, para esses lugares, já criam outra compreensão. Em resumo, apesar da expansão de xenofobia, há motivos para otimismo porque a compreensão abrangente do nosso tempo complexo requer mais do que conhecimento ou admiração por outras culturas. Requer conhecimento, estudo e, não menos importante, imaginação.
Estadão: Imaginação?

Eric Hobsbawm: Sim, porque essa compreensão abrangente é frequentemente dificultada pelo persistente hábito de políticos e generais passarem por cima do passado. O Afeganistão é um clamoroso exemplo do que estou dizendo. Temo que não seja o único.
Estadão: Na sua opinião, estaríamos atravessando um momento regressivo da humanidade quando fundamentalismos religiosos impõem visões de mundo e modos de vida?

Eric Hobsbawm: O que vem a ser um momento regressivo? Esta é a pergunta que faço. Não acredito que nossa civilização esteja encarando séculos de regressão como ocorreu na Europa Ocidental depois da queda do Império Romano. Por outro lado, devemos abandonar a antiga crença de que o progresso moral e político seja tão inevitável quanto o progresso científico, técnico e material. Essa crença tinha alguma base no século 19.
Hoje o problema real que se coloca, o maior deles, é que o poder do progresso material e tecnocientífico, baseado em crescente e acelerado crescimento econômico, num sistema capitalista sem controle, gera uma crise global de meio ambiente que coloca a humanidade em risco. E, à falta de uma entidade internacional efetiva no plano da tomada de decisão, nem o conhecimento consolidado do que fazer, nem o desejo político de governos nacionais de fazer alguma coisa estão presentes.
Esse vazio decisório e de ação pode, sim, levar o nosso século para um momento regressivo. E certamente isso tem a ver com aquele “sentido de desorientação” que discutimos no início da entrevista.

Estadão: Apoiado na sua longa trajetória acadêmica, que conselhos o senhor daria aos jovens historiadores de hoje?

Eric Hobsbawn: Hoje pesquisar e escrever a história são atividades fundamentais, e a missão mais importante dos historiadores é combater mitos ideológicos, boa parte deles de feitio nacionalista e religioso. Combater mitos para substituí-los justamente por história, com o apoio e o estímulo de muitos governos, inclusive. Se eu fosse jovem o suficiente, gostaria de participar de um excitante projeto interdisciplinar que recorresse à moderna arqueologia e às técnicas de DNA para compor uma história global do desenvolvimento humano, desde quando os primeiros Homo sapiens tenham aparecido na África oriental e como elas se espalharam pelo globo.
Agora, se eu fosse um jovem historiador latino-americano, daí eu poderia ser tentado a investigar o impacto do meu continente sobre o resto do mundo. Isso, desde 1492, na era dos descobrimentos, passando pela contribuição material desse continente a tantos países, com metais preciosos, alimentos e remédios, até o efeito da América Latina sobre a cultura moderna e a compreensão do mundo, influenciando intelectuais como Montaigne, Humboldt, Darwin. E, evidentemente, eu pesquisaria a riqueza musical do continente, fosse eu um latino-americano. Isso é tudo o que eu quero dizer.
A Roda Bélica da História, por Hobsbawn
1ª Guerra, o banho de sangue
O tempo histórico era outro, avalia Hobsbawm. O mundo ficara quase um século sem um grande conflito e o conceito de “paz” fez-se sinônimo de “antes de 1914”, ano em que Francisco Ferdinando, da Áustria, foi morto. Detonava-se o conflito que iria sangrar a Europa.
2ª Guerra, o mistério
O mundo sabia o que era uma guerra maciça, mas não uma guerra global. Eis a amarga contribuição da 2ª Guerra, conflito sem limites. Hobsbawm indaga: por que Hitler, esgotado na Rússia, declarou guerra aos EUA, permitindo que se associassem à Grã-Bretanha?
Guerra Fria, o absurdo
Como explicar 40 anos de tensão pela crença de que o planeta poderia explodir a qualquer momento e, contra a destruição total, só haveria a chance da dissuasão mútua? Para Hobsbawm, a Guerra Fria dos tempos de Kruchev carregou a inconclusão da Era da Catástrofe.
Guerra do Golfo, o lucro
Ao findar da Guerra Fria, lembra o historiador, a hegemonia econômica norte-americana já estava abalada. E sua superioridade militar teve que ser financiada por apoiadores de Washington. Na guerra contra o Iraque, em 1991, a potência presidida por Bush pai realizou lucros.
Fonte: O Estado de S. Paulo

Entrevista com o autor de Homo Sacer, Giorgio Agamben.

Giorgio Agamben: “Deus não morreu; tornou-se Dinheiro”

“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”, afirma Giorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salvà e publicada por Ragusa News e republicada no Brasil pelo Instituto Humanitas

Extraído do blog http://www.vermelho.org.br

 

Giorgio Agamben

Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.  Segundo ele, “a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas”. Assim, “a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben.

A tradução é de Selvino J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC [e tradutor de três das quatro obras de Agamben publicadas pela editora Boitempo].
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O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itália. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?

“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. ”Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.
Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a idéia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania ), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?

A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado. Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história e o passado tem um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.
O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar) têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim, da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.
Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.
A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?

Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo, foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política. O que aconteceu nos estados totalitários do século 20 reside no fato de que é o poder (também na forma da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.
O mal-estar, para usar um eufemismo, com que o ser humano comum se põe frente ao mundo da política tem a ver especificamente com a condição italiana ou é de algum modo inevitável?

Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.
O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?

Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos Estados que se dizem democráticos. Poucos sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmaras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmaras não é mais um lugar público: é uma prisão

.
A grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal, o futuro será melhor do que o presente?

Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: ”a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.
Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a lectio que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação de como sair do xequemate no qual a arte contemporânea está envolvida.

Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercadorização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea, as duas coisas coincidem.
Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma umapoiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.
Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercadorização. Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com não-obras e performances a museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

De olho no que andam falando sobre nós

Eis que do alto do seu pedestal na coluna da Folha de São Paulo, Gilberto Dimmenstein insiste em soltar suas pérolas. Dessa vez o colunista observa a cidade (de cima para baixo, pra variar) e afirma que estamos caminhando para a civilidade no que se refere a mobilidade urbana.

Obviamente, o senhor Dimmenstein desconhece o resultado das recentes pesquisas que mostram claramente que as ruas da cidade não oferecem condições mínimas para pedestres e ciclistas. Nessas pesquisas, não somente as regiões periféricas como também as regiões tradicionais como a Av. Paulista são mencionadas pela falta de estrutura aos “passantes”.

Para não dizer que Dimmenstein está sendo tendencioso com essa matéria se apropriando dos recursos que possui para transmitir aos leitores que São Paulo está caminhando para a civilidade, diria então que o colunista está no mínimo desinformado, o que para alguém que é pago para transmitir informação é imperdoável.

Quando o autor dessa infeliz coluna fala sobre mobilidade, se quer menciona os pontos de sangrias desse problema que devem ser alvos de qualquer crítica. As sangrias a serem estancadas certamente são desconhecidas para Dimmenstein, como a situação caótica do transporte público. Qualquer cidade que se preocupa de fato com planejamento urbano e mobilidade dos cidadãos coloca o transporte público nas questões, como ordem do dia. O ex-prefeito da cidade de Bogotá (Bolívia) disse  sabiamente que uma cidade avançada não é aquela que todos os pobres tem condições de usar carro, e sim aquela em que todos os ricos tem condições de usar o transporte publico.

Para aqueles que gastam mais de três horas por dia no transporte publico dividindo o metro quadrado com mais outros sete usuários, a situação se aproxima do estado de natureza hobbesiano, na guerra de todos contra todos. Espremidos, esmagados e pisoteados usuários de metrô, trem e ônibus pertencem a parcela da população que compõe a maioria, e sabem que se locomover na cidade está cada vez mais difícil.

E as ruas senhor Dimmenstein, sem iluminação, pisos lineares e segurança? Certamente Dimmenstein fala em nome de uma minoria privilegiada que “vai a pé” para manter a boa forma, e não pela necessidade. Fala por aqueles que o andar a pé é uma opção que exclui a sedentariedade, em percursos pequenos entre o shopping Higienópolis e a sua residência.

O colunista exclui fatos fundamentais para qualquer análise séria sobre mobilidade urbana, e talvez nunca tenha pensado naqueles que possuem necessidades especiais (como cadeirantes e deficientes visuais) que enfrentam uma verdadeira saga ao transitarem pela cidade.

Mais uma vez Gilberto Dimmenstein solta suas pérolas prosaicas e elitistas, e o leitor desatento aplaude mais um pseudo intelectual.

Para ler a coluna de Dimmenstein, clique aqui http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/1157763-a-civilidade-esta-vencendo.shtml